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Tri da Argentina, despedidas, zebras, protestos e recordes; o resumo da Copa do Mundo no Catar

Torneio marca o adeus de Messi e Cristiano Ronaldo dos Mundiais, consolidação de Mbappé e manifestações contra o país catariano

Por Caio Possati
Atualização:

A Copa do Mundo do Catar, a primeira no Oriente Médio, chega ao seu fim depois de 29 dias com inúmeros fatos que vão ficar marcados na história dos Mundiais. Entre o jogo de abertura e a decisão, que coroou a Argentina como tricampeã mundial, foram 64 jogos, 172 gols e inúmeras histórias que fazem do torneio, o 22º a ser disputado, único e marcante.

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A começar pela própria decisão. Um empate emocionante com 6 gols, decisões por pênaltis e exibições de classe de Messi e Mbappé — os dois revezaram a artilharia do torneio dentro da própria partida — fizeram a Copa do Catar reservar o melhor jogo do torneio para o final. O último confronto da competição tornou este Mundial o de maior número de gols feitos, ultrapassando as Copa da França e Brasil.

Na competição em que Marrocos levou a África a uma semifinal do torneio pela primeira vez, outras escritas importantes também foram abaixo no Catar. Messi, por exemplo, que fez a sua quinta a última Copa do Mundo, ultrapassou o alemão Lothar Matthäus e se tornou o jogador que mais entrou em campo em partidas de Mundial: 26 vezes.

Messi. eleito melhor jogador da Copa, comemora vitória e o título mundial da Argentina.  Foto: Jabin Botsford / The Washington Post

Apesar da derrota, Mbappé mostrou que seu reinado no futebol segue firme. O francês de 23 anos, um dos melhores do mundo, autor de um hat-trick na final e artilheiro da Copa com 8 gols, pode não ser mais considerado uma promessa, mas encabeça uma geração talentosa de jogadores que deram as caras no Catar e que, certamente, ocuparão o posto de protagonistas nos próximos mundiais.

Em uma Copa que será lembrada também pelo posicionamento de jogadores e torcedores contra políticas adotadas no Catar, o Brasil, que novamente caiu para uma seleção europeia antes da semifinal, voltou para casa com o gosto indigesto de que poderia, e deveria, ter feito muito melhor.

Um tricampeonato coroado por Messi

A Copa do Catar foi a Copa da Argentina, mas, sobretudo, o Mundial de Lionel Messi. Após uma decisão eletrizante, em que abriram 2 a 0 e depois 3 a 2 sobre a França, cedendo o empate nas duas vezes, os argentinos chegaram à vitória na decisão por pênaltis. A Argentina é o novo tricampeão do futebol mundial.

Argentina celebra o primeiro gol que marcou na decisão diante da França Foto: AP / AP

É o fim do jejum de 36 anos sem conquistar o maior torneio de futebol do planeta. Aos 35 anos, Messi finalmente tem uma Copa para chamar de sua. Como cantaram os argentinos durante todo o Mundial, Diego Maradona acompanhou tudo do céu e deu seu apoio a Lionel Messi no tri.

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Campanha histórica de Marrocos

A Copa do Mundo do Catar também será lembrada pela primeira participação de uma nação africana nas semifinais do torneio. Contra todas as previsões, a seleção de Marrocos chegou a ficar entre as quatro melhores equipes do Mundial depois de derrotar a Bélgica na fase de grupos, e eliminar Espanha e Portugal nas oitavas e quartas de final.

Com um futebol sólido, leve e de técnica refinada, os marroquinos só foram parados pela seleção da França, na semifinal, quando perderam para os então campeões do mundo por 2 a 0. Outro momento marcante protagonizado pela seleção de Marrocos foi nas comemorações das vitórias sobre Espanha e Portugal, quando os jogadores levaram suas mães e filhos ao gramado para celebrarem, juntos, as classificações.

Sofiane Boufal, do Marrocos, comemorou a vitória sobre Portugal levando sua mãe, que estava nas arquibancadas, para o gramado do Estádio Al Thumama.  Foto: Friedemann Vogel / EFE

Fiasco brasileiro

Cotada como uma das favoritas ao título, a seleção brasileira caiu novamente nas quartas de final para uma equipe europeia — repetindo o que aconteceu nas Copas de 2006, de 2010 e 2018 —, e adiou o sonho do hexacampeonato.

O futebol apresentando pelo Brasil no Catar esteve bem abaixo do esperado. Foram três vitórias, uma derrota no tempo normal e um empate contra a Croácia, que eliminou a equipe comandada por Tite nas penalidades. A qualidade e a criatividade, vistas nos amistosos antes do torneio, apareceram apenas em lampejos nos gramados catarianos.

Neymar lamenta a derrota de Brasil nas quartas de final diante da Croácia Foto: AP / AP

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Mesmo assim, o Brasil esteve a quatro minutos de uma semifinal. Porém, a falta de calma, maturidade e liderança quando o momento mais pedia levou o Brasil a uma desclassificação inesperada, que fez Neymar cair aos prantos ainda no gramado. A partida, ainda, colocou um ponto final na trajetória de seis anos de Tite à frente da seleção brasileira, assim como a de jogadores como Daniel Alves e o capitão Thiago Silva.

De positivo, ficam o carisma de Richarlison, que encantou os brasileiros com espontaneidade e bolas na rede — foi o artilheiro do time com três gols —, e também o talento de uma nova geração, liderada por Vinicius Junior e Rodrygo, que pode ser muito bem aproveitada na Copa de 2026.

Despedida de Cristiano Ronaldo

Aos 37 anos, Cristiano Ronaldo, um dos mais premiados jogadores do século, não deverá retornar para a próxima edição do torneio, que será realizada em 2026. O português encerrou seu ciclo na maior competição de futebol do mundo às lágrimas depois da eliminação de Portugal nas quartas de final.

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Cristiano Ronaldo lamenta chance perdida contra o Marrocos nas quartas de final da Copa do Mundo, partida que selou sua despedida da competição. Foto: Martin Meissner / AP

No Catar, Cristiano Ronaldo começou suas últimas partidas na competição do banco de reservas por opção do técnico Fernando Santos. O craque português se mostrou insatisfeito por ter sido substituído contra a Coréia do Sul. Cristiano Ronaldo não escondeu a mágoa e optou até por ficar de fora de um treinamento dado para os reservas. Até mesmo boatos de que ele deixaria a delegação portuguesa no meio da Copa precisaram ser desmentidos. Para piorar, Gonçalo Ramos, o substituto do craque, fez um hat-trick na goleada sobre a Suíça, tornando a ausência de Cristiano em campo ainda menos sentida.

O provável adeus deixa, ao menos, conquistas importantes. Com o gol feito no Catar, Cristiano Ronaldo se tornou o único jogador a balançar as redes em cinco Mundiais (2006, 2010, 2014, 2018 e 2022). Mas os oito tentos não foram suficientes para ultrapassar Eusébio, que fez nove, e se tornar o maior artilheiro de Portugal em Copas do Mundo.

Outros craques se despedem

Outros grandes jogadores também fizeram na Copa do Catar suas últimas apresentações em Mundiais. Veteranos como Luis Suárez, Edinson Cavani, Robert Lewandowski, Thomas Müller, Sergio Busquets e o brasileiro Thiago Silva deverão se aposentar de suas respectivas seleções.

Robert Lewandowski se despede dos torcedores após eliminação da Polônia  Foto: EFE / EFE

Além dos jogadores, uma despedida também pode ser considerada certa. E ela vem dos bancos. Aos 71 anos, o técnico Louis Van Gaal, tão polêmico quanto genial, também é outro a colocar um ponto final na sua trajetória em Copas do Mundo.

Nova geração pede passagem

O Mundial catariano também mostrou que uma talentosa geração está surgindo. Pela primeira, um jogador nascido no século 21 marcou em uma Copa do Mundo. O autor do gol foi o meio-campista inglês Jude Bellingham, do Borussia Dortmund, na goleada da Inglaterra sobre o Irã por 6 a 2.

Além dele, jovens como Saka, também da Inglaterra; Julián Álvarez, da Argentina; Cody Gapko, da Holanda; Vinicius Junior e Rodrygo, do Brasil, bem como os espanhóis Gavi e Ferrán Torres deram mostras de bom futebol e maturidade em suas primeiras participações em uma Copa do Mundo, e que têm repertório para voltar à competição nas próximas edições.

Anfitrião não venceu

Não foi uma surpresa assistir à desclassificação da seleção do Catar ainda na fase de grupos da Copa. Mas a equipe que representou o país-sede neste Mundial foi a primeira da história a sair derrotada em todas as três partidas que disputou: perdeu para o Equador por 2 a 0; para Senegal por 3 a 1 e para a Holanda por 2 a 0.

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O time foi, junto com Canadá, os únicos que não conseguiram nenhum ponto na competição. Em 2010, na África do Sul, os anfitriões também não passaram da fase de grupos, mas conseguiram, ao menos, um empate contra o México e uma honrosa vitória sobre a França, e acabou sendo desclassificada com 4 pontos conquistados.

Enner Valencia comemora o segundo gol do Equador na vitória por 2 a 0 sobre o Catar, no jogo que abriu a Copa do Mundo. Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

Favoritos caem cedo

Equipes tradicionais e alçadas à condição de favoritas deixaram o Mundial bem mais cedo do que o previsto. A Bélgica, que terminou na 3ª colocação da Copa da Rússia, não passou da fase de grupos e foi eliminada vencendo apenas o Canadá, por 1 a 0, na estreia. A queda precoce do talentoso, mas “envelhecido”, time belga ocorreu em meio a um clima de turbulência entre os jogadores.

Thomas Müller, um dos ícones da seleção viveu o melhor e o pior das Copas: prestígio em 2010, título em 2014 e eliminações precoces em 2018 e 2022. Foto: Matthew Childs / REUTERS

A eliminação mais inesperada — e também comemorada —, porém, foi a da Alemanha, que estreou com derrota sobre o japoneses e não se recuperou a tempo de avançar para os mata-matas. Chegou a empatar com a Espanha e a vencer a Costa Rica, por 4 a 2, mas não adiantou: pela segunda vez seguida, os alemães morreram na fase de grupos da Copa, para a alegria dos brasileiros que ainda não engoliram o 7 a 1 de oito anos atrás.

No mesmo grupo de Alemanha, estava a Espanha, que, apesar de ter avançado para a fase eliminatória, caiu nas oitavas para o Marrocos depois de empatar com a seleção africana por 0 a 0 no tempo normal e também na prorrogação. Nas penalidades, os espanhóis perderam as três cobranças e foram embora para casa.

A queda dos favoritos foi a consequência de várias zebras. Nesta lista de resultados improváveis estão as vitórias de Arábia Saudita sobre Argentina, da Tunísia sobre a França, do Japão sobre Alemanha e Espanha, de Camarões sobre o Brasil, da Coréia do Sul sobre Portugal, e de Marrocos, sensação da Copa, que derrotou a Bélgica na fase de grupos e eliminou espanhóis e portugueses na oitavas e quartas de final.

Pelé homenageado

Internado no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, desde o começo de dezembro, Pelé foi homenageado no Catar em diferentes oportunidades. Seja pela própria organização do evento, pelos jogadores da seleção brasileira, por torcedores nas arquibancadas ou por membros de outras delegações.

Mbappé, que chegou a quebrar a marca do melhor jogador da história ao se tornar o mais jovem a marcar 9 gols com menos de 24 anos em Copas e marcar em duas finais, também prestou homenagens a Pelé nas redes sociais. Cristiano Ronaldo e Harry Kane também deixaram suas mensagens desejando melhoras ao Rei, que trata um câncer do cólon.

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Jogadores da seleção brasileira fizeram homenagem para Pelé depois da partida contra a Coreia do Sul. Foto: Kim Hong-Ji / REUTERS

Despedida de Galvão das Copas e novidades na transmissão

Depois de 13 coberturas de Copas do Mundo, Galvão Bueno anunciou que a do Catar é a sua última como narrador. O locutor titular da Rede Globo permanece na emissora, mas estará envolvido em outros projetos que não envolvem a narração. No Catar, Galvão foi um dos jornalistas premiados por ter participado, in loco, de mais de nove Mundiais.

O Mundial também serviu de porta de entrada para outros profissionais inovarem e fazerem história na narração. Uma delas foi Renata Silveira, da Rede Globo, que se tornou a primeira mulher a narrar um jogo de Copa em TV aberta. Ao todo, a locutora trabalhou em 13 partidas (nove na televisão e outras quatro para o portal GE).

Além de Renata Silveira, o streamer e apresentador da TNT Sports Casimiro Miguel foi outro protagonista das transmissões da Copa do Catar. Em parceria com a LiveMode e a Fifa, ele transmitiu alguns jogos do torneio por meio de uma live na Twitch e também pelo seu canal no YouTube, o CazeTV.

Renata Silveira é a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo em TV aberta. Foto: João Cotta / Globo

Inovações na arbitragem

Na primeira Copa em que foi permitida a convocação de 26 jogadores e o aumento de substituição de três para cinco atletas — ou seis, em caso de prorrogação —, o Mundial do Catar também será lembrado por inovações importantes na arbitragem, como o do impedimento semiautomático que tornou a identificação das posições irregulares dos jogadores mais rápida e precisa.

Aumentou também a quantidade de câmeras instaladas nos estádios para que VAR (o árbitro de vídeo) pudesse faz a correção de uma decisão equivocada do juiz de campo. A validação do gol do Japão contra a Espanha foi um dos exemplos desse tipo de intervenção.

A tecnologia instalada nos estádios conseguiram identificar que a bola do segundo gol do Japão sobre a Espanha não tinha saído do campo por completo. Foto: Peter Cziborra/Reuters

Acréscimos elevados

Os torcedores aprenderam que vale acreditar até o último minuto pelo resultado desejado. Afinal, o apito final demorou para ser dado nos jogos deste Mundial. Por determinação da Fifa para “dar mais espetáculo a quem assiste” — como disse o italiano Pierluigi Collina, presidente do comitê de árbitros da entidade —, os juízes adotaram a medida de esticar os jogos por meio de elevados acréscimos. O tempo dos jogos ultrapassaram, com frequência, os 100 minutos.

Partida entre Argentina e Holanda, pelas quartas de final, teve 10 minutos de acréscimo no segundo tempo. Foto: Molly Darlington / REUTERS

Protestos de jogadores

Os protestos também estiveram sob os holofotes do Mundial. Os ingleses se ajoelharam contra o racismo, os iranianos se calaram no hino contra a repressão imposta pelo Governo local — sobretudo às mulheres —, e os alemães taparam a boca por se sentirem censurados pela Fifa, que proibiu seleções de usarem a braçadeira de capitão com cor da bandeira do arco-íris, símbolo da comunidade LGBT+, altamente perseguida no Catar.

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A homossexualidade não é tolerada no país-sede da Copa, o que motivou equipes, representantes dos Estados e até torcedores a se manifestarem contra essa política de perseguição. Na partida entre Uruguai e Portugal, um homem invadiu o gramado com uma bandeira LGBT+ e com uma camisa com os dizeres, em inglês, “salve a Ucrânia” na frente e “salvem as mulheres iranianas” na parte de trás.

Protestos individuais também foram vistos nos gramados do Catar. Como o de Ismaila Sarr, do Senegal, que ao comemorar um gol contra o Equador, tapou os olhos e simulou uma arma em sua cabeça. O gesto (já feito também pelo jogador congolês Cédric Bakambu no Campeonato Francês) denuncia genocídios que acontecem nas nações africanas.

Jogadores da Alemanha realizaram protesto contra a decisão da Fifa de impedir seleções de usarem a braçadeira de capitão com o símbolo da comunidade LGBT+. Foto: Eugene Hoshiko / AP

Morte de jornalistas no Catar

Durante a cobertura da Copa do Mundo, três jornalistas morreram no Catar. O norte-americano Grant Wahl, de 49 anos, foi a óbito depois de sofrer um mal súbito na partida entre Argentina e Holanda. Já os demais profissionais de imprensa, o fotojornalista catariano Khalid Al-Misslam e Roger Pearce, não tiveram a causa de suas mortes divulgadas. A Fifa prestou homenagens às três vítimas.

Fifa prestou homenagem para Grant Wahl no assento do Estádio Al Bayt, onde o jornalista acompanharia França e Inglaterra. Foto: Fifa/Reprodução

Quebra de recordes

No Catar, algumas marcas importantes que envolvem a Copa do Mundo foram quebradas. Alguma delas foram:

Copa com maior número de gols, 172. Ultrapassou os torneios sediados na França (1998) e Brasil (2014), que tiveram 171 gols.

Lionel Messi se isolou como o jogador que mais partidas fez em uma Copa do Mundo (26). O recorde anterior era dividido entre o próprio argentino e o Lothar Matthäus, com 25 jogos.

Com as cinco apresentações feitas no Catar, a seleção brasileira se tornou a equipe que mais jogos fez em Copas do Mundo na história: 114. Até então, a marca já era do Brasil, que dividia o posto com a Alemanha.

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Neymar também quebrou marca de Pelé e, ao marcar contra a Croácia, virou o maior artilheiro da história da seleção brasileira em jogos oficiais com 77 gols.

Olivier Giroud, da França, também conseguiu o feito ao longo da Copa e se tornou o maior artilheiro da história da seleção francesa com 52 gols depois de marcar contra a Polônia. O centroavante passou Thierry Henri.

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