Comunicação não segura entre tropas custa caro aos russos; leia cenário

Tropa russa passou a utilizar dispositivos de comunicação como smartphones e rádios walkie talkie, o que facilita a interceptação e o rastreamento; equipamentos ressaltam deficiências de comando

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Por Alex Horton e Shane Harris
5 min de leitura

THE WASHINGTON POST - As tropas russas na Ucrânia têm confiado, com frequência surpreendente, em dispositivos de comunicação não seguros, como smartphones e rádios push-to-talk (walkie talkie). Os equipamentos deixam as unidades vulneráveis a alvos e ressaltam ainda mais as deficiências de comando e controle que definiram Moscou desde o início da invasão, avaliam especialistas.

“Estamos os vendo usar muito mais comunicações não seguras porque sua capacidade de comunicações seguras (...) por uma razão ou por outra não é tão forte quanto deveria ser”, afirmou uma autoridade do Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) em uma coletiva de imprensa recente.

As forças armadas russas possuem equipamentos modernos capazes de transmissão segura, mas as tropas no campo de batalha utilizam linhas de comunicação mais simples e menos confiáveis. Especialistas afirmam que isso se dá devido à disciplina desigual entre as fileiras, uma aparente falta de planejamento para conduzir um conflito sustentado em longas distâncias e a ataques russos à infraestrutura de comunicação da Ucrânia, na qual também utiliza.

Um oficial de inteligência da Europa, que falou sob condição de anonimato para discutir as avaliações da Otan no campo de batalha, disse que desde que a invasão começou no final de fevereiro houve vários casos de comandantes russos confiscando telefones pessoais de seus subordinados por medo de que eles entregassem involuntariamente a localização da unidade.

Tanques de guerra do exército russo em uma estrada entre a Rússia e a Ucrânia, na região de Donetsk, na sexta-feira, 25 Foto: Alexander Ermochenko / Reuters

O mesmo oficial afirmou que civis ucranianos relataram ter seus telefones roubados por tropas russas que os usam para falar uns com os outros e com a família em casa. Essas ligações, observou, revelaram as frustrações e o declínio moral das tropas, já que os militares da Ucrânia impediram o avanço da Rússia em cidades importantes, matando milhares de russos.

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O Pentágono disse na sexta-feira, 26, que o último relatório de inteligência mostrou que as forças russas perderam o controle total de Kherson, uma cidade portuária ao longo do Mar Negro, à medida que a Ucrânia passou a fazer operações de contra-ataque em diversas partes do país. Com isso, a Rússia passou a focar no leste ucraniano, onde está localizada a região separatista de Donbas.

Há evidências de que os Estados Unidos e outros países da Otan forneceram à Ucrânia equipamentos eletrônicos de guerra capazes de interromper as comunicações russas e permitir que postos de comando russos sejam alvejados, avaliou Kostas Tigkos, especialista militar russo da empresa Janes Group. Para Tigkos, ao destruir os pontos de comunicação da Rússia, os ucranianos pressionam seus adversários a usar equipamentos menos seguros e aumentam a probabilidade das conversas serem interceptadas ou suas posições rastreadas.

Embora os militares russos tenham reformulado sua tecnologia militar nas últimas duas décadas, com foco na modernização nos equipamentos de comunicação, Tigkos avalia que isso se trata apenas de uma parte da equação. “Uma coisa é desenvolver um bom rádio que funcione bem”, disse ele. “Outra coisa é implantar esse rádio, construir uma rede e conduzir uma operação militar complexa com milhares de peças móveis, e fazê-las trabalhar juntas como uma sinfonia.”

As transmissões militares russas por linhas não seguras têm sido tão comuns, dizem os analistas, que entusiastas de rádio amador as sintonizaram online em alguns sites. Algumas conversas, obtidas pelo The Washington Post, revelaram as frustrações das tropas. Em uma transmissão do dia 5 de março, um membro do serviço russo se identifica como “Blacksmith”, em vez de um código de chamada. “Não diga os sobrenomes no ar!” outro responde.

Em outra discussão, os soldados russos parecem confundir uns aos outros devido aos seus nomes de batalha. Um se identifica como “Exchange”. Outro então diz que, na verdade, esse é o seu nome. “Você misturou tudo!”, um deles explica.

Os comandantes russos também demonstraram dificuldade em organizar as comunicações em um campo de batalha tão amplo e dinâmico, dizem analistas. As forças estão espalhadas pela Ucrânia, o maior país da Europa depois da Rússia, o que causa desafios para os estrategistas militares que coordenam os locais de transmissão móvel. Isso se torna ainda mais difícil quando se considera que eles devem garantir que os rádios operem em frequências que devem ser alteradas constantemente.

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Ao mesmo tempo, analistas militares alertaram contra generalizações sobre o desempenho de comunicação dos russos. Algumas unidades, dizem eles, podem ser mais bem equipadas e disciplinadas do que outras.

Na avaliação de Sam Bendett, especialista em tecnologia militar russa do Centro de Análises Navais em Arlington, na Virgínia, fotos de equipamentos russos, capturados pelas forças ucranianas, mostram rádios sofisticados e seguros. Outras mostram equipamentos prontos para uso.

Militares do exército russo são vistos no topo de um tanque de guerra a caminho da cidade de Mariupol, no dia 24 de março Foto: Alexander Ermochenko / Reuters

Alguns funcionários russos podem usar esses rádios como um meio de se misturar ao amplo espectro de rádios com frequências civis – como uma agulha no palheiro, disse Bendett – em vez de frequências militares que são mais limitadas e detectáveis com o equipamento certo.

Há evidências exemplares de que as comunicações não seguras da Rússia levaram a perdas no campo de batalha. No início deste mês, por exemplo, o New York Times noticiou a morte de um general russo em um ataque aéreo depois que o seu celular foi detectado por ucranianos. Em outro caso, dois oficiais da inteligência russa foram ouvidos discutindo em frequência aberta a morte de um oficial sênior.

Quando um dos oficiais pediu para falar em uma linha criptografada, o outro disse que ela não estava funcionando.”Não podemos entrar em contato com ninguém”, disse o funcionário.

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Também é provável que oficiais russos seniores com experiência contra forças menos capazes em outros campos de batalha tenham subestimado os ucranianos e pegos de surpresa pela forma como eles se mostram determinados. Os comandantes russos participam dos conflitos na Síria há anos, por exemplo, onde rádios e telefones celulares podem ser usados sem preocupação de interferência ou rastreamento, observou Bendett, do Centro de Análises Navais. “Parece provável”, disse ele, “alguns oficiais adquiriram maus hábitos que eles achavam que funcionariam na Ucrânia”.

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