O mundo da bola e o futebol pelo mundo

O mundo da bola e o futebol pelo mundo

Os 10 maiores ‘injustiçados’ da seleção em Copas do Mundo, com Neymar e Alex entre eles

Nomes que não podiam faltar em Mundiais, mesmo com o Brasil voltando com o caneco

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Foto do autor Mauro  Beting

Mauro Beting: 'Eu trocaria 7 nomes da boa convocação de Ancelotti e gostaria de ver Neymar'

Técnico fez mais uma boa convocação da seleção brasileira. Kaio Jorge, do Cruzeiro, e Estêvão, do Chelsea, estão entre os escolhidos.

“Faltou ele”. Essa é a frase mais comum a ser ouvida logo após qualquer convocação da seleção brasileira, ainda mais antes da Copa do Mundo. Portanto, aqui vão meus 10 maiores “injustiçados” da história da seleção, que mereciam ter ido a determinado Mundial, mas não foram:

10. Luizinho (Corinthians 1958) – O Pequeno Polegar já não vivia o auge da sua carreira brilhante, que foi na primeira metade dos anos 1950, com um Corinthians três vezes campeão paulista e campeão do Rio-São Paulo. Mas, então, era indiscutivelmente, o melhor jogador da história alvinegra, e continua sendo um dos maiores de todos os tempos. Pequeno, insolente, e profundamente habilidoso, com muita vontade e raça também para jogar pela Seleção, onde nunca teve muito espaço.

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Em condições normais, ele teria jogado a Copa de 1958 – na reserva do craque do torneio, o genial Didi. Não só ele, mas com outras características, também Evaristo de Macedo, depois de brilhar pelo Flamengo, brilharia intensamente na Espanha, por Barcelona e Real Madrid. Com bola para ter jogado em duas Copas do Mundo quando defendia a equipe catalã.

Mas eram outros tempos, em que os jogadores que jogavam fora do país não atuavam pela Seleção Brasileira em mundiais. Como foi o caso do caráter, da coragem, da competência, de Julinho Botelho, que não quis jogar também a Copa de 1958 porque entendia que alguém que atuava fora, na época pela Fiorentina, não poderia ter tirado o lugar de jogador que estava dentro do país, atuando em clube brasileiro. Julinho merecia ser o reserva de Garrincha. Só não está nesta lista de injustiças o maior camisa 7 do Juventus, Portuguesa, Fiorentina e Palmeiras porque ele mesmo não se convocou na Suécia. E, em 1962, uma lesão o impediu de ser bicampeão, no Chile.

9. Servílio (Palmeiras, 1966) - O melhor jogador brasileiro um mês antes do Mundial na Inglaterra, na bagunçada convocação de Vicente Feola, técnico campeão de 1958 (que não pôde dirigir o Brasil em 1962 porque estava doente), e em 1966 sucumbiu pior das políticas clubistas e barristas. Convocou inexplicáveis 46 atletas para não formarem quatro equipes e deformou o time do Brasil. O melhor jogador brasileiro antes da Copa foi absurdamente cortado sem o menor motivo. Servílio provavelmente não faria o Brasil jogar melhor, em um grupo dificílimo como estava, na péssima preparação tática e ainda pior física. Mas, certamente, Servílio merecia ter estado em uma Copa do Mundo. Filho de um grande craque, que foi o bailarino do Corinthians, Servílio. Pai e filho mereciam melhor sorte na Seleção Brasileira.

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8. Ganso (Santos, 2010) - Os melhores jogadores no Brasil, em 2010, faziam parte do Santos, que havia acabado de ser campeão paulista e que, logo depois, seria campeão da Copa do Brasil. Era uma dupla que emulava grandes momentos dos meninos da Vila de 1978, com Juari e Pita, e os Meninos 2.0 de Robinho e Diego, no grande Santos de 2002 a 2004. Neymar já esmerilhava desde 2009, assim como Paulo Henrique Ganso, e ambos levaram o Santos de Dorival Júnior além. E poderiam ter feito coisa melhor na Copa do Mundo com Dunga, que lamentavelmente não quis apostar em novos nomes, confiou em outros discutíveis, e mesmo assim o Brasil quase vai longe na Copa que seria menos complicada com Ganso e Neymar. O armador paraense vivia seu melhor ano na carreira.

Ganso já era um pouco mais rodado e absolutamente brilhante. E, como dizia o doutor Sócrates na época, Ganso era um dos dez maiores jogadores de todos os tempos no Brasil e no mundo. Um exagero. Mas ele jogava um exagero então.

7. Zé Carlos (Cruzeiro, 1970) - É o maior volante da história do Guarani, e um dos maiores da história do Cruzeiro, que teve um grande capitão, Wilson Piazza. Um time de grandes estrelas a partir dos anos 1960. Zé Carlos mudou taticamente as posições de Dirceu Lopes e sobretudo Tostão, para poder se encaixar no time do Cruzeiro multicampeão. Como Zé seria campeão brasileiro de 1978 pelo Guarani, e estava na preparação do Brasil para a Copa de 1970. Uma seleção que tinha grandes nomes e que não teve chance para que outros grandes jogadores como Dirceu Lopes, Ademir da Guia e Edu Coimbra fossem campeões no México. Não levar Zé Carlos é até normal pelo excesso de contigente e gente qualificada. Mas ele acabou expiando pela falta de badalação e pela política midiática do futebol brasileiro. Mineiros e gaúchos tinham pouco espaço na Seleção Brasileira. Ainda hoje.

6. João Paulo (Bari, 1990) - No futebol italiano, no auge da Série A, em que havia Maradona, o seu fiel e fidelíssimo companheiro Careca, que no Milan brilhavam Van Basten e Gullit, que havia outros craques como os alemães Rummenigge e Klinsmann... Nessa Itália, o melhor atacante da temporada 1989-1990, na rigorosa média da Gazzetta dello Sport, o principal jornal italiano, foi o ponta-esquerda João Paulo, do Bari, revelado pelo Guarani.

Na época, o jogador que mais sofria faltas em todo mundo, e que fez muita falta à Seleção Brasileira, que não tinha pela esquerda um ponta como João Paulo. Como não havia tido na série A italiana no seu auge, um atacante tão eficiente quanto João Paulo. Um crime lesa-bola de Sebastião Lazaroni. Também podia ter convocado outros jogadores. O próprio Neto já jogava muito bem no Corinthians.

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Mas o craque Neto explodiria mesmo no Timão depois da Copa de 1990, na primeira conquista nacional do Corinthians. Neto não ter sido convocado em 1990, muitas vezes, é por esquecimento da própria mídia, que acha que ele já comia a bola no primeiro semestre. Ele já jogava bem pelo Corinthians, mas não tão bem como guiaria o Timão na conquista do Brasileiro, seis meses depois do Mundial na Itália. Os que abusam da barra forçada são os mesmos pensadores que acham que Zico foi injustiçado na Copa de 1974. Zico já era injustiçado no Flamengo desde 1972, dirigido pelo mesmo Zagallo do Brasil da Copa de 1974. Zico só foi estourar, mesmo, como craque do Brasileiro daquele ano, durante a preparação para a Copa da Alemanha Ocidental.

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O BR-74 foi disputado de fevereiro até agosto de 1974, quando o Brasil se preparava para ser quarto lugar na Alemanha. Zico foi o Bola de Ouro da Revista Placar, merecidamente. Um dos maiores da história do futebol mundial. Mas seria absurdo dizer que Zico foi injustiçado em 1974, porque enquanto ele comia a bola no Flamengo, a seleção já se preparava para o Mundial.

5. Neymar (Santos, 2010) – Menino Ney é meu quinto nome. Poderia ser o primeiro. Maior goleador da história da Seleção, devia ter estado no grupo na África do Sul. Se não para ser titular, certamente como uma opção de banco. Sabendo que ele já seria o que é, e seria quase que sozinho no futebol brasileiro, de 2010 até 2025. Dunga errou ao não ser um pouquinho mais ousado e alegre com o Neymar, na Copa de 2010.

Neymar e Ganso em treino do Santos em 2010 Foto: Sergio Neves/AE

4. Djalminha (La Coruña, 2002) - só não foi mesmo para a Copa de 2002 porque, antes da convocação, deu uma cabeçada no seu treinador, Javier Irureta. Mas como Djalminha é o “bolão” para 11 em cada dez jogadores, ele tinha muito futebol para brilhar na Seleção, como encantava no La Coruña, já havia brilhado no Palmeiras, tinha tido seus momentos no Flamengo - onde saiu por indisciplina. Djalma podia honrar o nome de outro grande injustiçado em Copas do Mundo que foi o seu pai, Djalma Dias.

Djalminha era peça-chave do time de 1996. Meia fez 88 partidas pelo clube e marcou 47 gols até 1997 Foto: Paulo Pinto/Estadão - 02/06/1996

O zagueiraço merecia estar na Copa de 1966. Titular absoluto nas Feras de João Saldanha, das eliminatórias 100%, em 1969, já não estava tão bem em 1970, e nunca foi lembrado pelo novo treinador Zagallo. Djalma Dias e Djalminha formam a família mais injustiçada da história da Seleção brasileira. Pelo menos duas Copas o pai tinha como ter jogado, e pelo menos uma Djalminha tinha um bolão para ter sido pentacampeão pelo Brasil em 2002.

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3. Alex (Palmeiras, 2002) - O craque do Palmeiras de Felipão campeão da América em 1999. Alex chegou um pouquinho antes de Felipão ao clube, e teve problemas para se adaptar ao esquema e à ideia de jogo do treinador, que o queria emprestado ao Botafogo em 1998, antes dele ser o craque do Palmeiras na Mercosul. Treinador que havia pedido depois da Copa de 1998 a contratação de Jackson para ser titular no Palmeiras em 1999. Mas Alex superou as cobranças e desconfianças, as próprias críticas da torcida palmeirense, e virou um dos craques da história do Palmeiras e também do Cruzeiro. Ele merecia amplamente ter participado no grupo em 2002.

Alex foi um dos grandes jogadores a nunca ter ido a uma Copa do Mundo Foto: Reprodução/Alex Instagram

Provavelmente não seria titular em time de gênios como Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká começando. E, pelo futebol que jogou em 2003 e 2004, podia ter sido opção de Parreira para Copa da Alemanha de 2006. Alex entra na lista por ter sido surpreendente sua ausência. Já que desde 2001 se sabia que não era boa a relação de Felipão com Romário.

Barra forçada pelo presidente da CBF Ricardo Teixeira que queria o genial Baixinho em 2002. Felipão e parte das lideranças do grupo não acharam “necessário” o convocar pelo potencial de retorno do Fenômeno. Estavam certos. Romário não precisou ser o que foi em 1994 – essencial ao tetra. O que não conseguiu ser em 1990, ainda se recuperando de fratura na perna, e o que não pôde ser em 1998, cortado por lesão. Romário acabou não sendo ausência tão lamentada em 2002 por razoes fenomenais. Ronaldo que não deixou espaço para outros grandes atacantes como Élber, Amoroso e Sony Anderson.

2. Dirceu Lopes (Cruzeiro, 1970) - Outra grande estrela celeste merecia uma Copa do Mundo, sobretudo a de 1970. Mas assim como outro cracaço, Ademir da Guia, que só foi jogar em 1974 (e ainda assim poucos minutos brilhantes contra a Polônia), Dirceu Lopes era outro que jogava e falava pela bola, não pela boca. Também por isso foi perdendo condição de titular e até mesmo de banco para Zagallo. Já brilhava com Saldanha e havia começado a preparação de 1970 ao lado de Pelé (pela ausência de Tostão), no 4-2-4 do antigo treinador. Dirceu Lopes foi o craque do Robertão de 1969 em um Cruzeiro que bateu na trave e quase foi campeão. Ele mantinha um nível excepcional em 1970. Se não estava tão bem na seleção para ser titular, que teria o próprio companheiro Tostão como referência ao lado de Pelé, já com Zagallo, merecia ter tido mais chances com o técnico e merecia ter estado entre os 22 no tri do México.

1. Falcão (Internacional, 1978) - O maior crime lesa-bola da história da Seleção Brasileira foi a não convocação do melhor jogador do Brasil em 1975 e 1976, um dos melhores em 1977, e que não pôde ir à Argentina em 1978 por questões táticas, técnicas e sobretudo de relacionamento com o treinador Cláudio Coutinho.

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Falcão no comando do Internacional Foto: Edu Andrade/ Agência Estado

Um técnico muito à frente do seu tempo, que montaria o grande Flamengo de 1981-82, o melhor time que eu vi na vida (mas já sem Cláudio Coutinho, então dirigido por Paulo César Carpegiani no banco). Coutinho que morreria logo depois da conquista da Libertadores de 1981, pouco antes das finais vencidas do Carioca de 1981 e do Mundial de 1981 pelo Flamengo. Coutinho de grandes serviços à Seleção Brasileira, como supervisor na Copa de 70, mas que muitas vezes fazia más escolhas como selecionador.

Como, por exemplo, insistir em quase queimar o zagueiro Edinho, que ainda jogaria mais duas Copas do Mundo, como lateral-esquerdo improvisado. Ganhando o espaço de Rodrigues Neto, que estava melhor, e, sobretudo, preterindo nomes históricos, como Júnior, que já poderia ter jogado a Copa de 1978, e mesmo Marinho Chagas, que ainda que indisciplinado taticamente, era muito melhor do que o improvisado Edinho.

Crime lesa-bola mesmo foi deixar o gaúcho Paulo Roberto Falcão fora da Seleção. Cracaço do maior time dos anos 1970, o Inter de Rubens Minelli de 1975 e de 1976 (este, até hoje com a melhor campanha da história do Campeonato Brasileiro) e o futuro tricampeão brasileiro invicto em 1979. Falcão de 1980 a 1985 seria o rei de Roma. Absurdamente não pôde ser o rei ou o caudilho em campos argentinos. Preterido por Chicão, jogador de outra característica, ótimo volante do São Paulo, pegador, mas que não era um criador.

Como o elegante Falcão, Paulo Roberto que tinha como grande companheiro colorado outro volante que fez uma baita Copa do Mundo, talvez o melhor jogador do Brasil na Argentina: Batista. Eles poderiam reeditar uma dupla brilhante. Podendo até vitalizar Zico e Rivellino, que não fizeram uma boa Copa. Mesmo com a Seleção terminando invicta e no terceiro lugar, a sensação não foi boa deixada pelo Brasil de Coutinho. Muito pela injustificável ausência do craque Falcão. Ele que foi, ao lado de Zico, os dois melhores brasileiros na saudosa Seleção de Telê, em 1972.

Opinião por Mauro Beting

Comentarista SBT, TNT, Xsports, N Sports e BandNews FM. Escritor e documentarista. Curador do Museu Pelé e do Museu da Seleção Brasileira.