Como a negociação da Arena do Grêmio pode servir de exemplo para Corinthians e Palmeiras?

Marcelo Marques, que quer ser presidente do clube gaúcho, pagou R$ 130 milhões para quitar dívidas do estádio e comprar administração do local

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Foto do autor Leonardo Catto
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Imagine que você é um torcedor fanático e detentor de uma boa fortuna e quer reforçar o seu time do coração. Foi algo semelhante a isso que o empresário Marcelo Marques fez com o Grêmio.

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Em meio ao anseio de concorrer à presidência do clube gaúcho, ele desembolsou R$ 130 milhões para comprar a gestão e pagar as dívidas relativas à Arena do Grêmio, em Porto Alegre, e pretende doar o estádio ao clube, que estima uma injeção de receita anual de até R$ 100 milhões com o uso pleno do local.

Inaugurada em 2012, a Arena é objeto de imbróglios entre diferentes gestões gremistas e a antiga empresa gestora. Apenas em 2033 o estádio passaria a ser integralmente do clube.

O primeiro jogo sob a nova gestão, contra o Alianza Lima, na próxima semana, terá ingressos para não-sócios de R$ 40 a R$ 90. Na última partida da Copa Sul-Americana na casa gremista, as mesmas entradas variaram entre R$ 60 e R$ 250.

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O movimento abre possibilidades para a relação de outros clubes com seus estádios. O Palmeiras, por exemplo, tem a gestão do Allianz Parque atrelada à Real Arenas, braço da WTorre. Já o Corinthians é dono de 100% Neo Química Arena, mas ostenta uma dívida de R$ 668 milhões referente ao financiamento da construção junto à Caixa Econômica Federal.

Marcelo Marques (à direita) quer suceder Alberto Guerra (à esquerda) na presidência do Grêmio a partir de 2026. Foto: Angelo Pieretti/Grêmio

Os palmeirenses detém a renda líquida da bilheteria em dias de jogos, além de participação em receitas de camarotes e patrocínios do Allianz Parque. Ainda assim, a gestão e a administração estão cedidas à WTorre até 2044. A construtora é responsável por manutenção e operação, custo de água, luz, segurança e gramado, gestão de eventos, camarotes e naming rights.

Um dos principais pontos que também cabe à empresa é a comercialização de shows e outros eventos. Isso faz com que o Palmeiras não tenha ação sobre o calendário do Allianz Parque e eventualmente mande jogos na Arena Barueri, que virou uma segunda casa.

Palmeiras assume operação do Allianz Parque em dias de jogo, mas não tem controle sobre calendário de outros eventos no local. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Clube e construtora travaram uma década de batalhas judiciais até chegarem a um acordo em 2024. Com concessões dos dois lados, o acerto determinou que o Palmeiras recebesse R$ 117,1 milhões, valor que a WTorre devia ao clube depois que deixou de fazer repasses referentes à receita pelo uso da arena palmeirense.

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O acordo também permitiu ao clube alviverde a ampliação do Gol Norte, setor em que se concentram as torcidas organizadas. Ali foi criada a “Geral Norte”, com ingressos populares.

“A situação do Palmeiras é distinta (em relação à do Grêmio), uma vez que o clube já possui o Allianz Parque. Portanto, não se trata de uma transação de compra e venda de um bem, mas sim de um acordo relacionado à rescisão contratual”, explica ao Estadão, o sócio do escritório CPPV Law, Luiz Gustavo Penner.

“Nessa situação, um terceiro poderia contribuir financeiramente para que o Palmeiras quitasse a multa contratual, que, sem dúvida, seria um montante considerável. Essa abordagem destaca a diferença entre a aquisição de um estádio e a renegociação de contratos de gestão, enfatizando as particularidades que cada clube enfrenta em suas respectivas situações”, conclui.

Vaquinha para quitar dívida da Neo Química Arena arrecadou apenas 5,8% da meta

Durante a construção do estádio corintiano, o clube administrou o local junto da Odebrecht e da Jequitibá Patrimonial. Depois de cumprir obrigações contratuais e financeiras, o Corinthians passou a deter 100% do estádio, assumindo administração e operação do local.

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A pedra no sapato do clube é a dívida com a Caixa Econômica Federal. A construção da arena, que custou R$ 1,2 bilhão, foi financiada por meio de um empréstimo com o banco, além de recursos via Lei de Incentivo ao Esporte e créditos fiscais da prefeitura de São Paulo.

Financiamento da Neo Química Arena representa quase 27% da dívida total do Corinthians. Foto: Taba Benedicto/Estadão

O empréstimo com a Caixa foi no valor de R$ 400 milhões. Hoje, o débito é de R$ 668 milhões e representa 26,72% do total do passivo (R$ 2,5 bilhões). Somente em 2024, a dívida total do clube aumentou R$ 829 milhões.

Para tentar ajudar a quitar o débito com a Caixa, a torcida corintiana lançou uma campanha de arrecadação coletiva. A “vaquinha” está no ar desde 27 de novembro e soma R$ 40.655.549,20, apenas 5,8% da meta de R$ 700 milhões.

Caso a meta não seja alcançada, o valor será utilizado para amortizar a pendência com a Caixa. As doações ocorrem por meio de Pix e vão para uma conta específica do próprio banco. O montante só poderá ser movimentado após o encerramento da campanha.

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“Mesmo que essas transações sejam realizadas a título de doação, sem a necessidade de contrapartida financeira dos clubes, é essencial serem realizadas de maneira bem estruturada. Isso inclui a consideração de possíveis tributações que possam ser aplicáveis”, diz Penner sobre o caso do Corinthians. No caso de doações, pode haver a incidência do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), que deve ser pago à Fazenda do Estado.

Entenda como Marcelo Marques comprou a Arena do Grêmio

Foram cerca de 45 dias em negociações até a assinatura dos documentos. A transação foi oficializada em hotel na Avenida Oscar Freire, no bairro dos Jardins, em São Paulo, na última semana.

Marcel Marques pagará R$ 50 milhões para a Arena Porto-Alegrense em nove prestações de R$ 5,5 milhões. Além disso, serão pagos R$ 80 milhões para a Revee, até então detentora de dois terços do crédito pela construção do estádio, em seis parcelas de R$ 13 milhões.

A Arena Porto-Alegrense foi uma empresa criada durante a construção do estádio como braço da OAS 26 para gerir o local. Diferentemente do caso de WTorre, Allianz Parque e Palmeiras, a gestão em dias de jogos não era cedida ao Grêmio.

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Isso causava uma série de transtornos entre a empresa e o clube. A direção do Grêmio chegou a enviar cerca de 30 notificações judiciais e extrajudiciais à Arena Porto-Alegrense por problemas no estádio.

Marcelo Marques é dono de uma rede de panificadoras e será candidato à presidência do Grêmio. Foto: Angelo Pieretti/Grêmio

A última notificação foi no começo de junho. Segundo o documento assinado pelo presidente Alberto Guerra, um dos problemas era a condição do campo.

“Mesmo após 10 dias sem jogos, em função da Data Fifa, o gramado ainda se encontra inapropriado para a prática do futebol de alto rendimento”, cita um trecho desta notificação.

O Grêmio também reclamou do tratamento com torcedores. “O sistema de acesso ao estádio não está comportando a vazão necessária. Por isso queremos que a Arena implemente melhores práticas para o ingresso rápido e eficiente dos gremistas”, disse Guerra.

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Agora, o clube deixará de pagar R$ 20,5 milhões por ano para a empresa. O valor era referente ao acesso livre dos sócios ao estádio. A renda da bilheteria em jogos e outros eventos passará a ir para os cofres gremistas.

Grêmio deixará de gastar R$ 20,5 milhões para acesso dos sócios e prevê receita de até R$ 100 milhões com o estádio. Foto: Lucas Uebel/Gremio

Por outro lado, o custo de manutenção e operação passará a sair também do orçamento do clube. Ainda assim, o saldo é avaliado como positivo. “A Arena vai ser muito rentável. O custo anula. O Mauro (diretor da Arena) passou que é em torno de R$ 50 milhões para manter funcionando. Nós tiramos fácil isso com movimentação de bilheteria, vendas de publicidade", disse Marcelo Marques, em entrevista coletiva.

“Nosso cálculo, pagando os custos e o que traz de benefícios, pessimista, (renderia) R$ 50 milhões a mais líquido para o clube, e otimista, R$ 100 milhões. Aí depende do torcedor”, concluiu. Segundo Guerra, esses valores corresponderiam de 10% a 20% do orçamento anual do Grêmio.

O empresário gremista chegou a lançar uma pré-candidatura à presidência do Grêmio e disse, como promessa, que compraria a gestão do estádio. Um de seus principais concorrentes na disputa, que ainda não havia de fato iniciado, era Paulo Caleffi, vice-presidente de futebol no primeiro semestre de 2023.

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Caleffi retrucou dizendo que a compra era complexa e não seria tão viável quanto Marques anunciava. Após a confirmação do negócio, o ex-dirigente do Grêmio retirou sua candidatura e demonstrou apoio ao empresário.

Até o fim do ano, Arena do Grêmio deve ser oficialmente doada por Marcelo Marques ao clube. Foto: Lucas Uebel/Gremio

Marques, por sua vez, mantém o desejo de presidir o clube. Entretanto, ele disse que não vai se identificar mais como “pré-candidato”, por causa do momento de união e a distância para o pleito, previsto para setembro.

O Olímpico faz parte da transação sobre a Arena do Grêmio?

A questão ainda por definir é relativa ao antigo estádio gremista. Após a doação de Marques para o Grêmio, o Olímpico Monumental poderá ser entregue à OAS 26 (hoje chamada por Metha) e à Karagounis (administrada pela Caixa e que também tinha participação na Arena).

O antigo estádio deve, enfim, ser demolido e ser substituído por empreendimentos imobiliários. Parte do terreno deverá ser cedido à prefeitura de Porto Alegre.

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Antiga casa do Grêmio, Olímpico deve ser finalmente demolido. Foto: Lucas Uebel/Grêmio

Isso porque a OAS se comprometeu com obras no entorno da Arena do Grêmio, até hoje não concluídas. Essa movimentação seria para que a prefeitura assumisse os serviços, em troca de parte do terreno do Olímpico.

“O Grêmio tem extremo interesse nas obras do entorno, porque a comunidade do Humaitá e Vila Farrapos sofre muito sem essas obras. Mas o Grêmio não é e nunca foi responsável por elas. A empresa responsável é a OAS. Ela ofereceu para a prefeitura um dos terrenos do Olímpico em pagamento a essas obras do entorno. O Grêmio vai acompanhar, mas a responsabilidade é de OAS, Karagounis e prefeitura. E, como morador do bairro, o Grêmio, junto de toda a comunidade, tem a expectativa de que isso se resolva quanto antes”, afirmou o vice-presidente do Grêmio, Eduardo Magrisso.

O bairro Humaitá, onde fica a Arena, é uma das áreas de mais vulnerabilidade social da capital gaúcha e foi uma das regiões mais atingidas durante as enchentes de 2024.

Correções

A compra da Arena do Grêmio teve custo de R$ 130 milhões e não R$ 120 milhões, como a reportagem dizia anteriormente.