Trump vai ao Oriente Médio pensando em acordos comerciais, não em diplomacia

O presidente Donald Trump sempre viu a presidência como uma busca mundial por negócios. E não há lugar melhor para isso do que o Golfo, onde alguns homens exercem autoridade absoluta sobre uma vasta riqueza

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Por Jonathan Swan (The New York Times), Vivian Nereim (The New York Times), David E. Sanger (The New York Times) e Luke Broadwater (The New York Times)

Quando os presidentes americanos visitam o Oriente Médio, geralmente chegam com uma visão estratégica para a região, mesmo que ela pareça distante.

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Jimmy Carter levou Egito e Israel a um histórico acordo de paz. Bill Clinton tentou e fracassou com Yasser Arafat, o líder palestino. George W. Bush imaginou que sua guerra contra o terrorismo acabaria por levar à democratização da região. Barack Obama foi ao Cairo “para buscar um novo começo entre os Estados Unidos e os muçulmanos de todo o mundo”.

O presidente Donald Trump fará uma turnê pelo Golfo nesta semana em busca de uma coisa acima de tudo: acordos comerciais. Aviões. Energia nuclear. Investimentos em inteligência artificial. Armas. Qualquer coisa que coloque uma assinatura no final de uma página.

Imagem mostra bandeiras dos Estados Unidos e da Arábia Saudita hasteadas em Riad nesta segunda-feira, 12. O presidente dos EUA, Donald Trump, viaja para a capital esta semana em uma agenda pelo Oriente Médio que também inclui Catar e Emirados Árabes Unidos Foto: Giuseppe Cacace/AFP

Enquanto planejava a primeira grande viagem ao exterior de seu segundo mandato, uma passagem de quatro dias pela Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, Trump disse a seus assessores que queria anunciar acordos que valeriam mais de US$ 1 trilhão.

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Como um exercício de branding, isso faz todo o sentido. Cercado por membros da realeza ricos em recursos e executivos de empresas americanas, Trump, que gosta de se gabar de suas habilidades para fazer negócios, vai rabiscar com sua caneta hidrográfica as folhas de contratos, e muitas. Ele visitará palácios, andará em tapetes vermelhos e será tratado como um rei em uma região que é cada vez mais vital para os interesses financeiros da família Trump.

No entanto, como um exercício estratégico, o objetivo da viagem permanece nebuloso. Durante sua viagem de 2017 para a região, Trump causou impacto ao reunir dezenas de líderes de países de maioria muçulmana para confrontar e denunciar o extremismo. Não está claro quais objetivos de política externa, se houver algum, serão promovidos nessa visita.

Durante o governo Biden, as negociações sobre a venda de bilhões de dólares à Arábia Saudita em equipamentos nucleares civis - e a capacidade de enriquecer seu próprio urânio - estavam vinculadas a um objetivo diplomático: persuadir Riad a reconhecer Israel, previsto pelos americanos como uma extensão dos Acordos de Abraão, que Trump descreveu como a maior conquista diplomática de seu primeiro mandato.

Agora, os diálogos parecem estar avançando, lentamente, para apenas negócios.

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Os assessores de Trump insistem que ele ainda quer intermediar um acordo de normalização entre a Arábia Saudita e Israel. Mas com a guerra em Gaza ainda em andamento, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, não tem interesse em abraçar publicamente o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu. E o interesse atual de Trump em se vincular a Netanyahu não é muito maior do que o do príncipe herdeiro. Portanto, uma parada em Israel não foi incluída em seu itinerário.

Não haverá reunião em Riad entre Trump e o presidente Vladimir Putin, da Rússia, como Trump esperava. E a equipe de Trump tem sido cautelosa em relação ao status de sua diplomacia nuclear com o Irã, não querendo perturbar as negociações que vêm ocorrendo a portas fechadas em Omã, um país que Trump não visitará nessa viagem.

“Ir ao Oriente Médio neste momento tem mais a ver com economia, não com estratégia”, disse Dennis B. Ross, um negociador de paz de longa data do Oriente Médio, atualmente no Washington Institute for Near East Policy. “Ele claramente gosta desses tipos de viagens que têm anúncios de grandes negócios, porque essa é sua preocupação. Seu foco, sua prioridade, está muito mais voltado para o lado econômico e financeiro das coisas.”

Imagem mostra o presidente dos EUA, Donald Trump, durante coletiva de imprensa na Casa Branca no dia 10 de fevereiro. Trump faz esta semana a primeira viagem deste mandato ao Oriente Médio Foto: Alex Brandon/AP

Em vez de uma grande estratégia, haverá uma série de transações financeiras que Trump promoverá como geradoras de empregos para os trabalhadores americanos.

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A agenda está convenientemente alinhada com os planos de negócios em expansão de Trump. Sua família tem seis acordos pendentes com uma empresa imobiliária de propriedade majoritária saudita, um acordo de criptomoeda com uma afiliada do governo dos Emirados Árabes Unidos e um novo projeto de golfe e moradia de luxo apoiado pelo governo do Catar.

Os catarianos estão se esforçando ao máximo para cortejar Trump. O governo Trump está prestes a aceitar um luxuoso avião Boeing 747-8 como doação da família real do Catar, que será modernizado para servir como Air Force One, possivelmente o maior presente estrangeiro já recebido pelo governo dos EUA, segundo várias autoridades americanas com conhecimento do assunto.

O plano em discussão levanta questões éticas substanciais, especialmente considerando que Trump poderia usar o avião de US$ 400 milhões depois de deixar o cargo, recebendo-o como uma doação para sua biblioteca presidencial. (O secretário de imprensa da Casa Branca disse no domingo que qualquer acordo estaria em conformidade com a lei, e as autoridades do Catar disseram que o plano ainda estava sendo analisado).

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Catar administram trilhões de dólares em ativos em todo o mundo e têm se tornado cada vez mais forças diplomáticas e financeiras a serem consideradas. Mas suas políticas externas divergiram das dos Estados Unidos nos últimos anos. Os três países criaram laços estreitos com a China, a Rússia e o Irã, além dos Estados Unidos, que continuam sendo seus aliados indispensáveis na defesa e operam bases militares em seus territórios.

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Para o príncipe Mohammed, a decisão do presidente de fazer do reino um dos destinos de sua primeira grande viagem ao exterior - pela segunda vez - valida sua crença de que a Arábia Saudita é uma potência global em ascensão, com uma atração gravitacional que líderes poderosos não podem ignorar.

Ao visitar esses estados autoritários, Trump pode ter certeza de que não estará sujeito ao tipo de protestos e hostilidade que esperaria se visitasse alguns dos aliados dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte, como o Canadá ou a Alemanha, onde ele é profundamente impopular.

As famílias reais do Golfo sabem melhor do que ninguém como falar a língua de Trump.

Imagem de 2017 mostra o encontro do presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, e do príncipe Mohammed bin Salman, líder da Arábia Saudita Foto: Stephen Crowley/NYT

Ele ficou entusiasmado durante anos com sua recepção na Arábia Saudita em 2017, em sua primeira viagem ao exterior como presidente. Eles projetaram uma imagem de vários andares do rosto de Trump na fachada do hotel Ritz-Carlton de Riad, onde o príncipe Mohammed posteriormente prendeu oponentes. As bandeiras americanas foram colocadas nas estradas, o cantor country Toby Keith se apresentou para uma casa cheia de fãs sauditas e Trump participou de uma dança tradicional com espadas. Durante uma visita a um centro de combate ao extremismo, o presidente colocou as mãos em um globo brilhante ao lado do Rei Salman da Arábia Saudita e do Presidente Abdel Fattah el-Sisi do Egito.

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No entanto, Trump deixou o cargo em 2021 acreditando que o príncipe herdeiro estava em dívida com ele. Ele veio em defesa do príncipe Mohammed em um momento em que as elites ocidentais o estavam evitando após o assassinato do colunista do The Washington Post e dissidente saudita Jamal Khashoggi.

Embora o príncipe Mohammed tenha negado saber sobre o assassinato em 2018, a CIA avaliou que ele provavelmente aprovou a missão dos assassinos sauditas, e houve um clamor bipartidário em Washington.

Mas Trump, depois de declarar que seguiria as evidências e tomaria medidas contra os assassinos de Khashoggi, apoiou o príncipe Mohammed e assumiu o crédito por tê-lo resgatado.

“Eu salvei sua pele”, disse Trump ao jornalista Bob Woodward no início de 2020. “Consegui fazer com que o Congresso o deixasse em paz. Consegui fazer com que eles parassem”.

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O príncipe herdeiro retribuiu o favor. Nenhuma parte do mundo tem sido mais importante para o crescente bem-estar financeiro da família Trump do que o Oriente Médio, especialmente desde 2021, após o ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, depois do qual Trump e seus parentes foram tratados como párias por grande parte da comunidade corporativa dos Estados Unidos.

Foi nesse clima que Jared Kushner, genro de Trump e seu ex-conselheiro sênior da Casa Branca, criou seu próprio fundo de investimento. Seu maior financiador foi o príncipe Mohammed. Seis meses após a saída de Kushner da Casa Branca, o príncipe herdeiro passou por cima das preocupações de seus consultores de investimento e garantiu que o fundo soberano saudita investisse US$ 2 bilhões na empresa de Kushner, tornando os sauditas, de longe, seu maior investidor.

Na época, Trump tinha seus próprios problemas. Ele ficou furioso quando a liga de golfe profissional dos EUA, a PGA, votou retirar a disputa pelo título de campeão de seiu torneio do campo de golfe em Nova Jersey, após o motim no Capitólio. Isso foi muito mais do que um golpe financeiro; foi pessoalmente doloroso para Trump. O golfe é fundamental para a marca Trump, e não havia maior selo de aprovação do que sediar o evento P.G.A. Championship no Trump National em Bedminster, N.J.

Em 2021, o mesmo fundo soberano que havia investido US$ 2 bilhões com Kushner - o Fundo de Investimento Público - deu início ao LIV Golf. Os sauditas gastaram milhões para caçar os melhores jogadores de golfe da PGA, e o novo circuito representou uma ameaça significativa para o PGA Tour antes que os dois lados assinassem um acordo de parceria preliminar em 2023.

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O momento era perfeito para Trump e ele viu uma oportunidade de colocar seus campos de golfe de volta no mapa mundial. A LIV Golf realizou torneios nos campos de Trump por quatro anos consecutivos, elevando o perfil internacional dos resorts de golfe de Trump e gerando receita para seus hotéis e restaurantes.

A família Trump também assinou acordos com uma empresa imobiliária de propriedade majoritária saudita para construir projetos em Jeddah, em Dubai e em Muscat, Omã, entre outros locais.

Na terça-feira, quando está prevista a chegada de Trump, o governo saudita está planejando realizar um fórum de investimentos com o czar da criptografia da Casa Branca, David Sacks, e outros líderes empresariais americanos, incluindo os executivos-chefes da IBM, BlackRock, Citigroup, Palantir e Qualcomm, uma empresa de semicondutores.

O príncipe Mohammed se comprometeu a investir US$ 600 bilhões nos Estados Unidos nos próximos quatro anos - um número que os economistas dizem ser altamente improvável de se materializar, já que o reino enfrenta uma crise de caixa. Os emiratis prometeram US$ 1,4 trilhão em investimentos nos EUA ao longo de 10 anos.

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O Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan, governante dos Emirados Árabes Unidos, tem cada vez mais trilhado seu próprio caminho. Os vínculos cada vez maiores do país com rivais americanos, como a China, e com economias em expansão, como a Índia, são uma preparação para um mundo que, algum dia, poderá não ser mais dominado pelos Estados Unidos.

Mas os líderes do Golfo apreciam a natureza transacional de Trump. E com um bônus: o presidente americano, eles descobriram, não lhes dá sermões sobre direitos humanos.