PUBLICIDADE

Como a Índia se tornou potência global com a missão à Lua e fomenta o setor aeroespacial privado

Entenda os impactos da Chandrayaan 3 na economia e na geopolítica, enquanto países já consolidados como EUA, Rússia e China disputam liderança no espaço

Foto do author Felipe Frazão
Por Felipe Frazão
Atualização:

ENVIADO ESPECIAL A NOVA DÉLHI E HYDERABAD - No último dia 19 de setembro, os indianos saíram às ruas de todo o país para celebrar o festival Ganesha Chaturthi, homenagem a um dos mais populares deuses do hinduísmo, religião dominante no país. Aos milhares, eles lotaram os templos, caminharam fervorosamente em procissão cantando e venerando a divindade. Carregavam consigo tanto imagens em miniatura quanto ídolos gigantes, em alegorias e carros decorados, com flores em tons alaranjados e amarelos.

PUBLICIDADE

Nas grandes cidades, as imagens de até 20 metros de altura do deus com corpo humano e cabeça de elefante ganharam neste ano uma companhia espacial. Em Chennai, o ídolo foi instalado ao lado de um protótipo de lançador de foguetes, que decolava e soltava fumaça. A imagem de Ganesha surgiu dentro de uma réplica de foguete, em Hyderabad. Em Calcutá, a divindade - associada na religião à sabedoria, prosperidade e superação de obstáculos - apareceu em uma plataforma que simulava a paisagem lunar. Não faltavam motivos de naves espaciais e astronautas. Eram referências à missão espacial Chandrayaan 3, concluída com sucesso no mês anterior, considerada histórica no setor.

No dia 23 de agosto, o veículo espacial não-tripulado indiano pousou suavemente perto do polo Sul, a face escura da Lua, feito jamais alcançado antes por nenhuma potência espacial. A Índia tornou-se o primeiro país a chegar nessa área sombreada do satélite terrestre, marcada por crateras e formações com gelo, e o quarto a aterrissar na Lua, ao lado de Estados Unidos, Rússia (antiga União Soviética) e China.

A Organização Indiana de Pesquisa Espacial (ISRO, na sigla em inglês) havia lançado a Chandrayaan 3 em 14 de julho, desde Sriharikota, ilha na costa sudeste indiana. A missão é a continuidade da Chandrayaan 2, que em 2019 falhou ao tentar o mesmo objetivo. A missão da ISRO tornou-se mais notória porque, dias antes, a sonda Luna 25, da Roscosmos, colidiu com a superfície da Lua, frustrando a principal aposta russa para retomar a exploração do satélite, após 47 anos de intervalo e avanços tecnológicos limitados.

A Chandrayaan 3 é composta do módulo de pouso Vikram e do robô Pragyan. Em sânscrito, essas expressões significam, respectivamente, “nave lunar 3″, “coragem” e “sabedoria”.

O rover lunar seria desligado após duas semanas de experimentos e de ter detectado presença de oxigênio, enxofre e outros elementos, e ter estudado a atmosfera e atividade sísmica, segundo o governo indiano, conforme planejado. Parte dos objetivos da missão foram alcançados, como demonstrar a capacidade de pouso e percorrer a superfície. Um mês depois, em 22 de setembro, os cientistas tentaram retomar a comunicação, mas perderam contato com a sonda e o módulo de pouso e não conseguiram ainda verificar as condições de serem reativadas para nova exploração.

Tanques de combustível na fábrica da Skyroot, empresa privada indiana do setor aeroespacial Foto: Felipe Frazão/Estadão

Se pode representar o fim da missão, a falha em despertar a sonda não abalou por completo os feitos anteriores e o impacto geopolítico, científico, tecnológico e econômico. Meses depois de se confirmar como país mais populoso do mundo, com 1,4 bilhão de habitantes, a Índia chegou à Lua e ganhou nova projeção como parte de uma elite global.

Publicidade

O premiê Narendra Modi, um político nacionalista que vem construindo imagem de líder do “Sul Global”, aproveitaria cada momento, como de costume, atrelando a própria imagem à Chandrayaan 3. No momento mais celebrado, o pouso em 23 de agosto, Modi estava na metrópole sul-africana de Johannesburgo para o encontro anual dos líderes BRICS. O bloco originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul ganhou seis novos membros naquela cúpula. Modi era enaltecido por todos os lados, com projeção da bandeira indiana em arranha-céus e placas com seu rosto nos arredores da cúpula, tietado pela diáspora indiana local.

Ele paralisou as atividades no Brics para assistir, comunicar e comemorar a chegada à Lua. Modi foi aplaudido pelos pares na reunião principal, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e aproveitou a ocasião para lançar a ideia de que o grupo de países emergentes deveria formar o Consórcio de Exploração Espacial do BRICS. Um ano antes, os países haviam acordado em aprofundar a cooperação em sensoriamento remoto e compartilhamento de imagens e dados de satélites. A negociação durou ao menos cinco anos.

”Já estamos trabalhando na criação de uma constelação de satélites. Poderíamos considerar estabelecer um consórcio de exploração espacial completo como parte dos trabalhos deste fim de semana, em áreas como exploração espacial e monitoramento climático, em benefício de todo o mundo,” disse Modi, durante uma sessão plenária na África do Sul.

Por enquanto, a ideia de Modi não ganhou aderência - ela ficou de fora da declaração de Joanesburgo. Mesmo assim, voltará a ser negociada e pode demorar tanto quanto o acordo da constelação de satélites. A ideia de exploração conjunta vai de encontro ao que planejam outras duas potências espaciais no bloco.

Visão externa da fábrica da Skyroot, empresa indiana do setor aeroespacial  Foto: Felipe Frazão/Estadão

Diplomacia espacial

PUBLICIDADE

Rússia e China avançam na oferta e busca de parceiros para seus programas espaciais, nos últimos meses. Pequim e Moscou planejam lançar uma base espacial conjunta na Lua até 2030. Um objetivo central é levar astronautas chineses à superfície lunar.

A Venezuela disse ter sido convidada a integrar o projeto da Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS). A África do Sul também aderiu, tendo assinado acordos com a China, assim como o Paquistão, vizinho rival da Índia, e Belarus, tradicional aliado russo.

Ao mesmo tempo, Pequim acena com a possibilidade de expandir sua estação espacial, a Tiangong, com objetivo de abrigar astronautas de países parceiros.

Publicidade

A estatal Roscosmos propôs que os países compartilhassem um módulo de pesquisa exclusivo na futura estação espacial russa, a ROS.O plano seria começar a operar em 2027, com lançamento dos primeiros módulos, e concluir em 2032. Países da África e do Oriente Médio estão na mira de Moscou. Já foram convidados bilateralmente o Brasil, a África do Sul e a Turquia.

A diplomacia espacial aquece enquanto aproxima-se o momento de desativação da Estação Espacial Internacional. Operada por Rússia, EUA, Canadá, Japão e Agência Espacial Europeia, ela vai ser descomissionada entre 2028 e 2030.

Os astronautas russos Oleg Kononenko, à direita, e Nikolai Chub conduzem uma caminhada espacial fora da Estação Espacial Internacional Foto: Roscosmos / AP

Namrata Goswami, especialista em Política Espacial e autora de livros a respeito, avalia que a missão Chandrayaan 3 foi “bastante crítica” para a inserção geopolítica indiana. Segundo ela, antes de o país atingir o objetivo de pousar na Lua, somente a missão lunar chinesa tinha capacidade de fazer o mesmo.

“As missões dos EUA à Lua, pós-Apollo, não são testadas e empresas privadas dos EUA, como a Intuitive Machines, estão atrasadas. Assim, a Índia, ao pousar com sucesso na Lua, ofereceu uma capacidade alternativa para um pouso suave, um feito difícil. O pouso lunar da Índia torna-se ainda mais significativo como uma capacidade de ponta, já que o Luna 25 da Rússia falhou nessa missão apenas alguns dias antes. A Índia assinou os Acordos Artemis, iniciados pelos EUA, em junho de 2023. A China tem um mecanismo alternativo para ir à Lua com a sua Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS) com a Rússia, o Paquistão e a África do Sul como membros. Consequentemente, o Chandrayaan 3 tem importantes implicações estratégicas para a logística lunar a longo prazo.

Apesar dos esforços de Modi, diplomatas que atuam em Nova Délhi e acompanham de perto os passos do governo indiano ponderam que o país não pode ser ainda considerado uma potência no campo militar, cujo desenvolvimento tecnológico está ligado ao desenvolvimento espacial.

“A Índia está em processo de ascensão. Não podemos dizer que já esteja na primeira liga, embora o discurso político oficial já os tenha colocado lá”, pondera um embaixador que pediu anonimato, para não atrapalhar a relação com o governo Modi. “Eles só serão considerados uma potência quando tiverem capacidade de resposta. A China só vai respeitar quando a Índia puder responder militarmente no mesmo tom.”

Esse mesmo diplomata lembra que a Índia importa muitos produtos de Defesa e precisa sofisticar sua base industrial.Apesar disso, busca de forma permanente ter a autossuficiência no setor, mais um aspecto do Make in India, o que se verifica recentemente nas aproximações e acordos com busca de transferência de tecnologia com potências do Ocidente, como França e EUA. O que, no longo prazo, reduz a dependência histórica de material bélico da Rússia, um tradicional fornecedor indiano.

Publicidade

“Todos os países precisam de autossuficiência no espaço, por causa da geopolítica. Por causa da guerra, a Rússia não tem autorização para lançar satélites de muitos países, incluindo os Estados Unidos. Mesmo que você queira lançar de seu próprio país, você depende da geopolítica, da relação entre os países,de quem pode ou não realizar lançamentos. Essa autossuficiência vai existir se você construí-la. E isso é o que a Índia fez desde os anos 1960, e hoje estamos entre as cinco principais agências espaciais do mundo”, afirma Pawan Chandana, ex-ISRO e co-fundador da Skyroot Aerospace.

Srimathy Kesan é fundadora e CEO da startup SpaceKidz India, uma empresa pioneira em projetar, fabricar e lançar pequenos satélites, naves espaciais e sistemas, em Chennai, Sul da Índia. A empresa foi primeira a colocar no ar satélites em conjunto com alunos de ensino médio e universitários. Kesan enumera algumas consequências diretas da missão lunar bem-sucedida.

“O sucesso da Chandrayaan 3 solidifica a posição da Índia no cenário global de exploração espacial e alinha-a com a cooperação internacional, como os Acordos Artemis. Isto fortalece a presença diplomática e estratégica da Índia no domínio espacial”, afirma ela. “Contribui para o crescimento da economia espacial da Índia, que deverá valer U$ 13 bilhões de dólares até 2025. Isto pode catalisar a geração de emprego, incentivar investimentos privados e promover o crescimento do ecossistema tecnológico espacial do país. Mostra as notáveis conquistas tecnológicas e o compromisso da Índia com a inovação. Este sucesso pode inspirar as gerações futuras e encorajar investimentos na investigação e exploração espacial, aumentando ainda mais a capacidade tecnológica da Índia.”

Foguete espacial produzido pela Skyroot, empresa indiana do setor aeroespacial Foto: Felipe Frazão/Estadão

Baixo custo

Além de ingressar na disputa pela corrida espacial, a Índia sob Modi mobilizou o país. A população foi convidada a acompanhar o lançamento ao vivo - e respondeu positivamente. A transmissão online quebrou o recorde de vídeo live streaming mais assistido do mundo, com 8 milhões de espectadores no momento de pico, no Youtube. A marca anterior era brasileira - uma partida da Copa do Mundo de 2022 entre Brasil e Coreia do Sul, com 6 milhões de pessoas.

“Estas missões simbolizam as capacidades científicas e tecnológicas da Índia e a sua capacidade de competir no cenário global. O sucesso de tais missões é uma fonte de orgulho e unidade nacionais e inspira os jovens da nação a seguir carreiras em ciência e tecnologia”, diz Kesan.

A missão lunar misturou-se à devoção religiosa hinduísta e mexeu não somente com o orgulho do povo indiano, um país marcado por divergências sociais e por estágios de subdesenvolvimento, mas projetou as capacidades tecnológicas como nunca antes. Ainda, reforçou a imagem de eficiência e a capacidade de operar com baixo custo.

Ao celebrar o sucesso da missão, o presidente da ISRO, S. Somanath, disse: “Ninguém no mundo consegue fazer como nós. Não vou revelar todos os segredos, do contrário outros poderão se tornar mais eficientes”.

Publicidade

Os ex-cientistas da agência espacial indiana Bharath Daka (à esquerda) e Pawan Chandana, fundadores da Skyroot Aerospace, posam na sede da startup pioneira na frabricação e lançamento de foguetes privados, no bairro HiTech City, em Hyderabad Foto: Felipe Frazão/Estadão

A missão teve um custo divulgado de U$ 75 milhões – o equivalente a R$ 367 milhões. “Foi muito mais barato do que o orçamento de filmes espaciais de Hollywood”, ironiza o ex-cientista da ISRO, atualmente CEO e fundador da Skyroot Aerospace, Pawan Chandana. “Mostramos ao mundo a tecnologia que temos e que isso pode ser feito, de fato, por uma fração do custo.”

O orçamento anual da agência espacial indiana, para o corrente ano, é de U$ 1,5 bilhão (R$ 7,3 bilhões). O da NASA, para efeito de comparação, atingiu, U$ 25,4 bilhões de dólares (R$ 124,4 bilhões).

Já a Agência Espacial Brasileira (AEB) vive uma desidratação histórica de recursos e recebeu R$ 172 milhões para todas as atividades de 2023. O orçamento equivale a menos da metade do que custou a missão Chandrayaan 3.

Os programas espaciais do Brasil e da Índia começaram na década de 1960, mas tomaram caminhos distintos e evoluíram de forma discrepante nos últimos anos. Fontes do setor ponderam dizem que um dos segredos é a centralização de decisões no governo, na ISRO, enquanto o Brasil tem um programa disperso.

A Índia tem um Departamento do Espaço, espécie de ministério, ao qual está vinculada a ISRO. Ele centraliza todas as atividades do programa espacial, um arranjo institucional, segundo especialistas do setor, que favorece intercâmbios internacionais e a tomada de decisões. O programa espacial brasileiro é ligado ao Ministério Ciência, Tecnologia e Inovação, mas grande parte das atividades é tocada com a Defesa, por meio da Força Aérea Brasileira, e há interfaces com Gabinete de Segurança Institucional.

“Do jeito que estamos hoje, não temos a melhor sinergia possível”, diz Carlos Augusto Teixeira de Moura, coronel da reserva da Aeronáutica e ex-presidente da AEB. que defende a necessidade de se criar critérios de indenização em caso de acidentes e a Lei Geral do Espaço, para fomentar o mercado privado. “São necessidades que se percebe no mundo todo para que o setor privado possa investir. Até alguns anos os grandes investidores eram governos, hoje o setor privado tem papel proeminente. Ele só vão investir onde tiver segurança jurídica e governança. Na Índia, percebe-se uma transição do que era feito pelo governo, hoje sendo feito pelo setor privado. Precisamos estar atentos e incorporar ao Brasil as melhores práticas.”

Além da missão lunar, a Índia lançou logo depois seu primeiro satélite para observação do Sol, com sucesso, e agora trabalha no desenvolvimento e nos testes da Gaganyaan, uma cápsula tripulada por três astronautas, para missões em órbita. O projeto tem orçamento de U$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões).

Publicidade

Enquanto isso, o Brasil patinou. Uma das principais diferenças é que o Brasil não possui ainda capacidade própria de realizar lançamentos. O desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélites (VLS) foi interrompido em 2003, após a tragédia de Alcântara, que completou 20 anos em agosto. O Estadão relatou detalhes do acidente neste especial.

Agora, o País aposta no futuro em ter um foguete próprio para cargas menores e trabalha em parcerias para lançar satélites, além de voltar-se ao mercado de micro e nano satélites. A ISRO, por exemplo, foi a responsável por lançar em 2021 o satélite Amazônia-1, o primeiro totalmente brasileiro. Embora a Base de Alcântara, no Maranhão, seja reconhecida como um melhor ponto para lançamentos, a Índia fez fama por realizar lançamentos com baixo custo, de forma segura, atraindo governos e empresas privadas.

Centro de lançamento de foguetes de Alcântara no Estado do Maranhão  Foto: Valter Campanato/Agencia Brasil

Startups

Especialistas no setor estimam que o mercado da economia espacial seja atualmente de 546 bilhões de dólares, conforme o mais recente relatório, de 2023, da Space Foundation, organização sem fins lucrativos que emite estudos anuais desde 2005, com base em análises de gastos civis e militares de 51 governos e organismos de cooperação multilaterais. A estimativa tem como referência o ano de 2022. Empresários indianos apostam que poderá chegar a 1 trilhão de dólares, até 2040.

É de olho nesse mercado - que o Brasil pretende atrair - que a India mudou sua legislação para permitir maior exploração privada, em 2020. O país estabeleceu uma política pública para fomentar startups e permitir o uso de instalações da ISRO, a agência estatal, para testes e lançamentos. Antes, não era fácil encontrar financiadores, relatam empresários, e os talentos estavam todos empregados no setor público.

Embora detenham os conhecimentos de uma das cinco principais agências espaciais governamentais, os indianos possuem uma participação de apenas 2% do mercado do espaço exterior e aspira atingir ao menos 10% nos próximos dez anos. Segundo empresários, o governo estava mais focado em ciência e pesquisa, com objetivo de observação de Terra e comunicações. Não em lucro e no atendimento a necessidades de empresas.

Segundo empresários do setor, mais de 140 startups atuvam no ramo aeroespacial quando a reportagem do Estadão visitou um dos hubs, a HiTech City e a Zona Economica Especial Aeroespacial e de Engenharia de Precisão, em Hyderabad, Telangana. Lá fica um parque industrial com empresas do setor. Nesta semana, o número chegou a 217, conforme os dados mais recentes do Departarmento para Promoção da Indústria e do Comércio Internacional.

Uma das empresas mais proeminentes é a Skyroot Aerospace. Ela foi a primeira a lançar com sucesso um foguete próprio para testes, suborbital, no ano passado. Até hoje é a única empresa do Sudeste Asiático a conseguir tal feito.

Publicidade

A operação foi feita em parceria com a ISRO, usando a estrutura do centro de lançamentos de Sriharikota. O foguete Vikram-S tinha como carga útil satélites pequenos, entre eles um de outra startup, a Spacekidz, que desenvolve os equipamentos com estudantes.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, posa para foto com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi e o primeiro-ministro do Japão, Fumio Kishida  Foto: Jonathan Ernst / Reuters

Nos próximos meses, a Skyroot quer lançar o Vikram-1, uma versão maior, com objetivo de estar operacional para lançamentos orbitais ainda em 2024. O foco é buscar clientes no mercado de pequenos satélites, abaixo de 500 kg - seus foguetes mais promissores hoje tem carga útil máxima de 800 kg. Eles disputam mercado, principalmente, com empresas dos Estados Unidos. A empresa indiana projeta que 30 mil satélites serão colocados em órbita nos próximos dez anos - 82% deles seriam atendidos pela frota de foguetes que eles desenharam.

A Slyroot foi fundada em 2018 por Pawan Chandana e Bharath Daka, ambos ex-ISRO. Em cinco anos, eles conseguiram levantar um capital de U$ 95 milhões. Também firmaram parcerias na França, para lançar satélites do país europeu.

Dentro do Galpão, uma grande bandeira da Índia e outra com a marca” Make in India, sobre a silhueta de um leão - programa do governo indiano para fomentar a produção industrial local, do qual a empresa é um símbolo. Se lembra o “Made in China”, o programa é fundado na ideia de buscar a todo custo autossuficiência em setores estratégicos. E pode se beneficiar agora com a busca de empresas e países de diversificar fornecedores.

Diplomatas e empresários que atuam na Índia costumam dizer que, no país, a economia precisa estar alinhada aos objetivos políticos dominantes, sobretudo em setores estratégicos, como energia e espaço. Se não houver interesse comum, a coisa não anda, confidencia um embaixador. Uma das razões são as disputas geopolíticas históricas com vizinhos, como Paquistão e China. Agora, parece que os interesses se alinharam rumo ao espaço.

Investidores indianos observam os painéis de um congresso sobre empresas indianas do ramo da comunicação em Nova Délhi, Índia  Foto: Hairsh Tyagi / EFE

“A Índia tem uma das maiores populações jovens do mundo, 65% da Índia tem menos de 35 anos, 50% da Índia tem menos de 25 anos e muitos investimentos estão acontecendo tanto em infraestrutura quanto em qualificação. O pouso da Chandrayaan 3 mostra que a Índia teve um enorme progresso tecnológico. Acho que isso posiciona a Índia como um destino emergente globalmente, tanto para investimentos quanto como mercado para empresas globais e países. Eles podem contar com a Índia tanto para tecnologia e recursos humanos quanto para parcerias grandes de longo prazo, considerando que esta será uma nação global consistentemente emergente”, afirma Chandana.

Cidadão comum

O empresário lembra de um fator simbólico do Make in India. Em setembro, o Iphone 15 - já fabricado na Índia, não na China - trouxe embarcado o sistema de geolocalização NavIC como alternativa. “Não dependemos de ninguém para navegar”, disse o empresário. A Índia pode desenvolver seu próprio GPS porque domina projeto, fabricação, lançamento e a operação dos próprios satélites.

Publicidade

Estoque da Skyroot Aerospace com a marca do governo Make in India, cujo propósito é ampliar a fabricação nacional e alcançar autossuficiência. Foto: Felipe Frazão Foto: Felipe Frazão

Mais do que independência em qualquer cenário geopolítico ou de conflito bélico, o sistema de nativo indiano tem implicações e utilizações práticas no país. “É muito estratégico ter satélites fazendo monitoramento de desastres, monitoramento de emissões de gases de efeito estufa, ter serviços de conectividade para televisão, para medicina diária, para os testes remotos nas aldeias. Satélites na Índia ajudam pescadores a economizar bilhões de dólares em combustível, direcionando-os para os cardumes de peixes. O programa espacial indiano afetou o cidadão comum”, afirma o cientista e empreendedor.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.