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Entenda o que há por trás dos subsídios europeus que incentivam mudanças de cidade

Governo da Irlanda se soma a outros ao anunciar programa para subsidiar reformas em casa na tentativa de atrair moradores para ilhas isoladas

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Por Redação
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IRLANDA- O governo da Irlanda anunciou em junho que irá pagar para as pessoas reformarem casas de ilhas mais distantes. Em outras cidades do continente europeu, anúncios como estes também são propagados. No primeiro momento, pode até parecer mentira ou uma via milagrosa para emigrar, mas o fato é: algumas cidades europeias estão tentando reverter o cenário de diminuição e envelhecimento da população, e o processo não é tão simples quanto propagado.

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O anúncio do governo irlandês explica que oferecerá de 60 mil a 84 mil euros (de R$ 300 mil a 440 mil, aproximadamente) para aqueles que quiserem se mudar para 30 ilhas mais distantes e que estão apresentando diminuição em seus índices populacionais.

A Irlanda não é o único país da Europa a oferecer subsídios do tipo. Cidades da Espanha, Grécia, Suécia e Itália já anunciaram programas parecidos. Esses subsídios são alternativas que os governos encontraram para tentar conter a diminuição da população dessas cidades, que se tornou uma tendência desde 2000. O abandono, principalmente de pessoas mais jovens, tem acontecido não apenas nas áreas mais rurais, mas também em grandes vilas e até cidades médias, de acordo com o apontamento de Serafin Pazos-Vidal, especialista em desenvolvimento rural da Associação Europeia de Desenvolvimento Local.

Ilhas da Irlanda começaram programa para atrair moradores Foto: Clodagh Kilcoyne/Reuters

As letras miúdas do contrato

Entretanto, o subsídio é oferecido apenas para reforma de casas, e não para a compra das residências. Além disso, é preciso que os imóveis estejam desocupados há pelo menos dois anos. O plano apresentado faz parte de uma tentativa de proporcionar crescimento sustentável de ilhas que são geograficamente isoladas, inclusive do continente. Algumas possuem apenas dois habitantes.

Muitos ao lerem anúncios como estes supõem que as cidades estão pagando para as pessoas se mudarem, mas o Departamento de Desenvolvimento Rural e Comunitário da Irlanda esclarece que não é essa a proposta do subsídio: “Questões como o fornecimento de moradia, educação e assistência médica, acesso à banda larga de alta velocidade e oportunidades de emprego são ampliadas nas ilhas offshore. Há também um desafio adicional de reter os jovens nas ilhas, pois o perfil da população está envelhecendo”.

O programa não é novidade. Ele foi lançado pela primeira vez no ano passado para revitalizar cidades e áreas rurais que tinham um expressivo número de prédios vagos. Segundo o departamento, o retorno foi positivo: mais de 500 pedidos foram aprovados até o primeiro semestre de 2023.

A confusão que pode ocorrer dos anúncios desses programas é a falsa ideia que são garantias ou políticas que auxiliem na imigração. Isso é uma característica não somente do subsídio oferecido para a Irlanda, mas de todos os outros, uma vez que a permanência de estrangeiros nos países é um assunto dos governos federais, e não municipais.

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E esse é um dos pontos que podem representar um obstáculo para estrangeiros que querem residir em tempo integral nas cidades ofertadas. Por mais que muitas cidades permitam que este grupo de pessoas compre imóveis, eles esbarram nas regras de imigração de cada local. Pode-se somar às dificuldades, que tornam estes programas menos fáceis do que o propagado, o desafio da reforma, especialmente por questões linguísticas, problemas de abastecimento e disponibilidade imediata de mão de obra.

Itália tenta atrair moradores diante de queda populacional e migração de jovens 

Tendência europeia

A cidade Mussomeli, na Sicília, é um exemplo que busca fomentar o seu desenvolvimento através de programas residenciais de 1 euro. O programa teve início em 2017 e já vendeu mais de 300 casas. O vice-prefeito Toti Nigrelli esclareceu que a cidade tinha 40.000 casas, mas apenas 10.000 habitantes.

A analista financeira Meredith Tabbone foi uma das pessoas que compraram casas em Sambuca, charmoso vilarejo na região sul da Sicília, que em 2019 leiloou casas abandonadas a partir de 1 euro. Tabbone foi beneficiada pela licitação e pagou 5.555 euros (cerca de US$ 6.355 na época) por uma casa.

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Uma única condição era imposta para a compra da casa: se comprometer em reformar. “Não fiz nenhuma pesquisa sobre nada disso”, disse o analista financeiro de 44 anos. “Achei que muitas pessoas dariam lances, já que estava nos principais meios de comunicação. Fiquei chocado quando ganhei a licitação.”

A falsa crença sobre estes programas pode estar ligado à propaganda enganosa destes incentivos na internet, que são retratados de forma exagerada e imprecisa, sobrecarregando as autoridades. Esse é o caso do governo de Kaitangata, cidade antiga no litoral da Nova Zelândia, que recebeu meio milhão de mensagens, ligações e e-mails de pessoas de todas as partes do mundo após anunciarem que estavam procurando novos habitantes para reverterem o cenário de grande oferta de emprego e falta de mão de obra. O volume gigante de contatos foi provocado pelo entendimento que o governo estava oferecendo permissão de trabalho ou residência. /W. Post

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