PUBLICIDADE

‘A droga é a principal ecocida da Amazônia’, afirma ex-presidente da Colômbia Iván Duque

Em entrevista ao ‘Estadão’, Duque criticou o plano de Paz Total de seu sucessor, Gustavo Petro, e destacou o papel do narcotráfico na devastação ambiental da região amazônica

Foto do author Carolina Marins
Por Carolina Marins
Foto: Aris Oikonomou / AFP
Entrevista comIván DuqueEx-presidente da Colômbia (2018 a 2022)

Marcado por sua política de guerra às drogas quando foi presidente da Colômbia entre 2018 e 2022, Iván Duque atribui ao narcotráfico a culpa pelos números crescentes de devastação ambiental na Amazônia. O político desembarca em Belém, no Pará, nesta sexta-feira, 1º, para participar da Conferência Internacional Amazônia e Novas Economias, promovida pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).

Em entrevista concedida por vídeochamada ao Estadão, o ex-presidente criticou a política de Paz Total de seu sucessor, Gustavo Petro, que, segundo ele, só tende a promover a criminalidade. Duque assumiu a presidência com a promessa de reduzir o desmatamento, diminuir os assassinatos de líderes ambientais e acelerar a transição energética. Seu governo, porém, foi marcado por oscilações constantes nas taxas de desmatamento e aumento da violência contra ativistas.

Duque também deixou o cargo sem ratificar o Acordo de Escazú, tratado regional para proteger os defensores ambientais na América Latina e no Caribe. Ele assinou a adesão colombiana, mas os debates não avançaram no Congresso por dificuldades impostas por membros de seu próprio partido, o Centro Democrático. Sua presidência também ficou marcada pela defesa do fracking, uma técnica polêmica de extração de combustível do subsolo que provoca danos ambientais.

O ex-presidente da Colômbia, Iván Duque Foto: Andrew Kelly/Reuters

Na entrevista, o ex-presidente respondeu a questionamentos sobre esses temas, além de combate ao narcotráfico, a gestão de Gustavo Petro e a migração venezuelana pelo país. Sem citar Jair Bolsonaro, com quem teve boas relações durante sua presidência, Duque criticou líderes que atribuíram ao governo brasileiro os recordes em desmatamento de 2021 e 2022, bem como as queimadas na Amazônia e no Pantanal. Confira trechos:

Quais são os principais desafios de ser o presidente de um país em que a selva amazônica ocupa quase a metade do território, especialmente em um contexto em que as questões ambientais recebem menor atenção da população em comparação com inflação, segurança e o narcotráfico?

No final das contas, a questão da crise climática que estamos vivendo não espera, e o mundo não percebe que, para resolver a crise climática, precisamos proteger efetivamente a Amazônia. A Amazônia tem mais de 6 milhões de km² e mais de 50 milhões de habitantes. Ela é uma verdadeira usina de biodiversidade e é um regulador de outros ecossistemas, incluindo os ecossistemas de alta montanha. A Colômbia é apenas 10% do bioma amazônico, mas 35% do território colombiano é amazônico e mais ou menos 50% é tropical, portanto, para nós, colocar essa agenda não é simplesmente uma questão de conjuntura e, embora a Colômbia represente muito pouco no número de emissões globais de gases de efeito estufa, somos um dos países mais vulneráveis a essa crise climática, portanto, agir em defesa do meio ambiente, promover a economia circular, a transição energética, a mobilidade limpa e a biodiversidade faz parte de uma visão de desenvolvimento, e fico feliz que na Colômbia tenhamos conseguido que a Lei de Ação Climática fosse aprovada por unanimidade em ambas as Câmaras porque, no final das contas, todos na Colômbia entendem que a proteção ambiental não tem cor política e muito menos ideologia.

Seu governo avançou em temas importantes da agenda ambiental, como a criação de novas zonas marinhas, ampliação de áreas protegidas e avanço da transição energética. Porém, há temas que ficaram pendentes em sua administração, como o aumento do desmatamento nos anos da pandemia e a não ratificação do Acordo de Escazú para proteção de ativistas ambientais. Por que esses temas não avançaram?

Conseguimos uma redução na taxa de desmatamento de 30%, que era a nossa proposta. Os números mais altos de desmatamento que a Colômbia já teve se registraram no anos de 2017, quando estávamos perdendo mais de 200.000 hectares. O que temos que entender é que se olharmos para todo o bioma Amazônico, o que foi perdido em quatro décadas é quase do tamanho da França e da Alemanha juntas, então essa não é apenas uma questão colombiana, é uma questão em que todos os países do bioma Amazônico têm que enfrentar que é o fenômeno da ilegalidade, porque o que está provocando a devastação é a mineração ilegal, os cultivos ilícitos, a exploração ilegal de madeira. Nesse sentido, fizemos muito progresso na Colômbia, mudamos a legislação para tornar os crimes ambientais mais rígidos e, de fato, estabelecemos uma tendência na redução da taxa de desmatamento.

Já sobre o Tratado de Escazú, o que acho muito interessante, em primeiro lugar, é que quando assumi a presidência, o Tratado não estava nem assinado, a Colômbia nem sequer o havia assinado, e o Tratado foi assinado por mim como Presidente e eu o apresentei ao Congresso com uma mensagem de urgência. O que mais me alegra é que o atual governo decidiu dar continuidade à política que desenvolvemos com relação ao acordo e conseguiu concluir o processo de debate do projeto de lei logo nos seus primeiros meses. Uma das poucas conquistas legislativas do atual governo é ter concluído o esforço que desenvolvemos com relação à assinatura e ratificação do Acordo de Escazú. E uma observação muito particular é que Escazú é uma cidade da Costa Rica, onde o Tratado foi assinado, e a Costa Rica não o ratificou.

Publicidade

[Ativistas criticam a declaração de 30% de redução do desmatamento do governo nos quatro anos de governo Duque pela meta estar baseada no ano que foi recorde de desmatamento, 2017. Na prática, ano a ano, as taxas oscilaram com queda em 2018 e 2019, aumento em 2020, queda em 2021 e manutenção em 2022]

Em pronunciamento, Iván Duque propõe diálogo para tentar aplacar crise. Seu governo viveu uma das maiores ondas de protestos da Colômbia Foto: Presidencia de Colombia/EFE

O senhor citou a ilegalidade e um dos desafios aos países da região é justamente o crime organizado que se estabelece ou se utiliza da selva para perpetuar sua economia. E aqui vale ressaltar que a Colômbia tem o histórico de ser um dos países mais violentos para ativistas ambientais. Isso faz com que a luta ambiental atravesse a questão de segurança. E justamente a segurança, o crime organizado surge como uma das principais questões pendentes da Colômbia. O que falta para avançar nessas duas questões interconectadas?

A droga é a principal ecocida na Colômbia e é também o principal fator por trás dos assassinatos de líderes sociais, líderes ambientais e até mesmo de pessoas em processo de reincorporação. Eu sempre disse como presidente: quanto mais cocaína, menos paz. Então é preciso entender que para cada hectare de coca que é semeado, entre dois e três hectares de floresta tropical são destruídos e a cocaína é também a droga mais poluente para o meio ambiente porque para produzir um quilo de cocaína é preciso usar vários galões de gasolina, vários quilos de cimento e, além disso, muitos produtos químicos acabam sendo jogados nas selvas.

Uma das coisas que descobri quando me tornei presidente é que havia pouquíssimas pessoas condenadas por crimes ambientais e acho que o mesmo pode estar acontecendo no Brasil. Imagine que vimos tanto desmatamento e há pouquíssimas pessoas presas por esses ecocídios que tiveram um impacto negativo em todo o planeta. Então ter a legislação, os incentivos combinados e a promoção da transição econômica com a operação Artemis para combater o crime organizado por trás desses delitos ambientais, foram fundamentais. E foi muito difícil mudar tudo isso em quatro anos e no meio de uma pandemia, mas começamos a estabelecer uma tendência que nos permitiu reduzir a taxa de desmatamento e lutar efetivamente contra muitos líderes das estruturas criminosas que estavam por trás desse negócio. Eu acredito que essa é uma luta que não pode ser relaxada porque isso é igual uma erva daninha, se você deixar ela crescer, ela vai comer tudo o que tem lá, a luta contra o crime organizado tem que ser constante e é muito importante que na construção de uma coordenação de políticas amazônicas nós possamos nos unir para iniciar uma mobilização contra esses crimes com o Brasil, o Peru e, claro, com outros países amazônicos.

[A operação Artemis foi uma estratégia militar lançada em 2019 para combater o desmatamento e a violência na região amazônica. Estudos, porém, apontam que a operação contribuiu para um aumento da violência com a presença militar, fazendo os números de ativistas mortos dobrarem.]

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Já que entramos nessa questão da droga, o novo governo de Gustavo Petro tem uma política praticamente oposta da sua que era a guerra contra as drogas. Petro tem o plano de Paz Total. Qual é o seu balanço deste plano agora exatamente um ano depois?

Não se constrói a paz com impunidade, não se constrói a paz dando recompensas e benefícios aos criminosos, porque a paz que não se baseia na lei e na ordem, acaba sendo um terreno fértil para novas estruturas criminosas. Portanto, acredito que o que estamos vendo hoje na Colômbia é que a Paz Total acabará sendo uma paz fatal e que as recompensas para os criminosos também significarão que os criminosos se sentirão empoderados para cometer mais delitos. Por isso espero que o governo possa corrigir o rumo, porque todos os dias em que se dá um novo benefício, uma nova mensagem melosa, uma nova mensagem de ternura para os criminosos mais perigosos que já vimos, isso os empodera e por isso vão seguir assassinando ativistas, cometendo massacres, narcotráfico. O caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções e claramente no que eles chamam de paz total é uma paz fatal.

O atual presidente da Colômbia, Gustavo Petro, durante celebração por sua vitória nas eleições de 2022 Foto: Mauricio Dueñas Castaneda/EFE

Nos últimos anos, o tema das mudanças climáticas se tornou mais um tópico polarizante. Como é possível promover esse debate da urgência climática em um cenário cada vez mais polarizado politicamente?

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Definitivamente há muitos lugares onde o tema se polarizou, mas na Colômbia pelo menos por enquanto isso não se sente, embora a nossa política também esteja muito polarizada. Ter conseguido aprovar a Lei de Ação Climática por unanimidade mostra que, quando se trata de conservação e da luta contra o aquecimento global, não há cor política, é uma questão de sobrevivência, responsabilidade e ética na luta contra a mudança climática.

A polarização começa quando há negadores das mudanças climáticas e em muitos países há pessoas que negam a existência dessa crise, o que é absurdo. Acredito que a Colômbia superou esse debate e acredito que, desde o nosso governo, com o que foi a política de economia circular, a transição energética, as áreas protegidas, mas, além disso, os contratos de conservação natural [...] tudo isso somado, colocou a Colômbia em uma vanguarda onde, felizmente, o atual governo também decidiu dar continuidade a muitas das medidas que adiantamos em nosso governo. Por isso, acredito que a melhor maneira de superar a polarização é entender que essa não é uma questão de ideologia ou de partidos, que a conservação é uma obrigação moral. Temos que nos unir com base no fato de não negarmos a existência da crise climática, mas entendermos que a velocidade com que avançarmos será vital para a sobrevivência de nossa existência.

O senhor está presente em uma Conferência que se celebra em Belém e em 2025 teremos a COP-30 sendo celebrada no mesmo lugar. Qual a importância de trazer as discussões climáticas para dentro da Amazônia e como transformar os debates e objetivos dessas conferências em ações concretas?

Não vamos fazer sucesso na luta contra a mudança climática sem proteger a Amazônia e para isso é necessário levar o desmatamento a zero e isso requer uma nova economia para a Amazônia, onde podemos gerar empregos verdes, neutralidade de carbono, novos empreendimentos e conservação e uma mobilização massiva. Para que se entenda, o Brasil representa 60% do bioma amazônico ou um pouco mais, com milhões de pessoas que vivem nele, e sozinho no Brasil são mais de 28 milhões de pessoas que vivem na parte brasileira do bioma amazônico. Por isso o Brasil é fundamental na luta contra a crise climática que temos, mas a pergunta é: o Brasil pode resolver isso sozinho?

Publicidade

O Brasil precisa fazer um esforço de governo a nível federal, estadual, através do setor privado e também exige que a comunidade internacional possa fazer uma mobilização massiva de recursos para trabalhar com as comunidades na conservação. Porque podemos fazer tudo bem em matéria de luta contra a mudança climática, mas se não protegermos a Amazônia, não alcançaremos a meta de 2030 e de 2050. E ainda dentro da Amazônia, não conseguiremos ser eficazes se a liderança do Brasil não mantiver isso vivo. Então, por isso todos temos que assumir a importância que isso tem, a importância que tem no Brasil o setor privado de se preocupar em buscar essa nova economia. E eu acredito que esta conferência é supremamente interessante porque justamente está convidando a refletir sobre essa nova economia para a Amazônia com miras a poder ter desmatamento zero e garantir que a proteção da Amazônia seja um dos pontos centrais para registrar as metas globais para o ano 2030 e para o ano 2050.

Iván Duque durante participação da COP-26, em Glasgow Foto: Phil Noble/REUTERS

O senhor ressalta a importância da liderança brasileira no tema, mas vimos nos últimos quatro anos que foi justamente as questões ambientais que fizeram do Brasil um país isolado do mundo, principalmente por países europeus. Esse período de isolamento somado a números recordes de desmatamento atrasaram a luta para conter o avanço das mudanças climáticas?

Tenho uma visão diferente, porque primeiro acredito que a degradação do bioma amazônico não é algo que começou há quatro ou oito anos. Estamos sofrendo há quatro décadas e muitos governos tentaram detê-lo, mas não conseguiram fazê-lo na proporção necessária, nem no Brasil, na Colômbia, nem no Peru, nem no Equador, porque estamos vendo muitas economias ilegais e, além disso, acredito às vezes que tem gente do contexto internacional que não entende as dificuldades se que colocam com os eventos climáticos extremos.

Curiosamente quando vemos os terríveis incêndios florestais na Austrália, não vi ninguém culpar o governo australiano por isso. A agora que vemos os devastadores incêndios florestais na Grécia, não vejo ninguém culpar o governo. O que acabamos de ver tristemente no Havaí, em Maui, são fenômenos climáticos extremos. Acredito que alguns setores da comunidade internacional cometeram um erro quando ocorreram os incêndios florestais de 2019 e culparam um governo. Acho que isso nem é uma questão política.

Temos que sair de discussões que acabam sendo invadidas pela política e o que chama a atenção é que no Brasil há uma consciência muito grande da importância da Amazônia. Acho que os governadores da grande maioria dos estados amazônicos no Brasil, senão todos, têm um grande comprometimento com essa causa, e acredito que é nisso que temos que focar, e não fazer disso uma questão de esquerda ou de direita.

Não dá pra falar de proteção ambiental na Colômbia sem citar a migração que nos últimos dois anos passou a utilizar das selvas como rotas de passagem. O senhor criou o Estatuto de Proteção Temporal para o venezuelanos que migravam à Colômbia, porém agora o fenômeno é outro, esses venezuelanos estão passando pela selva de Darién, entre Colômbia e Panamá, para ir aos EUA. Como a Colômbia pode atuar para atenuar essa crise humanitária?

Não é só uma migração venezuelana, é também um migração haitiana e de outros lugares, incluindo África, com vista a ir para a fronteira sul dos Estados Unidos. A questão é: porque existem pessoas que estão dispostas a arriscar as suas vidas atravessando as fronteiras dos Estados Unidos? Acredito que essencialmente o fazem para poder multiplicar sua renda com o câmbio e ajudar suas famílias em momentos de inflação, desigualdade, instabilidade, etc., então a melhor forma de contemplar essa pressão migratória é olhar em conjunto para melhores oportunidades. Acredito que, por exemplo, a política que consistia em restabelecer no continente americano indústrias que foram despachadas para outras partes do mundo pelos Estados Unidos pode ser muito interessante, mas também a outra é ter uma economia que gera renda permanente principalmente para a população mais vulnerável.

Essa migração não é fenômeno só da Colômbia, é um fenômeno praticamente continental, exige uma intervenção clara. E por outro lado, algo que fizemos, foi cumprir a nossa palavra mesmo que tivesse um custo político, que era cumprir uma migração fraterna. Muita gente disse que o Estatuto de Proteção Temporária iria desencadear o desemprego, a informalidade e a pobreza multidimensional. Praticamente dois anos depois de ter tomado essa decisão, a pobreza multidimensional diminuiu, o desemprego diminuiu e adicionalmente a informalidade diminuiu. Então eu penso que uma política migratória fraterna também é muito importante em nossos países.

A COP-27 teve um avanço importante em matéria de Justiça Climática com a criação de um fundo de perdas e danos aos países mais vulneráveis, porém avançou pouco em ouras questões chaves, como o uso de combustíveis fósseis e a necessidade de frear o aquecimento global. Como evitar o retrocesso nesses temas em um contexto em que a guerra da Ucrânia desencadeou um novo disparo das energias sujas?

Definitivamente a situação da guerra na Ucrânia e as tensões entre os Estados Unidos e a China, foram fatores que a COP-27 levou em conta. Acredito que há coisas muito lucrativas, como a estratégia de crédito de carbono para África. Acredito que também há coisas recuperáveis, na medida em que mais países se comprometeram com a agenda 3030 e a ratificaram mais tarde na COP-15 da biodiversidade, que teve lugar em Canadá. Dito isso, acredito que o mundo tem que assumir que há uma transição energética, o mundo não pode despachar e dizer adeus ao petróleo abruptamente. Tem que fazer essas transições. E há países que estão comprometidos com energias renováveis não convencionais, etc.

Publicidade

Sou otimista com os compromissos que muitos países assumiram. E especificamente sobre os combustíveis fósseis, o mundo sabe que esse processo ainda pode levar mais décadas. A indústria já criou consciência para tentar reduzir suas emoções, atingir a neutralidade do carbono em seus projetos. Creio que isso tudo ajuda, mas hoje temos certamente um mundo que está vendo um crescimento exponencial de veículos elétricos, de energias renováveis não convencionais, de projetos de hidrogênio verde, os projetos maremotrizes. Finalmente. Hoje temos uma maior consciência, mas o ponto é que os países que mais contribuíram com a para a crise climática ainda estão longe de atingir os mesmos objetivos que então estabeleceram para si próprios no acordo de Paris.