Imagine que você é um torcedor fanático e detentor de uma boa fortuna e quer reforçar o seu time do coração. Foi algo semelhante a isso que o empresário Marcelo Marques fez com o Grêmio.
Em meio ao anseio de concorrer à presidência do clube gaúcho, ele desembolsou R$ 130 milhões para comprar a gestão e pagar as dívidas relativas à Arena do Grêmio, em Porto Alegre, e pretende doar o estádio ao clube, que estima uma injeção de receita anual de até R$ 100 milhões com o uso pleno do local.
Inaugurada em 2012, a Arena é objeto de imbróglios entre diferentes gestões gremistas e a antiga empresa gestora. Apenas em 2033 o estádio passaria a ser integralmente do clube.
O primeiro jogo sob a nova gestão, contra o Alianza Lima, na próxima semana, terá ingressos para não-sócios de R$ 40 a R$ 90. Na última partida da Copa Sul-Americana na casa gremista, as mesmas entradas variaram entre R$ 60 e R$ 250.
O movimento abre possibilidades para a relação de outros clubes com seus estádios. O Palmeiras, por exemplo, tem a gestão do Allianz Parque atrelada à Real Arenas, braço da WTorre. Já o Corinthians é dono de 100% Neo Química Arena, mas ostenta uma dívida de R$ 668 milhões referente ao financiamento da construção junto à Caixa Econômica Federal.

Os palmeirenses detém a renda líquida da bilheteria em dias de jogos, além de participação em receitas de camarotes e patrocínios do Allianz Parque. Ainda assim, a gestão e a administração estão cedidas à WTorre até 2044. A construtora é responsável por manutenção e operação, custo de água, luz, segurança e gramado, gestão de eventos, camarotes e naming rights.
Um dos principais pontos que também cabe à empresa é a comercialização de shows e outros eventos. Isso faz com que o Palmeiras não tenha ação sobre o calendário do Allianz Parque e eventualmente mande jogos na Arena Barueri, que virou uma segunda casa.

Clube e construtora travaram uma década de batalhas judiciais até chegarem a um acordo em 2024. Com concessões dos dois lados, o acerto determinou que o Palmeiras recebesse R$ 117,1 milhões, valor que a WTorre devia ao clube depois que deixou de fazer repasses referentes à receita pelo uso da arena palmeirense.
O acordo também permitiu ao clube alviverde a ampliação do Gol Norte, setor em que se concentram as torcidas organizadas. Ali foi criada a “Geral Norte”, com ingressos populares.
“A situação do Palmeiras é distinta (em relação à do Grêmio), uma vez que o clube já possui o Allianz Parque. Portanto, não se trata de uma transação de compra e venda de um bem, mas sim de um acordo relacionado à rescisão contratual”, explica ao Estadão, o sócio do escritório CPPV Law, Luiz Gustavo Penner.
“Nessa situação, um terceiro poderia contribuir financeiramente para que o Palmeiras quitasse a multa contratual, que, sem dúvida, seria um montante considerável. Essa abordagem destaca a diferença entre a aquisição de um estádio e a renegociação de contratos de gestão, enfatizando as particularidades que cada clube enfrenta em suas respectivas situações”, conclui.
Vaquinha para quitar dívida da Neo Química Arena arrecadou apenas 5,8% da meta
Durante a construção do estádio corintiano, o clube administrou o local junto da Odebrecht e da Jequitibá Patrimonial. Depois de cumprir obrigações contratuais e financeiras, o Corinthians passou a deter 100% do estádio, assumindo administração e operação do local.
A pedra no sapato do clube é a dívida com a Caixa Econômica Federal. A construção da arena, que custou R$ 1,2 bilhão, foi financiada por meio de um empréstimo com o banco, além de recursos via Lei de Incentivo ao Esporte e créditos fiscais da prefeitura de São Paulo.

O empréstimo com a Caixa foi no valor de R$ 400 milhões. Hoje, o débito é de R$ 668 milhões e representa 26,72% do total do passivo (R$ 2,5 bilhões). Somente em 2024, a dívida total do clube aumentou R$ 829 milhões.
Para tentar ajudar a quitar o débito com a Caixa, a torcida corintiana lançou uma campanha de arrecadação coletiva. A “vaquinha” está no ar desde 27 de novembro e soma R$ 40.655.549,20, apenas 5,8% da meta de R$ 700 milhões.
Caso a meta não seja alcançada, o valor será utilizado para amortizar a pendência com a Caixa. As doações ocorrem por meio de Pix e vão para uma conta específica do próprio banco. O montante só poderá ser movimentado após o encerramento da campanha.
“Mesmo que essas transações sejam realizadas a título de doação, sem a necessidade de contrapartida financeira dos clubes, é essencial serem realizadas de maneira bem estruturada. Isso inclui a consideração de possíveis tributações que possam ser aplicáveis”, diz Penner sobre o caso do Corinthians. No caso de doações, pode haver a incidência do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD), que deve ser pago à Fazenda do Estado.
Entenda como Marcelo Marques comprou a Arena do Grêmio
Foram cerca de 45 dias em negociações até a assinatura dos documentos. A transação foi oficializada em hotel na Avenida Oscar Freire, no bairro dos Jardins, em São Paulo, na última semana.
Marcel Marques pagará R$ 50 milhões para a Arena Porto-Alegrense em nove prestações de R$ 5,5 milhões. Além disso, serão pagos R$ 80 milhões para a Revee, até então detentora de dois terços do crédito pela construção do estádio, em seis parcelas de R$ 13 milhões.
A Arena Porto-Alegrense foi uma empresa criada durante a construção do estádio como braço da OAS 26 para gerir o local. Diferentemente do caso de WTorre, Allianz Parque e Palmeiras, a gestão em dias de jogos não era cedida ao Grêmio.
Isso causava uma série de transtornos entre a empresa e o clube. A direção do Grêmio chegou a enviar cerca de 30 notificações judiciais e extrajudiciais à Arena Porto-Alegrense por problemas no estádio.

A última notificação foi no começo de junho. Segundo o documento assinado pelo presidente Alberto Guerra, um dos problemas era a condição do campo.
“Mesmo após 10 dias sem jogos, em função da Data Fifa, o gramado ainda se encontra inapropriado para a prática do futebol de alto rendimento”, cita um trecho desta notificação.
O Grêmio também reclamou do tratamento com torcedores. “O sistema de acesso ao estádio não está comportando a vazão necessária. Por isso queremos que a Arena implemente melhores práticas para o ingresso rápido e eficiente dos gremistas”, disse Guerra.
Agora, o clube deixará de pagar R$ 20,5 milhões por ano para a empresa. O valor era referente ao acesso livre dos sócios ao estádio. A renda da bilheteria em jogos e outros eventos passará a ir para os cofres gremistas.

Por outro lado, o custo de manutenção e operação passará a sair também do orçamento do clube. Ainda assim, o saldo é avaliado como positivo. “A Arena vai ser muito rentável. O custo anula. O Mauro (diretor da Arena) passou que é em torno de R$ 50 milhões para manter funcionando. Nós tiramos fácil isso com movimentação de bilheteria, vendas de publicidade", disse Marcelo Marques, em entrevista coletiva.
“Nosso cálculo, pagando os custos e o que traz de benefícios, pessimista, (renderia) R$ 50 milhões a mais líquido para o clube, e otimista, R$ 100 milhões. Aí depende do torcedor”, concluiu. Segundo Guerra, esses valores corresponderiam de 10% a 20% do orçamento anual do Grêmio.
O empresário gremista chegou a lançar uma pré-candidatura à presidência do Grêmio e disse, como promessa, que compraria a gestão do estádio. Um de seus principais concorrentes na disputa, que ainda não havia de fato iniciado, era Paulo Caleffi, vice-presidente de futebol no primeiro semestre de 2023.
Caleffi retrucou dizendo que a compra era complexa e não seria tão viável quanto Marques anunciava. Após a confirmação do negócio, o ex-dirigente do Grêmio retirou sua candidatura e demonstrou apoio ao empresário.

Marques, por sua vez, mantém o desejo de presidir o clube. Entretanto, ele disse que não vai se identificar mais como “pré-candidato”, por causa do momento de união e a distância para o pleito, previsto para setembro.
O Olímpico faz parte da transação sobre a Arena do Grêmio?
A questão ainda por definir é relativa ao antigo estádio gremista. Após a doação de Marques para o Grêmio, o Olímpico Monumental poderá ser entregue à OAS 26 (hoje chamada por Metha) e à Karagounis (administrada pela Caixa e que também tinha participação na Arena).
O antigo estádio deve, enfim, ser demolido e ser substituído por empreendimentos imobiliários. Parte do terreno deverá ser cedido à prefeitura de Porto Alegre.

Isso porque a OAS se comprometeu com obras no entorno da Arena do Grêmio, até hoje não concluídas. Essa movimentação seria para que a prefeitura assumisse os serviços, em troca de parte do terreno do Olímpico.
“O Grêmio tem extremo interesse nas obras do entorno, porque a comunidade do Humaitá e Vila Farrapos sofre muito sem essas obras. Mas o Grêmio não é e nunca foi responsável por elas. A empresa responsável é a OAS. Ela ofereceu para a prefeitura um dos terrenos do Olímpico em pagamento a essas obras do entorno. O Grêmio vai acompanhar, mas a responsabilidade é de OAS, Karagounis e prefeitura. E, como morador do bairro, o Grêmio, junto de toda a comunidade, tem a expectativa de que isso se resolva quanto antes”, afirmou o vice-presidente do Grêmio, Eduardo Magrisso.
O bairro Humaitá, onde fica a Arena, é uma das áreas de mais vulnerabilidade social da capital gaúcha e foi uma das regiões mais atingidas durante as enchentes de 2024.








