Amsterdã provoca revolta ao tentar mudar distrito da luz vermelha de lugar

A prefeitura quer melhorar o bairro para os moradores, mas os profissionais do sexo se opõem às medidas recentemente implementadas

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Por Claire Moses
Atualização:

Dissuadir turistas rudes e ruidosos de tomar conta do distrito da luz vermelha tem sido um objetivo buscado por Amsterdã há anos. A capital holandesa anunciou recentemente novas medidas para combater o barulho e o abuso de substâncias, que são objeto de reclamações antigas dos moradores da região. Mas profissionais do sexo, bartenders e empresários afirmam que as novas regras não têm sido eficazes em tornar a área mais segura ou mais silenciosa.

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Agora a cidade empreende um movimento mais drástico: pretende construir um centro para prostituição legal em um outro bairro com objetivo de dispersar a demanda — uma ideia que desencadeou reações ambivalentes da indústria.

Novas regras introduzidas recentemente determinaram que os bares encerrem as atividades mais cedo (às 2h, após fechar as portas para novos clientes à 1h), impediram profissionais do sexo de trabalhar depois das 3h (anteriormente seu expediente podia ir até as 6h) e proibiu o uso de maconha nas ruas. Mas bastante profissionais do sexo reclamam que as regulações tornam sua atividade menos segura, porque há menos tempo para ganhar dinheiro suficiente para cobrir os custos dos quartos, o que gera uma pressão para que se aceite clientes que, de outro modo, seriam recusados.

O Distrito de Luz Vermelha em Amsterdã, 2 de julho de 2021. O prefeito quer melhorar o bairro para os moradores, mas os profissionais do sexo se opõem às medidas recentemente implementadas. Agora a cidade está procurando estabelecer a prostituição legal em outro lugar.  Foto: Ilvy Njiokiktjien / New York Times

“O problema não é entre 3 e 6 da manhã”, afirmou Phoebe, de 29 anos, coordenadora do Centro de Informação da Prostituição no distrito da luz vermelha, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome porque também é profissional do sexo. “Estão pedindo que profissionais do sexo abram mão se sua segurança e bem-estar”, afirmou ela.

Os proprietários dos bares também estão infelizes, afirmando que fechar mais cedo resulta em milhares de euros perdidos a cada mês — e que os clientes rudes continuam uma realidade.

“Os problemas não diminuíram”, afirmou Bartho Makkinga, que trabalha em um bar da vizinhança. “Para os verdadeiros criadores de confusão, não há nenhuma diferença.”

Um dos bairros mais antigos passa por transformação

Além de ser conhecido pelas vitrines de prostituição e sex shops, o distrito da luz vermelha de Amsterdã é um dos bairros mais antigos da cidade, com seus característicos canais, ruas pavimentadas com paralelepípedos e residências estreitas.

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Para controlar os turistas, a cidade impôs um sistema de via única para pedestres, fechando pontes que cruzam os canais e adicionando a presença de “hosts” trajando coletes vermelhos que respondem perguntas e informam as pessoas a respeito das regras. Mas “aqui está sempre lotado, e sempre é um caos”, afirmou um dos hosts, Thomas de Rijk, em uma noite recente.

Iniciativas para diminuir comportamento indevido e atividade criminal na região não são novidade. Em 2019, Amsterdã proibiu excursões turísticas pelo bairro. E em março, a iniciou uma campanha destinada diretamente a homens britânicos com idades de 18 a 35 anos, dizendo-lhes diretamente: “fiquem longe daqui”. A venda de álcool também é proibida em lojas de conveniência depois das 16h, de quinta-feira a domingo.

“O distrito da luz vermelha se tornou um símbolo tão famoso que quase esquecemos que o bairro é uma área residencial”, afirmou a prefeita de Amsterdã, Femke Halsema. A região sempre foi um centro de comércio, arte e pequenos negócios. As novas regras e o outro ponto destinado à prostituição legal na cidade deverão devolver-lhe essas funções originais, afirmou ela.

Por décadas, a prefeitura tem tentado tornar o bairro mais habitável para os moradores, incluindo com o combate a uma epidemia de heroína nos anos 70 e, agora, ao turismo excessivo, afirmou o historiador estudioso de urbanidade Tim Verlaan, da Universidade de Amsterdã.

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Voos baratos e a expansão do aeroporto da cidade colaboraram para o aumento no número de visitantes e de grandes grupos de jovens indo à cidade para despedidas de solteiro ou fins de semana de bebedeira. “De qualquer lugar no mundo é muito fácil chegar aqui”, afirmou Verlaan.

No ano passado, Amsterdã recebeu 20 milhões de turistas, de acordo com dados fornecidos pela cidade — que tem cerca de 900 mil habitantes e, afirmou Halsema, está a caminho de receber 30 milhões de turistas anualmente até 2030.

Por isso a prefeita tem buscado estabelecer um centro erótico para prostituição legal em outra parte de Amsterdã, com objetivo de desviar as multidões do tradicional distrito da luz vermelha.

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Ainda que bastante profissionais do sexo afirmem não querer deixar a região, Halsema disse que o novo centro será mais seguro, terá mais vigilância, incentivará mais pessoas a trabalhar legalmente e permitirá o aluguel de quartos por hora, o que não é possível atualmente.

“Um centro erótico não significa que não haverá mais prostituição no distrito da luz vermelha”, afirmou Halsema, “não significa que o distrito da luz vermelha tem de perder seu apelo como a atração mais importante da cidade para alguns turistas”.

Profissão legalizada

A prostituição é uma atividade profissional legalizada nos Países Baixos, mas sua prática só é permitida em locais específicos e requer licença. É ilegal prostituir-se em residências, quartos de hotel ou nas ruas, por exemplo. O número de profissionais do sexo em atividade na capital holandesa é desconhecido, e especialistas são cautelosos ao estimá-lo. O distrito da luz vermelha tem cerca de 250 vitrines em funcionamento.

A prefeitura planeja decidir o local de instalação do futuro centro erótico até o início do próximo ano. Mas a nova região de prostituição, que não contaria com financiamento do município, ainda está longe de virar realidade. Algumas pessoas se opõem energicamente, e a cidade não pode forçar profissionais do sexo a se mudar para um centro erótico.

Mudar-se para outro bairro significaria apenas “ficar longe dos olhos e dos corações para muitas pessoas”, afirmou Phoebe. Outros consideram a ideia uma maneira de dar apoio à indústria. “O número total de lugares para trabalhar de forma legal tem de aumentar, não diminuir”, afirmou o trabalhador sexual e ativista Lyle Muns.

Mesmo antes da prostituição ser legalizada nos Países Baixos, a atividade já era associada ao distrito da luz vermelha de Amsterdã em razão de sua proximidade original com o porto da cidade. A natureza comercial do bairro e suas vitrines de prostituição, que ajudaram a transformar a região em atração internacional, originou-se no fim dos anos 60, afirmou Verlaan.

Halsema disse desejar que o bairro continue uma comunidade habitável e atraia mais residentes. “Nós temos de devolver a noite para as pessoas que moram lá”, afirmou ela, porque as pessoas realmente não conseguem dormir por causa dos berros e da barulheira”.

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Ainda que Christa Arens, uma moradora do distrito da luz vermelha nascida e criada em Amsterdã, concorde com essa constatação, ela afirmou que o barulho é simplesmente parte do bairro, que ela comparou a um pequeno vilarejo onde todos se conhecem. A bagunça é parte de seu caráter, afirmou Arens, assim como os bares e a prostituição. “Faz centenas de anos que as coisas aqui são assim”, afirmou ela. “Por que mudar de lugar?” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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