O mundo da bola e o futebol pelo mundo

O mundo da bola e o futebol pelo mundo

Arapuca de Renato faz Fluminense escrever uma das mais belas páginas do Mundial de Clubes

Time de guerreiros vence merecidamente o Al-Hilal por 2 a 1 e pode seguir sonhando com João de Deus

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Foto do autor Mauro  Beting

Leão de Nemeia? Tubarão do Al-Hilal não deu pro cheiro. Hidra de Lerna? Várias cabeças e corações tricolores deram conta. Javali de Erimanto? Volantes e zagueiros capturaram a fera durante o jogo. Corça de Cerínia? Renato armou a arapuca e teve pouco perigo contra. Pássaros do estínfalo? Não tinha ninguém para bater asa contra o Tricolor. Estábulos de Augias? O Flu limpou a área em 90 minutos. Touro de Creta? Thiago Silva o captura, Ignacio cuida dele. Éguas de Diomedes? Arias neles. Cinto de Hipólita? Cinturão de volantes e zagueiros de Renato dão jeito. Maçãs de ouro? Pecado capital. Cérbero? Para quem tem cabeça e cérebro. Gado de Gerião? Vão pastar os que não tiveram guerreiros nesse time.

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O Fluminense não tem o dinheiro, estrutura e elenco do Flamengo do Palmeiras. Não tem a SAF e o elenco do Botafogo. Mas tem uma semifinal para contar aos netos e aos rivais cariocas. Uma das mais belas páginas do Fluminense. Daquelas históricas onde o time muitas vezes incinerado acaba sendo incensado pelos deuses da bola.

Pena que a pena de Nelson Rodrigues não está entre nós para escrever que já estava escrito, tudo antes do nada. E para lamber as crias de Xerém.

Xerém, base tricolor.

Xerém, as Laranjeiras do século XXI.

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É de Xerém que saiu John Kennedy, fundamental para a Libertadores, em 2023. É de Xerém que veio Martinelli, quem mais jogou com a equipe principal da turma de linha, e outro que veio do celeiro do berço tricolor.

Renato Gaúcho orienta jogadores do Fluminense durante partida contra o Al-Hilal, no Mundial de Clubes. Foto: Michael Reaves/AFP

Depois de anos e erros administrativos, depois de muito investimento em quem vinha de fora, o Fluminense olhou para a base, olhou para casa, olhou para os seus. Um deles fez o gol no primeiro tempo, na primeira chegada perigosa, com 39min55s.

Cruzamento de canhota de Samuel Xavier, a zaga afastou, o ótimo João Cancelo chutou mal como se fosse eu na jogada, sobrou para Fuentes dar para essa fonte da juventude tricolor. Martinelli bateu de canhota no ângulo do excelente goleiro marroquino. Um a zero na primeira chegada em um jogo até então marcado e estudado, igual, quase chato. E que igualou os desiguais até nos chats.

Al-Hilal é uma equipe saudita com investimento europeu. Nos últimos dois anos, investiu mais de três bilhões de reais para montar um bom elenco. De jogadores como Koulibaly, que subiu de cabeça mais do que todos os tricolores, mas não conseguiu vencer o jovem garoto Fábio. Ele que tem avançada idade em que muitos dirigentes, jornalistas e torcedores adoram dizer o absurdo abjeto que é “um ex-jogador em atividade”... Não devia estar mais jogando... Mas quem joga mais do que Fábio? Quem defende mais do que ele? Um espetáculo.

Como foi espetacular o VAR para ajudar a arbitragem, que errava feio a marcar um nada de pênalti, no ótimo Marcos Leonardo, em lance que Samuel Xavier mal o tocou. Na revisão, o acerto a favor do Fluminense, que mais uma vez acertou na escolha de Renato Gaúcho ao espelhar taticamente o seu Fluminense ao Al-Hilal. Como já havia brilhado contra a Inter, ex de Inzaghi.

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A única mudança em relação à vitória histórica contra a Internazionale foi Fuentes, no lugar de Renê, na ala-esquerda. Os dois volantes sólidos, que também chegam à frente, como Bernal, e Martinelli, autor do primeiro gol, e Nonato, como um terceiro atrás sem a bola, tentando chegar mais à frente em Arias (que corre e joga demais por todos). Na zaga, com Ignácio jogando como Thiago Silva, Thiago Silva jogando como nenhum outro na história tricolor, e Freytes também segurando a bronca.

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Contra um time que se defendia em um 5-3-2, por vezes 5-4-1, mas que não conseguia fazer a bola chegar ao artilheiro Marcos Leonardo, e pálida apresentação de Malcom pela direita. Outro brasileiro, Renan Lodi, de novo sacrificado taticamente, como zagueiro pela esquerda, ou, como bem definiu Fernando Campos, em mais uma grande narração do Luisinho Freitas, na Cazé TV: “Renan Lodi é o Bastoni de Inzaghi no Al-Hilal”.

Mas não bastou isso, não. O Fluminense foi mais eficiente na primeira etapa, chegou uma vez, e fez um gol. O Al-Hilal chegou outra vez, logo depois com Koulibaly, e Fábio não deixou.

Renato voltou do intervalo com Hércules x Martinelli. Além de manter o ótimo nível, poupava um volante amarelado. O Al-Hilal foi para cima. Natural. Como tem sido outro o Tricolor na Copa do Mundo. Como costuma dar resultado rápido o trabalho de Renato. Ele não é o Guardiola como às vezes se vende. Mas é muito melhor do que os não poucos detratores redatores o detonam.

Com 5 minutos, Marcos Leonardo aproveitou sozinho a subida solitária de Koulibaly (na bobeada de Bernal), e empatou. Jogo ficou ainda mais igual, e com eficácia impressionante. Só três chances. Um gol para cada lado.

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Cano perdeu um gol que ele não perde, sozinho, ao tentar driblar o gigantesco Bono, aos 9, depois de recuo errado de Renan Lodi. Na sequência, demorou a finalizar em outro lindo lance do craque da Copa -

Arias.

Não parecia a tarde de Cano. Al-Harbi quase perdeu a bola ao mandar longe chance perigoso, aos 17. Cinco minutos depois, Everaldo x Cano, Lima x Nonato.

Aos 24 min37s, Hércules roubou bola perdida, Samuel Xavier serviu de cabeça, e o 14º trabalho de Hércules foi cumprido – o 13º havia sido o segundo gol contra a Inter. 2 a 1 Flu.

Aos 30, o volante Kanno foi substituído pelo artilheiro estreante Hamdallah, perigoso atacante marroquino, no repaginado 3-4-3 saudita. Na volta do cooling break, Arias inventou lance pela esquerda que Samuel pegou bem para ótima defesa de Bono. Aos 37, Samuca sentiu lesão. Até ele às vezes prega. Guga no lugar dele.

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Renato trancou de vez o Flu no 5-4-1 com o bloco mais baixo. Quando não um 6-3-1, também pela entrada de Kaio César aberto, em um 3-3-4. Mas pouco criou o rival. Porque o Tricolor soube como jogar e não deixar jogar. De novo.

Os sete minutos de acréscimo duraram décadas. Mas o Fluminense de Renato estava preparado. Talvez o mundo desta Copa é que não está preparado para a superação tricolor.

Uma das mais lindas, emocionantes e inesperadas histórias do futebol brasileiro.

Opinião por Mauro Beting

Comentarista SBT, TNT, Xsports, N Sports e BandNews FM. Escritor e documentarista. Curador do Museu Pelé e do Museu da Seleção Brasileira.