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Ao ver a ascensão chinesa como um jogo de soma zero, Biden só adia conflito entre China e EUA

Presidente dos EUA limita competição com a China a disputa entre democracias e autocracias, mas estratégia americana de contenção é vista como ameaça e pode ser o gatilho de um conflito maior entre ambas nações

colunista convidado
Foto do author Lourival Sant'Anna
Por Lourival Sant'Anna
Atualização:

Depois de se reunir com Xi Jinping, Joe Biden foi indagado por uma repórter da CNN se o presidente americano ainda considerava o líder chinês um ditador. Ele respondeu que sim. A chancelaria chinesa repudiou a declaração. O episódio revela os imensos obstáculos a uma distensão entre as duas superpotências.

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Em seguida ao encontro de quatro horas, Biden anunciou uma série de passos positivos. Ele disse que a partir de então os dois líderes poderiam telefonar um para o outro sempre que necessário. O mesmo se aplicaria aos militares.

Desde o início do ano, os militares chineses não estavam atendendo às chamadas dos americanos. Isso causa ansiedade em todo o mundo. Aviões e navios americanos e chineses têm contatos recorrentes na costa da Ásia. Um incidente pode escalar para uma guerra na falta de uma conversa que indique não ser essa a intenção.

O presidente Biden e o líder da China, Xi Jinping, nos jardins do Filoli Estate em Woodside, Califórnia, à margem da conferência da Cooperativa Econômica Ásia-Pacífico na quarta-feira, 15 de novembro de 2023.  Foto: Doug Mills / NYT

O último encontro de Biden e Xi tinha ocorrido um ano atrás na cúpula do G20 em Bali. A derrubada de um balão meteorológico chinês suspeito de espionagem na costa da Carolina do Sul por um caça F-22 americano em fevereiro levou ao cancelamento dos contatos em alto nível por parte da China.

Biden anunciou também retomada da cooperação na questão das drogas. A China é a maior fabricante de insumos para a droga fentanil, causadora de uma epidemia de abuso de psicotrópicos que segundo o presidente mata mais americanos de 18 a 49 anos de idade do que acidentes de automóveis. Ele pediu que o governo chinês coibisse esse comércio.

O presidente americano também disse que os dois países reuniriam especialistas para discutir as ameaças representadas pela inteligência artificial. Por outro lado, Biden reconheceu que não há acordo sobre a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza. A China é aliada da Rússia e do Irã, patrocinador do Hamas e do Hezbollah e principal inimigo de Israel.

O mesmo quanto à projeção chinesa sobre o Mar do Sul da China e suas intenções de anexação forçada de Taiwan. A ilha tem eleições em janeiro. O favorito, segundo as pesquisas, é William Lai, vice da atual presidente Tsai Ing-wen, que mantém posição firme de defesa de sua independência.

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Biden reafirmou a política de uma China, adotada em 1979 quando os Estados Unidos trocaram o reconhecimento diplomático formal de Taiwan pelo da China. Essa política, aprovada pelo Congresso americano na época, inclui rejeição pelos EUA da anexação forçada de Taiwan à China. Biden disse algumas vezes no passado que os EUA honrariam esse compromisso com ação armada se necessário, o que entra em conflito com a prática da ambiguidade estratégica que acompanha historicamente essa política. Ou seja, não revelar em público como os EUA reagiriam.

Segundo Biden, ele e Xi já tinham se reunido no total por 64 horas antes desse encontro. Ambos foram vice-presidentes simultaneamente e o então presidente Barack Obama encarregou Biden de se aproximar de Xi quando ficou claro que ele seria o sucessor de Hu Jintao.

“Nós nos conhecemos há muito tempo”, disse Biden a Xi diante da imprensa, antes da reunião. “Não concordamos sempre, o que não surpreenderia a ninguém, mas nossos encontros sempre foram francos, diretos e úteis.”

Xi retribuiu: “Vindo aqui, penso na sua viagem à China quando eu era vice-presidente da China. Tivemos uma reunião. Foi 12 anos atrás. Ainda me lembro de nossas interações muito vividamente e sempre me provoca muitos sentimentos”. O que pode significar algo positivo ou negativo. Na melhor tradição chinesa, Xi guarda suas intenções para si.

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Biden usou sua fórmula segundo a qual a competição não deveria conduzir ao conflito. Durante a reunião a portas fechadas, segundo a agência oficial chinesa Xinhua, Xi argumentou: “A China não tem planos de ultrapassar ou desbancar os EUA, e os EUA não deveriam tramar para suprimir ou conter a China”.

O governo Biden adotou sanções contra o acesso da China a chips de alta tecnologia e a programas de desenho de máquinas que fabricam esses dispositivos. Uma fonte do governo americano disse à CNN que Xi acusou os EUA de “contenção tecnológica”. Ao que Biden teria respondido que os EUA não vão fornecer à China tecnologia que pode ser usada militarmente contra eles.

A palavra contenção, aqui, tem um sentido militar. Os ocidentais veem a contenção no âmbito da dissuasão; os chineses, como ameaça. A China acredita ter vocação milenar para ocupar o centro do mundo. O nome oficial do país em chinês, Zhōng guó, significa “o reino do centro”. Os EUA veem a ascensão chinesa como um jogo de soma zero, no qual os ganhos chineses representam perdas dos americanos.

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Biden caracteriza essa competição como disputa entre democracias e autocracias. Essa é sua estratégia para mobilizar o Ocidente Coletivo contra China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Por isso ele não se furtou a responder à repórter.

Diante de tudo isso, um conflito entre os dois países pode ser adiado, mas dificilmente evitado.

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