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Gabriel Medina, o 'Neymar do surfe'

Brasileiro de 17 anos impressiona até feras como Kelly Slater, 39 anos e 11 vezes campeão mundial

Por Paulo Favero e de O Estado de S. Paulo
Atualização:

SÃO PAULO - O menino voador Gabriel Medina está deixando o mundo do surfe de cabeça para baixo. Aos 17 anos, é tido como uma das maiores promessas da modalidade que tem o veterano Kelly Slater, 39 anos e 11 vezes campeão mundial, como grande destaque.

 

O garoto brasileiro surpreendeu a todos ao vencer sua primeira etapa do Circuito Mundial neste ano em Hossegor, na França, e repetir a dose em São Francisco (EUA) há menos de duas semanas.

Nunca na história do Circuito Mundial da ASP (Associação dos Surfistas Profissionais) um estreante na elite tinha alcançado dois título em apenas quatro etapas disputadas.

 

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Não é à toa que está sendo considerado um fenômeno das pranchas. "Já estão chamando ele de Neymar do surfe", comenta Charles, padrasto do garoto e que o acompanha em todas as competições, onde quer que seja.

 

A marca registrada de Gabriel são os poderosos aéreos, capazes de fazer com que os juízes lhe entreguem notas 10 com uma facilidade surpreendente. O menino parece fazer com naturalidade o que marmanjos com muitos anos de treino não conseguem. "Isso é um talento que ele tem mesmo. Quando subiu na prancha pela primeira vez, já deu para ver isso. Só tive de corrigir alguns erros. É como o Neymar ou o Pelé, que possuem um talento natural", continua Charles.

 

Mas no começo houve uma certa apreensão com a escolha pelo esporte, principalmente do lado da mãe. Ela não se conformava com o fato de ele abrir mão dos estudos por causa do surfe. "A princípio isso me incomodava, achava que ele precisava ter um diploma e uma profissão. Mas o Charles pediu para eu relaxar, porque um dia ele seria campeão mundial. A partir daí, o surfe ficou em primeiro plano. Mas eu falei para ele fazer uma faculdade no futuro", avisa Simone, orgulhosa do talento do menino.

 

A preocupação da família é menor porque Gabriel acabou o segundo grau no ano passado e, mesmo não tendo feito o Enem, pretende um dia voltar aos estudos. "Ele sempre me escuta e faz o que a gente pede", orgulha-se a mãe. Charles completa: "É um menino muito bom, um adolescente com mentalidade de adulto. O que ele fez até hoje, nunca ninguém fez. Em três anos estará bem maduro."

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QUEBRANDO TUDO

Criado nas ondas de Maresias, no litoral norte de São Paulo, Gabriel teve Charles como principal mentor. Aos 8 anos, ganhou sua primeira prancha, um presente do padrasto, e não largou mais. "Desde que ele começou, eu já olhava e via que tinha talento. Certa vez perguntei se ele queria levar o surfe a sério, e ele me disse que queria ser campeão mundial. Não esqueço isso", conta Charles.

 

No início, o lado radical do menino ainda não estava lapidado. Suas tentativas de voos mais altos em cima da prancha muitas vezes não acabavam bem, como lembra a mãe Simone. "Essa coisa de aéreo é instintiva dele, que sempre inova, assiste muito filme e se espelha nos outros. Mas, no começo, era especialista em quebrar pranchas. Às vezes até chegava com a cabeça arrebentada. Tomava pontos e depois queria novamente entrar no mar com os curativos."

 

Para os amigos de Maresias, o fenômeno das ondas tem condições de surpreender ainda mais. "Com 9 anos ele ganhava de caras de 15. Eu já vi ele dando um mortal de capoeira de dois metros de altura que nunca tinha visto ninguém dar antes", afirma Jonathan Paiva, o Jô. Seu irmão Jefferson, o Jé, completa. "Ele dá aéreos incríveis e sempre surpreende a gente." Outro que ajudou muito na trajetória de Gabriel foi Flávio Tavares, o Caixa d’Água. Ele aponta um detalhe na personalidade do menino que ajuda a vencer as etapas. "Ele cresce muito na hora da decisão. Acho que vai ser campeão do mundo umas dez vezes."

 

A mãe Simone jura que Gabriel herdou isso dela. "O auge da força dele é no cansaço. Isso vem de mim", brinca.

 

Kelly Slater sentiu isso na pele duas vezes. Nas etapas que o garoto venceu, em ambas o campeão mundial foi eliminado por Medina. E, na última, nos Estados Unidos, Slater mandou o brasileiro para a repescagem e se sagrou campeão. Mas, na sequência, o rapaz carimbou a faixa do veterano com uma eliminação nas quartas de final. "Ele vai mudar o conceito de aéreo no surfe nos próximos anos", comentou Slater.

 

Agora Gabriel está no Havaí para a disputa das últimas etapas do Circuito Mundial. Tem a torcida dos amigos e da família, que já não sabe mais onde colocar tanto troféu.

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O irmão Felipe, de 15 anos, não quis saber do mar: adora futebol. Já a irmã Sophia, de 6 anos, já começa a dar suas primeiras braçadas na prancha e quem já viu jura que ela tem talento no skate.

 

Se em 2011 Gabriel mostrou seu cartão de visitas, o próximo ano será fundamental para ele provar que tem condições de ficar na elite. Na sua casa, a família vai dar apoio, colo e conversar muito para que ele não suba na prancha de salto alto. "Eu tenho um pouco de constrangimento com a fama dele. Nós somos muito simples e ainda não caiu a ficha. Mas não vou deixar ele virar um babaca", conclui Simone.

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