Congelamento da ajuda militar à Ucrânia é o melhor presente de Natal de Putin; leia análise

Sem financiamento dos EUA para a defesa do exército ucraniano durante a guerra, otimismo da Rússia aumenta

PUBLICIDADE

Por Francesca Ebel

Moscou fervilha em meio ao espírito natalino — sem quase nenhum sinal claro de que é a capital de uma Rússia em guerra, com baixas na Ucrânia estimadas em mais de 300 mil mortos ou feridos e crescendo dia a dia.

PUBLICIDADE

Centenas de moscovitas enfrentaram recentemente horas de fila sob o frio do inverno para comprar ingressos para “O Quebra-Nozes”. Uma festa techno no fim de semana passado foi protagonizada por DJs da Espanha e do Leste Europeu. Nem mesmo uma série de ataques de drones ucranianos contra a cidade nos meses recentes abalou muito a normalidade.

Protegida por um grande orçamento municipal — e relativamente intocada pelas ondas de conscrição militar que atingiram outras regiões russas — a maioria dos moradores de Moscou consegue fechar os olhos para o conflito brutal que se arrasta 800 quilômetros a oeste.

Moradores locais passeiam pela Praça Vermelha de Moscou, coberta de neve, em 17 de dezembro de 2023. Foto: NATALIA KOLESNIKOVA / AFP

E dentro do Kremlin o humor parece ainda melhor — pelo menos é esta a mensagem oficial.

Com a ajuda ocidental para a Ucrânia estancando em Washington e Bruxelas em meio à contraofensiva fracassada de Kiev e as linhas de frente estagnadas em grande medida, com a Rússia ocupando cerca de 30% do território ucraniano, o presidente Vladimir Putin termina 2023 em tom triunfal.

“Estou certo de que a vitória será nossa”, declarou Putin na quinta-feira em sua primeira conferência de imprensa anual desde a invasão de fevereiro de 2022.

Durante a entrevista coletiva, que foi combinada com seu programa de telefonemas de cidadãos, Putin brincou com jornalistas e russos comuns, gabou-se afirmando que a economia russa “se recuperou” das sanções do Ocidente e alegou que “nossas Forças Armadas estão melhorando sua posição ao longo de quase toda a linha de contato”.

Publicidade

Foi um tom muito diferente do expressado por Putin nas aparições públicas tensas e altamente coreografadas da época em que suas tropas experimentavam repetidos reveses nos campos de batalha, em 2022 — e sem nada da fúria que ele exibiu em um discurso televisionado em junho, depois que os mercenários das forças Wagner montaram um breve motim.

Nas semanas recentes, Putin até retomou suas viagens internacionais, que tinham sido contidas pelo Kremlin mesmo antes do Tribunal Penal Internacional, em Haia, ter emitido mandados de prisão contra ele acusando-o de crimes de guerra. Putin visitou a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, gerando uma cobertura festiva dos meios de comunicação russos.

Um outdoor exibe uma foto do soldado russo Vyacheslav Arshinov perto de um ponto de ônibus, com uma tela eletrônica mostrando o presidente russo Vladimir Putin. Foto: Maxim Shemetov / REUTERS

“Amigos próximos: como as tentativas de isolar a Rússia ruíram”, declarou a manchete da revista semanal de economia e negócios Kommersant Dinheiro.

“Há dois anos vocês têm empurrado para os seus eleitores no Ocidente o mito do isolamento de Vladimir Putin, para depois o mundo inteiro ver o céu de Abu Dhabi pintado com as três cores da bandeira russa”, escreveu o colunista David Narmaniia, do site de notícias RIA Novosti. “O mito que lhes foi empurrado por dois anos morreu em dois dias.”

PUBLICIDADE

Ainda que alguns cidadãos russos tenham usado o programa de perguntas pelo telefone para pressionar Putin a respeito do aumento na inflação, especialmente sobre o preço dos ovos, a economia russa se provou extremamente resiliente. O rublo permaneceu forte graças à intervenção do Banco Central, e empresas russas se movimentaram para capitalizar sobre a partida de marcas internacionais.

“Nós estamos vendo até um grande aumento na nossa clientela, já que as pessoas não podem mais ir à Zara ou à H&M”, afirmou um vendedor da loja russa de roupas LinoRusso, que ainda importa tecidos da Itália. Alguns russos que fugiram da turbulência socioeconômica da invasão retornaram, considerando a vida no exterior difícil demais.

Putin, que encerra seu 24.º ano como líder da Rússia, navega para uma nova reeleição, numa votação em março que será um pouco mais que uma coroação renovada. O que faz seus apoiadores exaltarem realizações russas.

“Eu diria que nós fizemos o impossível, mas é isso que torna a Rússia tão singular: nós operamos bem e até melhor sob pressão externa”, afirmou Maria Butina, que cumpriu pena de prisão nos EUA por atuar como agente estrangeira não registrada. Agora ela integra o Parlamento russo e apresenta um talk show quatro vezes por semana em um dos principais canais de TV estatais. “Nossa longa história nos ensinou a ser assim”, afirmou Butina.

A cidadã russa Maria Butina participa de uma reunião sobre direitos humanos na Câmara dos Deputados em Moscou, Rússia, em 22 de novembro de 2019.  Foto: Pavel Golovkin / AP

Ecoando Putin, Butina afirmou que a guerra não acabará até que a Rússia alcance seus objetivos: “desnazificar” e “desmilitarizar” a Ucrânia. “Eu acredito que Putin é o líder forte e carismático que a Rússia precisa, especialmente agora”, afirmou ela.

A propagandista russa e correspondente de guerra Mariana Naumova disse em entrevista que os esforços do Ocidente para isolar a Rússia “não surtiram um forte impacto”. Em vez disso, afirmou ela, o desenvolvimento econômico ocorrido desde a invasão ajudou o país, assim como o apoio aos chamados “valores tradicionais”, que, segundo críticos, ocorre em detrimento dos direitos de mulheres e pessoas LGBT+.

Naumova expressou confiança de que a Terra continuará a girar. “Um dia eu gostaria de passear numa praia da Califórnia”, afirmou ela. “Meu palpite é que, em alguns anos, as coisas voltarão ao normal. Nós só precisamos ser pacientes e esperar isso acabar.”

Na noite da quarta-feira, Natalia, de 53 anos, e sua tia idosa — também chamada Natalia — saíam do Teatro Bolshoi em meio à noite gelada, agasalhadas com casacos de pele justos e gorros.

A neve que caía iluminava-se com impressionantes shows de luzes em celebração à chegada do ano-novo por toda a cidade. Elas tinham acabado de assistir uma apresentação que teve todos os ingressos vendidos da ópera soviética “A Grande Amizade”, que estreou em 1947 em Donetsk, cuja região atualmente pertence ao leste da Ucrânia mas é ocupada pela Rússia e seus apoiadores desde 2014.

Publicidade

“Oh, foi um espetáculo fabuloso e tão patriótico. Mexeu com muitas emoções positivas dentro de mim”, afirmou a Natalia mais velha, apontando para um cartaz que exibia uma bandeira vermelha com a foice e o martelo.

Trabalhadores instalam decorações em uma árvore de Natal após uma semana de forte nevasca em Podolsk, nos arredores de Moscou, Rússia, em 18 de dezembro de 2023. Foto: MAXIM SHIPENKOV / EFE

As mulheres disseram que não se preocupam com a guerra. “Toda essa guerra beneficia a Rússia”, disse a Natalia mais jovem. “A situação mundial beneficia a Rússia. A Rússia vai ficar mais forte porque agora eles começaram a restaurar a produção e a economia — há desenvolvimento porque laços antigos deixaram de existir”, acrescentou ela.

O otimismo de Moscou, porém, pode não se refletir no interior. A inflação de 7,5% mandou às alturas os preços dos itens de consumo. O orçamento nacional continua precário e dependente dos preços do petróleo, que têm caído. Um novo relatório do Departamento do Tesouro dos EUA constatou que um terço do gasto da Rússia é destinado à guerra. Uma força de trabalho que diminui depois de centenas de milhares fugirem da conscrição também prejudica a economia.

Canais de Telegram dedicados a mobilizar soldados estão repletos de queixas sobre as condições do front, e blogueiros pró-guerra documentaram hospitais sobrecarregados nas linhas de frente. “O Exército russo e Vladimir Putin mostraram pessoalmente que não dão a mínima para suas próprias baixas”, afirmou na semana passada em seu programa de rádio o jornalista russo radicado na Letônia Michael Nacke. “Eles vão mandar tantos soldados descartáveis quanto virem necessário.”

Há também uma fonte menos visível de insatisfação. As autoridades russas têm posto em prática uma campanha brutal de repressão. A organização de defesa direitos humanos OVD-Info documentou cerca de 20 mil prisões motivadas por protestos antiguerra.

Em uma festa rave na capital, no sábado, jovens russos afirmaram que a cena techno de Moscou diminuiu notavelmente desde as ondas de emigração. Ameaças de ser abordado pela polícia também aumentaram.

“Nós temos de ser muito cuidadosos agora por causa de certas leis”, afirmou Gerasim, de 36 anos, que conversou com a reportagem sob a condição de ser identificado apenas por seu primeiro nome. “Parece que estão apertando o cerco, e nós não podemos mais ser nós mesmos. É bem orwelliano, bem ruim.”

Publicidade

O presidente russo Vladimir Putin, ao centro, discursa para oficiais premiados após uma reunião com a alta cúpula militar em Moscou, na Rússia, na terça-feira, 19 de dezembro de 2023.  Foto: Mikhail Klimentyev / AP

Sua namorada, Jean, disse que está ansiosa a respeito do futuro e que não lê mais as notícias. “Eu sinto a pressão. E está ficando mais forte”, afirmou ela.

O Bolshoi também foi afetado. Algumas semanas atrás, seu diretor-geral de longa data Vladimir Urin pediu demissão e foi substituído por Valeri Gergiev, um apoiador de Putin. Em setembro, Urin admitiu que montagens foram censuradas e que diretores críticos à guerra foram removidos dos quadros.

Frequentadores do teatro entrevistados após a apresentação da quarta-feira indicaram que não conheciam a história por trás de “A Grande Amizade” — que Stálin viu a ópera, a odiou e determinou novos expurgos da cultura soviética depois.

Alguns analistas sugerem que o otimismo de Moscou também é algo teatral.

“A força de Putin reside no fato dele não depender de apoio agressivo”, afirmou o analistas político radicado em Moscou Andrei Kolesnikov, “em vez disso, ele se fia em um conformismo passivo, uma indiferença total da parte principal da população e sua rejeição à responsabilidade”.

Nacke é menos otimista: “Não apenas o Exército russo, mas a sociedade russa também está se transformando numa sociedade absolutamente canibalística, desprovida não somente de orientações morais, mas também das humanas”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.