Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

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Quais os efeitos da reação árabe ao ataque israelense ao Catar?

As ações do governo israelense podem provocar a maior aproximação dos países árabes do Golfo Pérsico em décadas

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Foto do autor Filipe Figueiredo

Israel e Hamas se acusam mutuamente de sabotar negociações para trégua em Gaza

Domingo de novos bombardeios israelenses contra a Faixa de Gaza, com mais 20 palestinos mortos confirmados por autoridades do território devastado pela guerra. Crédito: AFP

As ações do governo israelense no último dia 9 de setembro podem provocar a maior aproximação dos países árabes do Golfo Pérsico em décadas. Nesse dia, Israel atacou Doha, capital do Catar, buscando atingir uma reunião de lideranças do Hamas.

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O ataque teve impactos domésticos israelenses, mas, principalmente, foi recebido com condenação por todo o mundo e motivou reuniões de emergência entre lideranças árabes, incluindo as poucas lideranças que podem realmente pressionar Israel.

Segundo a própria inteligência israelense, o ataque falhou em seu objetivo de eliminar as lideranças internacionais do Hamas que vivem tanto no Catar quanto na Turquia e se reuniram em Doha.

Talvez seja interessante lembrar que o Catar é a sede internacional do grupo e que esse abrigo se deu durante a presidência de Barack Obama nos EUA, sob a proposta de facilitar negociações e pontos de contato. O Catar é, desde o ataque terrorista de sete de outubro de 2023, o principal mediador das negociações com o Hamas.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com o emir do Catar, o Sheikh Tamin bin Hamad al Thani, em Doha Foto: Doug Mills/ NYT

Não há utilidade prática em atacar os negociadores durante a própria negociação, a não ser que a intenção seja sabotar um possível acordo. Essa é a acusação feita contra Binyamin Netanyahu por Einav Zangauker, israelense mãe de um refém e uma das lideranças do Fórum de Famílias de Reféns e Desaparecidos.

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Os defensores do ataque israelense afirmam que foi uma retaliação pelo atentado realizado em Jerusalém no dia anterior, no cruzamento de Ramot, reivindicado pelo Hamas e que deixou seis vítimas.

Por mais condenável que o atentado de Ramot seja, é necessária muita boa vontade e ingenuidade para achar que um ataque de precisão contra Doha, uma das capitais com mais tráfego aéreo do mundo, realizado por aviões invisíveis ao radar, cruzando o espaço aéreo de outros dois países, seria organizado e executado em vinte e quatro horas. Seria mais honesto simplesmente ouvir as palavras de integrantes do gabinete israelense, de que os integrantes do Hamas serão “caçados”, mesmo que em Doha.

O ataque fracassou em seu objetivo e, nas palavras do primeiro-ministro do Catar, “matou a última esperança” para os reféns israelenses. Também recebeu condenação global, com praticamente todos os governos europeus e de potências classificando como uma agressão contra a soberania catari.

Até mesmo o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou o ataque, numa declaração elaborada pela França e pelo Reino Unido e aprovada por todos os quinze membros. Incluindo os Estados Unidos.

Não se trata de resolução vinculante, algo que o governo Trump certamente barraria, mas ainda há um peso simbólico do fato dos EUA não terem vetado a declaração, e o quanto os EUA sabiam do ataque ainda é tema de debate. Principalmente, entretanto, as reações mais fortes vieram dos países árabes do Golfo Pérsico. Mohammed bin Zayed, líder dos Emirados Árabes Unidos, visitou o Catar no dia seguinte ao ataque, com uma delegação incluindo seus principais ministros, em uma clara manifestação de solidariedade e de apoio.

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina uma série de acordos ao lado do Emir do Catar, o sheikh Tamin bin Hamad al Thani, em Doha Foto: Doug Mills/NYT

No dia quinze foi realizada uma cúpula emergencial conjunta da Liga Árabe e da Organização de Cooperação Islâmica. A cúpula foi marcada por declarações fortes e por um pedido generalizado por alguma forma de sanção ou boicote econômico a Israel. Ao mesmo tempo, essa cúpula precisa ser vista com um pouco de ceticismo no que concerne ações concretas, já que os Estados mais representativos, como Irã e Turquia, ainda possuem diferenças significativas em suas agendas de política externa.

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A reação mais forte ao ataque israelense deve vir no âmbito do Conselho de Cooperação do Golfo, fundado em 1981 e que reúne Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Omã, Arábia Saudita e Kuwait. O grupo passou a defender publicamente a ideia da criação de um tratado de defesa coletiva, uma “OTAN do Golfo”, em que um ataque contra um país seria visto como um ataque contra todos. Ou, no mínimo, que estabeleça algum mecanismo de defesa conjunta, como apoio mútuo.

Os emiradenses são chave nessa crise, como país de peso e com vultosos investimentos com os EUA e que reconhecem Israel. Os EAU dificilmente buscarão um rompimento com Israel, mas possuem meios de pressão, inclusive em Washington, para defender seus interesses. A imagem dos EUA também saiu manchada, já que do que adianta o Catar sediar a maior base militar dos EUA na região se ele for atacado pelo Irã e por Israel em alguns meses? A mentalidade agora é de que cabe aos ricos países árabes do Golfo serem os adultos na sala.

Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história