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É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais. Escreve uma vez por semana.

Opinião|Democracia, mesmo sob ataque, teve importantes vitórias em 2022; leia coluna de Lourival Sant’Anna

Mesmo com crescente descrença quanto a sua vitalidade e eficácia como modelo de governança, a democracia teve saldo positivo este ano

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Atualização:

Depois de anos de ataques e de crescente descrença quanto a sua vitalidade e eficácia como modelo de governança, a democracia colecionou importantes vitórias em 2022.

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Os crimes cometidos a mando de Vladimir Putin na Ucrânia foram um trágico lembrete dos métodos dos ditadores. A inferioridade do autoritarismo como cultura de gestão ficou evidente no campo de batalha. A falta de clareza quanto aos objetivos e de coerência quanto aos métodos produz militares ineptos.

Putin imaginou que contaria com a mesma indiferença do Ocidente com que contara quando cometeu atrocidades na Chechênia, Geórgia, Síria e na própria Ucrânia. Seu menosprezo pelos ucranianos o fez subestimar a disposição deles de lutar pela liberdade e dignidade.

Putin fala com a imprensa após 300 dias do início da guerra na Ucrânia  Foto: Sputnik/Sergey Guneev/Pool via REUTERS

A Rússia encolhe econômica e geopoliticamente, privada de mil empresas que se retiraram do país, e que representavam 40% de sua economia, de mercados de energia, 30% do PIB, e de produtos tecnológicos.

Os problemas da China também são responsabilidade de um déspota, Xi Jinping. A ofensiva regulatória contra as empresas de tecnologia para não rivalizarem com o Partido Comunista e a política de Covid zero — para não importar vacinas ocidentais e para aprimorar o controle da população — golpearam a economia e a paciência dos chineses. Os protestos levaram ao brusco abandono dos controles e à explosão de casos e mortes — que o regime tenta esconder.

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Muitos candidatos apoiados por Donald Trump não foram eleitos em novembro, por fadiga em face da mentira sobre a fraude eleitoral. Comissão da Câmara que investigou a invasão do Capitólio entregou ao Departamento de Justiça 845 páginas de evidências e mais de mil depoimentos, com a denúncia de quatro crimes, incluindo insurreição, que podem levar a prisão e inelegibilidade de Trump.

A teocracia iraniana perdeu a pouca legitimidade que tentava aparentar, ao massacrar manifestantes que protestam contra a morte de Mahsa Amini e exigem a saída do “líder espiritual” Ali Khamenei.

Boris Johnson foi forçado a deixar o governo britânico, depois de atropelar as leis e instituições. Emmanuel Macron derrotou pela segunda vez Marine Le Pen. Giorgia Meloni, cujo partido, como o de Le Pen, também tem origem fascista, tornou-se líder de coalizão de extrema direita na Itália, mas depois de assumir posições moderadas. A Alemanha desbaratou um complô nazi-monarquista, que resultou em 25 prisões.

Giorgia Meloni fala com a imprensa após reunião com o presidente Mattarella  Foto: EFE/EPA/ANGELO CARCONI

A Colômbia e o Chile elegeram presidentes de extrema esquerda, Gustavo Petro e Gabriel Boric, respectivamente, mas que também adotaram posições moderadas. Suas eleições contribuem para diluir as tendências violentas da esquerda nos dois países. As Forças Armadas não apoiaram a tentativa de autogolpe de Pedro Castillo no Peru. Os intentos de Jair Bolsonaro de minar a credibilidade dos sistemas eleitoral e de Justiça não encontraram eco nas demais instituições.

Não é assim em todos os lugares. Andrés Manuel López Obrador segue solapando a democracia mexicana, atacando o Instituto Nacional Eleitoral e transferindo funções civis para militares. Capturada pelo ditador Reccep Tayyip Erdogan, a Justiça turca condenou à prisão e inelegibilidade o prefeito de Istambul, Ekrem İmamoğlu, principal adversário do presidente na disputa eleitoral do ano que vem.

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Binyamin Netanyahu formou o governo mais anti-palestino e anti-LGBT da história de Israel, e se prepara para subordinar a Justiça ao Parlamento, para se proteger de eventuais condenações por corrupção.

Mas o saldo mundial é muito positivo.

Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

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