Arcebispo nega comunhão à presidente da Câmara dos EUA por seu apoio ao direito ao aborto

Foto: Jeff Chiu/AP

Decisão contraria posição do papa Francisco, que afirmou no ano passado que a comunhão deve ser pastoral e não política

Por Redação
Atualização:

O arcebispo católico de São Francisco, Salvatore Cordileone, negou a comunhão à presidente da Câmara dos Estados Unidos, Nancy Pelosi (Democratas), por causa do apoio dela pelo direito ao aborto. Em uma declaração pública nesta sexta-feira, 20, Cordileone afirmou que a posição de Pelosi se tornou “mais extrema ao longo dos anos, especialmente nos últimos meses” e representa “um perigo para sua própria alma”.

A decisão do arcebispo, conhecido por ser um dos líderes católicos mais conservadores do país, representa uma repreensão à fé católica de Pelosi, frequentemente citada por ela durante discursos sobre sua formação familiar e política.

Pelosi voltou a externar a posição sobre o aborto nas últimas semanas junto de outras personalidades, após o vazamento de uma minuta da Suprema Corte dos EUA que anula a decisão Roe vs Wade, que garante o procedimento legal no país. Cordileone já havia pedido no ano passado que a comunhão fosse proibida para algumas figuras públicas que apoiam o aborto, mas Pelosi não estava entre elas.

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Imagem mostra presidente do Congresso dos EUA, Nancy Pelosi, ao lado de advogada pró-aborto em Washington, no dia 13 deste mês. Democrata foi punida por arcebispo pela posição pró-aborto
Imagem mostra presidente do Congresso dos EUA, Nancy Pelosi, ao lado de advogada pró-aborto em Washington, no dia 13 deste mês. Democrata foi punida por arcebispo pela posição pró-aborto Foto: Stefani Reynolds / AFP

A declaração do arcebispo afirma que a decisão de repreendê-la se deu “depois de inúmeras tentativas de falar com ela para ajudá-la a entender o grave mal que ela está causando”. “Chegou o ponto em que devo fazer uma declaração pública de que ela não deve ser admitida na Sagrada Comunhão, a menos que ela repudie publicamente o apoio aos ‘direitos’ ao aborto”, afirmou em uma carta para membros da arquidiocese que faz parte.

Cordileone também pede que Pelosi se confesse para receber “a absolvição por sua cooperação neste mal no sacramento da penitência”. “Enviei a ela uma notificação nesse sentido, que agora tornei pública”, finalizou.

A carta enviada para a chefe da Câmara avisa que ela não deve se apresentar para receber a comunhão e que a Eucaristia será negada se ela ignorar o aviso. Pelosi não comentou o assunto publicamente até o momento.

Os arcebispos católicos têm vasto poder em suas dioceses, e uma reversão da decisão de Cordileone exigiria a intervenção do Vaticano. A ordem de negar a comunhão a Pelosi se aplica apenas às igrejas da arquidiocese de São Francisco sob a alçada de Cordelione, incluindo a igreja natal dele.

A negação é vista como uma politização do ritual católico. Em setembro passado, o papa Francisco disse que a decisão de conceder a comunhão a políticos que apoiam o direito ao aborto deveria ser tomada de um ponto de vista pastoral, não político. “Eu nunca recusei a Eucaristia a ninguém”, disse a repórteres na ocasião. Apesar disso, o papa considera o aborto um “assassinato” e disse que não sabia se havia concedido a comunhão a um defensor do procedimento.

A Eucaristia é o sacramento central do catolicismo e a peça central da missa católica. O ritual significa a renovação do sacrifício de Jesus Cristo realizado na cruz.

Imagem mostra arcebispo de São Francisco, Salvatore Cordileone, em 2012. Cordileone se destaca como um dos católicos mais conservadores dos Estados Unidos
Imagem mostra arcebispo de São Francisco, Salvatore Cordileone, em 2012. Cordileone se destaca como um dos católicos mais conservadores dos Estados Unidos Foto: Archdiocese of Oakland/Reuters

De acordo com uma pesquisa realizada pelo jornal Washington Post e pela ABC News divulgada no início deste mês, 55% dos católicos dos Estados Unidos querem a manutenção da decisão Roe vs Wade. Apesar do índice, o ensino católico se opõe ao aborto e a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA debateu no ano passado se seria válido impedir o sacramento para políticos que apoiam o direito ao aborto, em um impulso político dos conservadores para negar a comunhão ao presidente Joe Biden.

Depois de uma série de discussões, os bispos esclareceram que não haveria “nenhuma política nacional de negar a comunhão dos políticos”, seguindo uma recomendação do vaticano. Mais tarde, eles divulgaram um documento sobre a Eucaristia, mas se recusaram a destacar os políticos que apoiam o direito ao aborto.

O presidente do grupo de direitos ao aborto Catholics for Choice, Jamie Manson, afirmou nesta sexta-feira que a atitude de Cordileone é para travar uma “guerra cultural da qual os bispos já se retiraram”. Ele pediu aos líderes da Igreja que “parem de estigmatizar e comecem a ouvir os católicos que são pró-aborto”.

Por outro lado, o grupo contrário ao aborto American Life League aplaudiu a decisão de Cordileone e atacou Pelosi de “falsa católica” por causa da sua posição política em relação ao assunto. O comunicado do grupo também pede que a repreensão seja estendida ao Biden.

Em muitos momentos, Pelosi se refere a suas próprias orações e a uma responsabilidade cristã para justificar as suas posições políticas. Questionada em 2018 do porquê entrou na política, ela relembrou a infância em uma família que frequentava missas católicas em Baltimore. “A responsabilidade de um com o outro fazia parte da nossa fé católica”, declarou.

A democrata é questionada com frequência em coletivas de imprensa e em outros fóruns sobre a posição favorável ao aborto. Em 2015, um repórter perguntou a ela se ela considerava ser humano “um bebê não nascido, mas que tem coração e fígado”. “Sou católica devota e praticamente, mãe de cinco filhos. Acho que sei mais sobre esse assunto do que você, com todo o respeito”, respondeu. /WASHINGTON POST E REUTERS

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