Como uma eleição num pequeno país europeu pode mudar os rumos da guerra na Ucrânia

Eslováquia se prepara para eleições gerais com uma divisão interna crescente entre pró-russos e pró-ucranianos; resultado pode dividir unidade da Europa

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Por Andrew Higgins
Atualização:

LADOMIROVA, ESLOVÁQUIA (THE NEW YORK TIMES) – Quando a Ucrânia descobriu valas comuns de civis em uma área recapturada das tropas russas, o embaixador da Rússia na vizinha Eslováquia respondeu com outra descoberta, essa feita pelos russos. O prefeito de uma vila eslovaca distante havia derrubado túmulos de combatentes russos que lutaram na 1.ª Guerra, anunciou em setembro do ano passado o embaixador, Igor Bratchikov. Em seguida, exigiu que o governo eslovaco, um grande apoiador da Ucrânia, agisse para punir o “ato blasfemo”.

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A polícia eslovaca agiu rapidamente e chamou as alegações do embaixador de “farsa”, mas a história se espalhou entre os grupos pró-russos da Eslováquia e veículos de notícias conhecidos por reproduzir a propaganda russa. No mês seguinte, o tal prefeito, Vladislav Cuper, perdeu a eleição para um candidato da oposição de um partido populista que é contra ajudar a Ucrânia.

Hoje, as mesmas forças que ajudaram a destituir Cuper se mobilizam para a eleição geral na Eslováquia, marcada para 30 de setembro e com efeitos muito maiores.

Imagem de abril de 2022 mostra presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o primeiro-ministro da Eslováquia, Eduard Heger, e o primeiro-ministro da Ucrânia, Denys Shmyhal, ao lado de corpos encontrados em valas comuns nos arredores de Kiev, na Ucrânia. Meses depois, Rússia alegou ter descoberto algo semelhante na Eslováquia Foto: Janis Laizans/Reuters

A votação vai decidir não só quem governará o pequeno país de menos de seis milhões habitantes localizado na Europa Central, mas também se a rejeição de ajudar a Ucrânia, ideia hoje restrita às margens políticas na Europa, pode se firmar em uma esfera mais dominante.

Segundo as pesquisas de opinião, o favorito na eleição é o partido liderado pelo ex-primeiro-ministro Robert Fico, que prometeu interromper o envio de armas eslovacas à Ucrânia, denunciou sanções contra a Rússia e criticou a Otan, que o seu país faz parte.

Um resultado positivo para o partido do ex-primeiro-ministro e outros de extrema direita que se opõem a Kiev poderia transformar um dos maiores apoiadores da Ucrânia – a Eslováquia foi o primeiro país a enviar mísseis de defesa aérea e caças para os ucranianos – em um espectador neutro, mais simpático a Moscou. Também acabaria com o isolamento do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, como único líder da União Europeia e da Otan a se manifestar fortemente contra ajudar a Ucrânia.

“A Rússia está se regozijando”, afirmou Rastislav Kacer, ex-ministro das Relações Exteriores da Eslováquia e defensor declarado da Ucrânia, em Bratislava, capital eslovaca. “A Eslováquia é uma grande história de sucesso da propaganda deles. (A Rússia) trabalhou arduamente e com muito sucesso para explorar o meu país como uma cunha para dividir a Europa.”

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Sentimentos pró-russos na Europa Central

Por causa da insatisfação pública generalizada com as disputas internas entre políticos eslovacos pró-ocidentais que chegaram ao poder em 2020 e a grupos de genuíno sentimento pró-russo que remontam ao século 19, a Rússia tem pressionado para ter uma porta aberta na Eslováquia.

Uma pesquisa de opinião pública em toda a Europa Central e Oriental feita em março pela Globsec, um grupo de pesquisa com sede em Bratislava, descobriu que apenas 40% dos eslovacos culpam a Rússia pela guerra na Ucrânia, enquanto 51% acreditam que a Ucrânia ou o Ocidente são “os principais responsáveis”. Na Polônia, 85% culpam a Rússia. Na República Tcheca, 71% acham que a Rússia é responsável.

Daniel Milo, diretor de um departamento do Ministério do Interior destinado a combater a desinformação e outras ameaças não militares, reconheceu que “há um terreno fértil aqui para o sentimento pró-russo” na região. Segundo ele, essa simpatia genuína enraizada na história foi explorada pela Rússia e apoiadores locais para semear divisão e piorar a opinião pública sobre a Ucrânia.

Imagem mostra o então primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em encontro em 2016. Partido de Fico lidera pesquisas de opinião Foto: Alexander Zemlianichenko/Reuters

Entre os apoiadores está Hlavne Spravy, um site de notícias anti-americano popular na Eslováquia, e um grupo de motoqueiros chamado Brat za Brata (Irmão para Irmão, em português), afiliado à gangue de motoqueiros Night Wolves (Lobos Noturnos), patrocinada pelo Kremlin, na Rússia.

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Um escritor freelancer de Hlavne Spravy, Bohus Garbar, foi condenado por espionagem este ano depois de ser flagrado em câmeras recebendo dinheiro de um oficial militar da Rússia, que já foi expulso.

O Brat za Brata, por sua vez, tem um grande número de seguidores nas redes sociais, laços estreitos com a embaixada russa e tem trabalhado para intimidar os críticos russos.

Peter Kalmus, um artista eslovaco de 70 anos, disse que foi espancado por membros do grupo no mês passado depois de desfigurar um memorial de guerra soviético na cidade de Kosice, leste do país, para protestar contra as atrocidades russas na Ucrânia. Em março, os motoqueiros transformaram em pandemônio um debate público patrocinado pelo governo em uma cidade perto da fronteira ucraniana com a presença de Kacer, na época ainda ministro. Manifestantes pró-Rússia ferozes, lembrou Kacer, “pularam no palco gritando e cuspindo em nós”.

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Para Grigorij Meseznikov, presidente do Instituto de Assuntos Públicos, um grupo de pesquisa de Bratislava, muitos eslovacos “têm uma visão romântica inventada da Rússia em suas cabeças que realmente não existe” e são facilmente influenciados por “mentiras e propaganda” sobre o Ocidente.

Isso, acrescentou Meseznikov, tornou o país vulnerável aos esforços de Moscou para reunir o sentimento pró-Rússia na esperança de minar a unidade europeia sobre a Ucrânia. “Se você tirar até mesmo um pequeno tijolo de uma parede, ela pode desmoronar”, disse o pesquisador, referindo-se ao tamanho pequeno da Eslováquia em relação a toda Europa.

O clima na Europa está mudando

Lubos Blaha, vice-líder do partido SMER

Essa é sem dúvidas a esperança de Lubos Blaha, ex-membro de uma banda de heavy metal, autor de livros sobre Lenin e Che Guevara e agora vice-líder do partido político de Fico, o SMER. Ele é uma das vozes mais barulhentas e influentes da Eslováquia nas redes sociais e chama regularmente a presidente liberal do país, Zuzana Caputova, de “fascista” e os ministros pró-ucranianos de “marionetes americanas”.

“O clima na Europa está mudando”, disse Blaha em uma entrevista, descrevendo o conflito na Ucrânia como “uma guerra do império americano contra o império russo” que não pode ser vencida porque a Rússia é uma potência nuclear.

Blaha afirma que “não é pró-Rússia, apenas pró-interesses nacionais do meu país” e previu que os países hostis ao armamento da Ucrânia em breve serão maioria, enquanto os apoiadores da Ucrânia, minoria. Isso especialmente no cenário de vitória de Donald Trump nas próximas eleições dos Estados Unidos.

Acusações mútuas de interferência estrangeira

A plácida Eslováquia foi inundada por acusações acaloradas de todos os lados neste período que antecede as eleições. Os pró-russos, como Robert Fico, acusam a Otan de interferir na campanha, enquanto os opositores apontam o mesmo dedo para a Rússia. As acusações de interferência estrangeira são mútuas.

O ex-ministro da Defesa da Eslováquia, Jaroslav Nad, que liderou o esforço para enviar armas para a Ucrânia, descreveu o partido SMER como um “cavalo de Tróia” da Rússia. Recentemente, ele afirmou que relatórios de inteligência indicam que um cidadão eslovaco, não-identificado por ele, visitou a Rússia para receber dinheiro para beneficiar o SMER. No entanto, alegou sigilo e não apresentou provas, e a alegação foi amplamente descartada como uma difamação pré-eleitoral.

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Ainda assim, a história das sepulturas de guerra destruídas espalhada pelo embaixador russo chamou a atenção para a habilidade da Rússia em tirar proveito da turbulência da Eslováquia. Também forneceu o que Daniel Milo, que trabalha no Ministério do Interior, chamou de “arma letal muito rara” que implica diretamente Moscou na produção de farsas. “Eles costumam agir de forma mais inteligente e tentam não ser pegos em flagrante”, declarou.

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