Não há registros de que Lula tenha defendido performance em que criança toca homem nu

Reportagens que repercutiram debate sobre a peça Le Bête não citam manifestações do ex-presidente; ao Comprova, autor da postagem não explicou em que ocasião o petista teria classificado a performance de 2017 como 'arte'

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Por Projeto Comprova
Atualização:

Esta checagem foi produzida por jornalistas da coalizão do Comprova. Leia mais sobre nossa parceria aqui.

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Conteúdo investigado: Vídeo em que homem diz: "Ninguém tem coragem de falar, mas eu falo. Se você insiste em votar em um ex-presidiário que vê crianças passando a mão em um homem nu e diz que isso é arte, ou você é muito idiota, ou ele te deu muito dinheiro." Na gravação, o autor do vídeo aparece de capacete e óculos escuros, percorrendo uma estrada de terra.

Onde foi publicado: Kwai.

Conclusão do Comprova: Não há registro que comprove que Lula tenha chamado de arte cena registrada em vídeo, que circulou na internet em 2017, em que uma criança toca o corpo de um homem nu durante performance artística no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. O vídeo de um trecho da performance foi divulgado à época, gerando uma série de protestos e discussões. Na ocasião, a um ano das eleições presidenciais de 2018, o assunto foi explorado politicamente. Uma reportagem publicada pelo Correio Braziliense sobre a repercussão do caso no meio político, porém, informava que "os pré-candidatos Lula e Marina Silva (Rede) não se manifestaram publicamente sobre o assunto".

 

O Comprova também fez buscas na internet e não localizou tal declaração de Lula. Já a assessoria de imprensa do ex-presidente e atual candidato à Presidência da República afirmou que o político não fez nenhuma manifestação sobre o assunto.

O autor da postagem, que, no vídeo, apenas menciona "crianças passando a mão em homem nu", sem citar um episódio específico, confirmou ao Comprova que se referia à cena gravada em 2017 envolvendo a performance "La Bête", no MAM. Questionado, porém, não prestou informações sobre a fonte em que teria se baseado para afirmar que Lula havia classificado a cena como "arte".

Para o Comprova, falso é o conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma falsidade.

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Alcance da publicação: Apenas na plataforma de vídeos Kwai, até as 12h45 do dia 26 de agosto, o vídeo alcançava 132,4 mil visualizações.

O que diz o autor da publicação: Entramos em contato com o autor do vídeo, Danilo Molteni, pelo Instagram. Pedimos a ele que identificasse o caso ao qual estaria se referindo na gravação. Em resposta, Danilo encaminhou o link de uma reportagem do G1, publicada em setembro de 2017, com o título "Interação de criança com artista nu em museu de São Paulo gera polêmica". Confirmou, portanto, estar se referindo, no vídeo, à performance "La Bête", do artista Wagner Schwartz. A matéria jornalística, contudo, não faz menção a Lula.

O influencer também enviou uma foto, em que o ex-presidente aparece sorrindo ao assistir a dois homens se beijando na boca. Na foto, porém, não há pessoas nuas, nem crianças. Ao fazer busca reversa da imagem, ficou constatado que se tratava de uma performance em um ato de artistas e intelectuais, realizado no dia 18 de janeiro de 2018, a favor de Lula.

Questionado, o autor do vídeo não explicou em que ocasião o candidato teria classificado o episódio de 2017 no MAM como "arte", apenas escreveu: "Não to entendendo aonde vc quer chegar (sic)" e "Pelo que eu saiba ainda temos o direito de liberdade de expressão (sic)". Também enviou o link de um texto publicado no blog de Rodrigo Constantino, em 2017, na Gazeta do Povo, em que ele faz críticas à mesma performance realizada no MAM, porém, sem qualquer citação a Lula ou comentários que o petista teria feito sobre o caso. O espaço no site se apresenta como "blog de um liberal sem medo de polêmica ou da patrulha da esquerda 'politicamente correta'".

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Questionado diversas vezes sobre a fonte da informação que teria dado origem à afirmação feita no vídeo, o autor não respondeu, afirmando apenas "já disse o que tinha para dizer".

O Comprova também perguntou qual teria sido sua intenção ao gravar o vídeo. Danilo limitou-se a dizer que "é uma reflexão sobre o que esperar de votar em um ex-presidiário, só isso".

Como verificamos: Inicialmente, a reportagem pesquisou no Google pelas palavras-chaves "Lula", "homem nu", "arte". A consulta resultou, entre outros links, em uma postagem no Facebook de um perfil conservador, de janeiro de 2018, que apresenta um vídeo com trecho de uma entrevista do ex-presidente ao jornalista e escritor Fernando Morais, no canal do blog Nocaute no YouTube. O título da publicação é "O que Lula pensa da 'arte' homem nu com crianças?", mas o conteúdo exibido não entrega a resposta ou qualquer comentário do ex-presidente sobre performances teatrais.

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A equipe procurou, então, pelo vídeo original da entrevista. Com a ferramenta InVid, foi possível selecionar frames do vídeo e fazer busca reversa dessas imagens para identificar uma publicação anterior. Também foram feitas novas buscas no Google com os termos "Lula" + "Fernando Morais" + "entrevista" + "Nocaute". O Comprova localizou a entrevista completa, dividida em três blocos (1, 2 e 3), e assistiu ao conteúdo. O ex-presidente não faz menção ao que foi alegado no vídeo aqui investigado.

A reportagem entrou em contato com o autor da publicação, que respondeu apenas alguns questionamentos. Um deles foi de que a declaração de Lula teria sido feita em relação à performance do artista Wagner Schwartz, em "La Bête". A partir dessa informação, também foram feitas pesquisas com uma série de outros termos relacionados à performance, ao artista, ao ex-presidente e ao museu.

As consultas realizadas pelo Google retornaram reportagens sobre a repercussão do caso (G1, Veja, Gazeta do Povo, Carta Capital, O Globo, Folha de S.Paulo) e postagens nas redes sociais, mas nenhuma faz referência à suposta manifestação de Lula.

Na busca avançada do Twitter, com o filtro da língua portuguesa (lang='pt'), não há retorno quando pesquisado "Lula" + "La Bête". Mas, quando consultado "Lula" + "homem nu", aparecem várias postagens em que os dois termos são citados, porém, nenhuma declaração do petista sobre a performance artística.

A assessoria do ex-presidente também foi procurada e negou que Lula tenha declarado o que foi divulgado no vídeo.

Não há registro de suposta declaração de Lula

Não há registro de que Lula tenha feito comentários diretos sobre a participação de uma criança em uma performance realizada pelo artista Wagner Schwartz, no MAM, em setembro de 2017. Na ocasião, a menina, acompanhada da mãe, toca no corpo nu de Schwartz, que, em La Bête, procura reproduzir, com o corpo despido, o efeito de interação proposto na série Os Bichos, de Lygia Clark, em que esculturas poderiam assumir diferentes formas a partir da manipulação pelo público.

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O autor do vídeo verificado, postado no dia 17, procura relacionar Lula ao episódio. Em contato com o Comprova, ele não esclareceu perguntas sobre a fonte da informação em que se baseou para sua afirmação.

O Comprova fez buscas na internet e em redes sociais, mas não encontrou nenhuma declaração direta de Lula sobre o episódio. Em uma entrevista, quando perguntado sobre as discussões no país relacionadas à performance e ao cancelamento de uma exposição em Porto Alegre, também em 2017, respondeu de forma generalizada, mencionando que o preconceito e o ódio começam a ser expostos anos antes, a partir das manifestações de 2013 (neste vídeo, a partir do minuto 14). Não há menção direta à performance no MAM.

Uma matéria da Agência Estado, publicada em 16 de outubro de 2017, no Correio Braziliense, traz informações sobre a repercussão, no meio político, da cena da menina tocando o corpo do artista. O texto diz que "os pré-candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Marina Silva (Rede) não se manifestaram publicamente sobre o assunto".

Acusações retornam neste ano

Em setembro de 2017, a repercussão em torno da performance La Bête e da mostra Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em Porto Alegre, foi um dos temas discutidos na arena política, a um ano das eleições presidenciais de 2018. Os que defendiam a performance e a exposição foram associados à esquerda, e representantes políticos, apoiadores e eleitores desse espectro foram atrelados às acusações que citavam apologia à erotização de crianças e à pedofilia. (G1, El País, Rádio Jovem Pan).

Os temas fizeram parte da campanha de 2018, quando o Comprova e o Fato ou Fake, do G1, mostraram serem falsas postagens que sugeriam que o então candidato pelo PT, Fernando Haddad, defendia a descriminalização da pedofilia. Em 2020, Bolsonaro voltou ao tema em postagem nas redes sociais, conforme mostram reportagens do Metrópoles e IstoÉ Dinheiro. E, neste ano, novamente, quando, em março, associou o PT à pedofilia em declaração dada a apoiadores, como noticiaram UOL e Carta Capital.

Ainda em março deste ano, os Tribunais Regionais Eleitorais de São Paulo e de Santa Catarina determinaram a suspensão de um trecho de uma propaganda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) que relacionava a esquerda a suposta flexibilização do crime de pedofilia (G1, Gazeta do Povo, UOL).

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Por que investigamos: O Comprova investiga conteúdos suspeitos que viralizaram nas redes sociais sobre a pandemia, políticas públicas do governo federal e eleições presidenciais. A postagem cita Lula, candidato à Presidência, atribuindo falsamente declarações ao ex-presidente. O conteúdo falso é danoso ao processo democrático, porque distorce a compreensão da realidade, ao passo que a população tem direito de saber a verdade e basear suas escolhas em informações confiáveis.

Outras checagens sobre o tema: A pouco mais de um mês para as eleições, o tema é recorrente nas verificações do Comprova, que já demonstrou que não há evidências de que o presidente do Chile tenha projeto nacional inspirado em Lula, que posts enganam ao sugerir que Bolsonaro e ministros olhavam para o petista em foto feita no TSE, que decreto para participação das Forças Armadas nas eleições é praxe no Brasil e não confere mais força a Bolsonaro, e que o Brasil não foi o único país a registrar deflação em julho.

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