PUBLICIDADE

Chile: incêndios florestais consumiram mais de 90% do maior jardim botânico local

Jardim de Viña del Mar ‘sempre foi um pulmão verde, mas hoje em dia mais se parece um pulmão de um fumante’, declarou o responsável pelo centro de conservação; uma funcionária morreu uma semana antes de se casar

Por Hector Velasco

O maior jardim botânico do Chile respira com dificuldade. De seus 400 hectares, menos de 2% saiu intacto dos incêndios florestais que atingiram Viña del Mar, ainda que milagrosamente suas coleções mais preciosas sobreviveram, de acordo com o diretor da instituição.

PUBLICIDADE

O Jardim Botânico Nacional de Viña del Mar “sempre foi um pulmão verde, mas hoje em dia mais se parece um pulmão de um fumante”, afirmou Alejandro Peirano, o responsável pelo centro de conservação centenário, localizado em El Salto, na região de Valparaíso, a 120 quilômetros ao noroeste de Santiago.

Em seu interior, ficaram árvores de até 15 metros caídas, uma casa queimada em cujo interior morreram uma funcionária e três familiares, além de uma flora e fauna feridas. O verde se tornou cinza, acrescentou Peirano.

Visão aérea mostra árvores e gramados incinerados do Jardim Botânico após incêndios que atingiram Viña del Mar. Foto: Pablo Vera/AFP

Com serras em mãos, os guardas florestais cortam os troncos atravessados nas trilhas. As elevações do jardim foram reduzidas a uma paisagem de cinzas. O local abrigava 1,3 mil espécies de plantas e árvores, entre samambaias nativas e exóticas, mirtáceas, ciprestes da cordilheira, palmeira chilena e sakura (cerejeira japonesa). Várias destas espécies foram atingidas.

O fogo, explicou Peirano, nunca havia se comportado de forma tão errática. Empurrado pelo vento, parecia ir de salto em salto, arrancando até mesmo árvores gigantes pelas raízes. Bastou apenas uma hora para o jardim, com desenhos interiores de inspiração francesa, ficar destruído quase por completo.

Animais como marsupiais, raposas-cinzentas, pássaros, quiques (furão chileno) também podem ter sido impactados pelas chamas. “Sendo otimista, digo que cinco hectares foram salvos, o restante queimou”, diz o diretor.

Funcionária morre uma semana antes de casar

Encarregado pela unidade de preservação há 10 anos, Peirano e 12 guardas-florestais vivem no local, que possui 60 trabalhadores. Uma das moradoras era Patrícia Araya, responsável pelo viveiro. Seu trabalho consistia em fazer germinar as sementes, era como a responsável pela “área da maternidade”, explica o diretor.

Publicidade

Na sexta-feira, 2, a funcionária de 60 anos morreu junto com sua mãe e duas netas no interior do jardim botânico. Araya iria se casar nesta semana, mas o fogo não lhe deu chance de escapar. Daniela Gutiérrez, de 32 años, que supervisiona a coleção de cactáceas nativas, lembra de Patrícia como “mãos verdes, porque o que semeava, germinava”.

Peirano e outros guardas também estavam no jardim no dia do incêndio, mas conseguiram se proteger das chamas.

O primeiro grande incêndio neste jardim botânico ocorreu em 2013. Posteriormente, vieram outros dois episódios, em 2018 e 2022, que junto com o da última sexta-feira, foram os mais violentos de todos, segundo o diretor, que suspeita que este último episódio possa ter sido provocado de forma intencional. Cinco focos foram encontrados. “Cinco focos de incêndio em uníssono, isso não é natural”, diz ele.

Nas colinas superlotadas de Viña del Mar, mais de 130 pessoas morreram e milhares de casas foram destruídas ou danificadas.

Local abrigava 1,3 mil espécies de plantas e árvores, entre samambaias nativas e exóticas, mirtáceas, ciprestes da cordilheira, palmeira chilena e cerejeira japonês. Foto: Pablo Vera/AFP

Sobrevivente de Hiroshima

PUBLICIDADE

Apesar da profunda destruição, as duas coleções mais valiosas do jardim botânico sobreviveram. Uma delas é a de Sophora toromiro, uma árvore de flores tubulares amarelas nativa de Rapa Nui, na remota Ilha de Páscoa, localizada no meio do Pacífico. Uma espécie que se acreditava estar extinta.

“Em algum momento chegou a nós a semente e reproduzimos aqui. [Hoje] temos uma coleção linda. O fogo passou por cima dela, então o que poderia ter sido a perda mais dolorosa não foi”, afirma o diretor.

Também sobreviveu o Jardim da Paz, local onde são plantadas espécies sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima, cujas sementes estão espalhadas por diversos parques ao redor do mundo. Embora estejam “queimadas pelo calor, ficaram de pé”, acrescenta Peirano.

Publicidade

O Jardim da Paz, local onde foram plantadas espécies sobreviventes da bomba atômica de Hiroshima, resistiu ao fogo. Foto: PABLO VERA / AFP

O jardim espera reabrir suas portas ao público em algumas semanas, mas levará cinco anos para recuperar sua aparência antes dos incêndios florestais de 2 de fevereiro.

Se durante este período outro incêndio desta magnitude atingir o local, “desapareceremos como jardim botânico”, alerta o diretor./AFP.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.