Dois anos após ataques do Hamas, Israel redesenha o Oriente Médio, mas perde aliados regionais

Israel se tornou a única potência regional, capaz de atingir alvos em qualquer lugar, mas prejudicou as relações com o resto do Oriente Médio

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Foto do autor Daniel Gateno

Trump diz que um acordo sobre Gaza parece ter sido alcançado

Segundo o presidente americano, negociação que colocaria fim à guerra teria sido finalizada após os recentes diálogos entre Israel e os países árabes. Crédito: DC Pool/AFP

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

Israel conseguiu reformular o Oriente Médio à sua maneira em dois anos de guerra contra o grupo terrorista Hamas. Se no dia 7 de outubro de 2023, o país sofreu o maior ataque terrorista de sua história, a realidade agora é outra. O Hamas não representa mais uma ameaça, o Hezbollah está moribundo e o Irã está em coma depois da chamada guerra dos 12 dias, em junho deste ano.

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O novo momento alçou Israel ao posto de única potência regional, capaz de atingir alvos em qualquer lugar, sem os escrúpulos que limitavam a atuação dos israelenses no passado. O poder bruto e quase sem limites de Tel-Aviv foi comprovado no Irã, quando um general morreu em um bombardeio certeiro que atingiu seu quarto. Na Síria também, após ataques israelenses atingirem o ministério da Defesa e áreas próximas ao Palácio Presidencial, e mais recentemente no Catar, país que abriga ao mesmo tempo a maior base americana da região e o escritório político do Hamas.

O status israelense aumentou os temores dos países da região de que Tel-Aviv se tornou o poder hegemônico no Oriente Médio e poderia ameaçar a segurança das nações do Golfo, entre eles países que têm relações diplomáticas com Israel, e vizinhos de fronteira que tem um longo vínculo de paz com Tel-Aviv, como o Egito.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, discursa na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York Foto: Stefan Jeremias / AP

“Os ataques de 7 de outubro levaram Israel a um realinhamento estratégico bastante significativo”, aponta David Roberts, professor de relações internacionais da King ‘s College em Londres e especialista em Oriente Médio. “Israel tentou avançar em manobras políticas enormes que afetaram países vizinhos, como o Líbano, e também mais distantes como Catar e Irã. Definitivamente estamos vivendo uma nova era”.

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O contexto atual aumentou o isolamento de Israel na arena internacional e dificultou ainda mais a possibilidade de ampliar a aliança criada pelos Acordos de Abraão em 2021, quando Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos decidiram normalizar as relações com Tel-Aviv.

Preocupações

O desconforto dos países do Oriente Médio em relação a Israel ficou mais forte depois do bombardeio israelense contra o escritório político do Hamas em Doha, no Catar, no dia 9 de setembro.

Tel-Aviv alega que atacou Doha porque o país do Golfo permite que oficiais do Hamas vivam em seu território. O Catar serve como mediador ao lado do Egito de todas as negociações envolvendo o Hamas e aceita abrigar o escritório político do grupo terrorista a pedido dos Estados Unidos para facilitar a comunicação, segundo analistas.

O ataque em Doha foi considerado sem precedentes e inaceitável para o Catar, que exigiu um pedido de desculpas de Israel. Desde os bombardeios, os governos de países do Golfo, Jordânia, Egito e Turquia passaram a temer que seus territórios possam ser atacados por Tel-Aviv.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião com líderes árabes em Nova York Foto: Chip Somodevilla/AFP

“Existe uma grande preocupação entre os países do Golfo e a Turquia de que Israel queira ser uma potência hegemônica regional”, avalia Douglas Siliman, presidente do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, com sede em Washington, e ex-embaixador dos Estados Unidos no Iraque e no Kuwait.

“Israel removeu as restrições que havia imposto anteriormente sobre a condução de ataques militares na região e se tornou o principal fator de desestabilização no Oriente Médio, junto com o Irã“, disse o especialista.

Duas semanas depois dos ataques em Doha, a Arábia Saudita anunciou que assinou um pacto de defesa mútua com o Paquistão, um país que tem armas nucleares. É a primeira decisão de defesa importante por um país árabe do Golfo desde o bombardeio e manda um sinal para o resto da região.

Outros acordos do tipo estão sendo avaliados, incluindo um possível plano para a criação de uma “Otan do Oriente Médio”.

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O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, abraça o príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Mohammed bin Salman, em Riad Foto: Agência de Imprensa da Arábia Saudita/AP

Estados Unidos

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Os questionamentos dos países do Oriente Médio em relação à sua própria segurança poderiam prejudicar as relações dos Estados Unidos com as nações árabes. Washington tem um vínculo focado em cooperação econômica e militar com os países do Golfo, mas não impediu os ataques no Catar.

“Já faz algum tempo que os países do Golfo estão questionando as garantias de segurança dos EUA. Em 2019, o Irã atacou a maior instalação de refino de petróleo do mundo, na Arábia Saudita, e os EUA fizeram muito pouco para ajudar”, diz Roberts, da King´s College.

O analista afirma que os ataques no Catar aumentaram essa visão. “A dissuasão americana não deteve, a tecnologia americana não protegeu. Então os países estão repensando as suas políticas de segurança”.

Autoridades de Catar e Emirados Árabes Unidos se reúnem em Doha, no dia 10 de setembro  Foto: Amiri Diwan/ AFP

Ciente da importância estratégica e financeira do Golfo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, condenou os bombardeios israelenses e fez o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, ligar para o primeiro-ministro do Catar, o Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, para se desculpar. O líder israelense garantiu que não irá violar a soberania do Catar novamente.

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Para Siliman, o presidente do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, as preocupações relacionadas a Israel não devem prejudicar os Estados Unidos no curto prazo pela falta de alternativas de países que poderiam fornecer o aparato de segurança de Washington. “A Europa não consegue e a China não tem o interesse e as condições geográficas para isso. Então o guarda-chuva de segurança americano é a melhor alternativa para eles”.

Mas o temor causado pelos israelenses pode limitar a relação de Tel-Aviv com seu principal aliado. Segundo pesquisas de opinião, o apoio a Israel entre americanos tem diminuído, independente do partido político, e os bombardeios israelenses no Catar e na Síria prejudicaram os esforços de Trump para estabelecer a paz no Oriente Médio.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebe o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, na Casa Branca Foto: Mark Schiefelbein/ AP

Entre os membros do núcleo duro trumpista, as reclamações sobre o envio de ajuda militar e econômica para Israel estão aumentando. De acordo com estimativas, Washington já enviou mais de US$ 300 bilhões a Tel-Aviv desde a fundação do Estado, em 1948.

Um acordo de assistência militar entre Israel e Estados Unidos que se encerra em 2028 prevê que Washington despache US$ 3,8 bilhões por ano a Tel-Aviv. Políticos na Knesset, o Parlamento de Israel, temem que Trump queira renegociar o acordo, para reduzir o envio de dinheiro.

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Acordos de Abraão

O avanço israelense na região também poderia colocar em perigo os Acordos de Abraão, a maior iniciativa de política externa do primeiro governo Trump. Em agosto de 2020, Emirados Árabes Unidos e Bahrein concordaram em normalizar as relações diplomáticas com Israel. Marrocos e Sudão se juntaram aos acordos meses depois.

Desde o início da guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas os acordos se tornaram mais frágeis à em que Tel-Aviv avançava em sua ofensiva na Faixa de Gaza e os membros de extrema direita da coalizão de Netanyahu subiam o tom sobre uma possível anexação da Cisjordânia.

Depois do reconhecimento do Estado palestino na Assembleia-Geral da ONU por diversos países do Ocidente, como Reino Unido, França e Canadá, Netanyahu chegou a ameaçar a anexação como resposta, mas foi desautorizado por Trump depois que os Emirados Árabes ressaltaram que essa seria uma “linha vermelha” para as relações com Israel.

O emir do Catar, Tamim bin Hamad Al-Thani, discursa em uma reunião de emergência convocada pelo Catar, em Doha Foto: Agência de imprensa do Catar/AFP

“Os Acordos de Abraão estão em perigo, mas países como os Emirados Árabes Unidos estão usando a influência desses acordos para colocar pressão em Israel”, diz Siliman. “A Casa Branca entendeu qual era o limite de Abu Dhabi e viu que o maior feito de política externa de Trump estava em apuros”.

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As relações de Israel com Egito e Jordânia, países que têm uma longa relação de paz e cooperação com Tel-Aviv, também estão em perigo. Durante uma reunião de emergência em Doha em setembro, o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi, se referiu a Israel como um “inimigo”. Essa foi a primeira vez desde a costura dos acordos de paz em 1979 que autoridades do Cairo se referem a Tel-Aviv desta maneira.

Roberts, da King ‘s College, não acredita em um rompimento das relações diplomáticas. “Jordânia e Egito estão muito infelizes com o que Israel está fazendo e eles querem expressar esse sentimento, mas é improvável que rompam relações”.

O presidente dos Emirados Árabes Unidos, o Sheik Mohamed bin Zayed, conversa com o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi, no Cairo Foto: Hamad Al-Kaabi/AFP

Isolamento

O isolamento israelense na região pode ser resumido na possibilidade de um acordo de paz com a Arábia Saudita: impossível neste momento, segundo Roberts.

Os dois países estavam próximos da normalização antes dos ataques terroristas do Hamas, mas a situação foi ficando cada vez mais complicada ao longo dos últimos 48 meses. “Israel precisaria de um novo governo, que estivesse preocupado com a reputação israelense na arena internacional, e teria que sinalizar a disposição para concordar com um Estado palestino”.

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O plano de 20 pontos de Donald Trump para a paz em Gaza, que foi elogiado pela comunidade internacional, e levou o Hamas a concordar em finalmente libertar os reféns israelenses e pedir para negociar até mesmo a sua saída do poder em Gaza, pode ser um caminho para melhores relações de Tel-Aviv com o resto do Oriente Médio. Mas Netanyahu ressaltou que o aval ao plano não significa que Israel está dando o sinal verde para a criação de um Estado palestino.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma coletiva de imprensa ao lado do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Washington Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP

Antes do anúncio do plano de paz de Trump, Netanyahu admitiu o isolamento israelense e afirmou que Israel teria que se tornar uma “super Esparta” nos próximos anos, em uma referência à poderosa cidade-estado da época da Grécia antiga.

“Acredito no livre mercado, mas podemos nos encontrar em uma situação em que nossas indústrias de armamentos sejam bloqueadas. Precisaremos desenvolver indústrias de armamentos aqui — não apenas pesquisa e desenvolvimento, mas também a capacidade de produzir o que precisamos”, disse Netanyahu, em uma conferência em Jerusalém.

Depois dos comentários de Netanyahu, a bolsa de valores de Tel-Aviv caiu e empresários reclamaram. “Israel é um pequeno país voltado para a exportação, que depende de investimentos estrangeiros, sendo o setor de tecnologia o principal motor da economia. Esparta não tem nada a ver com a mentalidade israelense”, aponta Shira Efron, analista de segurança da Rand Corporation, um think-tank com base em Washington.

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O editor de economia do jornal israelense Haaretz, David Rosemberg, também se mostrou cético com a comparação de Netanyahu. “Esparta era pequena demais para ser hegemônica por muito tempo e acabou perdendo sua independência para os macedônios e os romanos. A cidade em si sobreviveu, mas desapareceu da história. É para lá que queremos ir?”.