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Na contramão das sanções, Lula amplia comércio com Rússia de Putin em aposta arriscada no Sul Global

Foco da política externa do governo Lula, eixo tem resistido ao apelo de Kiev e aliados para isolar Moscou, mas ideia de ‘não alinhamento’ exige equilíbrio cada vez mais difícil

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Foto do author Jéssica Petrovna
Por Jéssica Petrovna
Atualização:

Ao passo em que os Estados Unidos e a Europa lideram uma coalizão de boicote à Rússia pela invasão da Ucrânia, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou no último ano a cooperação econômica com a Rússia de Vladimir Putin,em meio à guerra.

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Pela primeira vez desde que a relação ascendeu ao status de parceria estratégica, há duas décadas, as trocas comerciais superaram a meta de US$10 bilhões, chegando US$ 11,3 bi ao longo de 2023. O movimento, segundo analistas, reflete a aposta do governo Lula no “Sul Global” — que é arriscada.

Esse “Sul Global”, foco da política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem resistido ao apelo de Kiev e aliados para isolar Moscou. Assim, surgiu como uma rota alternativa para Vladimir Putin driblar as sanções enquanto se beneficia com combustíveis mais baratos da Rússia.

O Brasil, por exemplo, se tornou o maior comprador de diesel russo, com 6 milhões de toneladas importadas em 2023. Isso representa um aumento de 6.000% em relação ao ano anterior e um total de US$ 4,5 bilhões. Em seguida vêm os fertilizantes, que correspondem à outra grande fatia do comércio com a Rússia e somaram US$ 3,9 bi no ano, segundo dados do monitor Trading Economics.

A razão para não endossar as punições é que o País, historicamente, se opõe às sanções unilaterais e só considera embargos validados pela ONU — o que não aconteceria neste caso porque a Rússia tem poder de vetar qualquer punição que pudesse sofrer.

“Tem um aspecto pragmático que é preponderante, de importar derivados de petróleo, especialmente o diesel, de um produtor relevante em condições favoráveis para estabilizar os preços domesticamente”, afirma o professor de Relações Internacionais da FGV Pedro Brites.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe ministro das Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov em Brasília, 22 de fevereiro de 2024.  Foto: Ricardo Stuckert/Presidência do Brasil

Mas também tem o aspecto político. “A condenação da Rússia pela guerra na Ucrânia é muito forte entre os países do Norte Global, mas que não se disseminou de forma tão efetiva na Ásia, na América Latina, na África e no Oriente Médio. Há uma divisão sobre como lidar com a Rússia. E no Brasil você tem o governo Lula tentando se aproximar desses países do Sul Global, que favorece politicamente a Rússia”, acrescenta Brites.

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Nas suas idas e vindas sobre o conflito, Lula foi criticado por equiparar as responsabilidades que Ucrânia (país invadido) e Rússia (país invasor) teriam pela guerra ao dizer que “quando um não quer, dois não brigam”.

O presidente também sugeriu que Putin poderia vir ao Brasil sem medo de ser detido, embora seja alvo de um mandado de prisão pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Para abrir caminho, o governo endossou a tese de imunidade de chefes de Estado para recebê-lo em novembro, na Cúpula do G-20. O líder russo, que tem evitado viagens, avalia o convite.

O petista tentou se apresentar como um mediador para o conflito, mas passou a impressão de alinhamento com Moscou para Kiev e seus aliados no Ocidente. Exemplo disso foi quando a Casa Branca acusou Lula de “papaguear a propaganda russa” ao dizer que os Estados Unidos e a Europa prolongavam a guerra — referência ao fornecimento de armas para as tropas ucranianas.

Mais recentemente, Lula disse que “não é obrigado a ter o mesmo nervosismo” que os europeus tem com guerra porque o Brasil está, geograficamente, longe do conflito. O petista deu a declaração ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron, que alarmou até mesmo os aliados da Otan ao afirmar e reafirmar a possibilidade de mandar tropas para Ucrânia.

Na contramão das sanções

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As posições de Lula e Macron ilustram a divergência entre o “Norte” e o “Sul Global”, traduzida também em números. Dependente da energia russa, a União Europeia comprava principalmente gás natural, petróleo e fertilizantes. As importações atingiram o pico no mês seguinte à invasão, quando somaram 22,2 bilhões de euros. A partir de então, despencaram: somavam 10,2 bilhões de euros em dezembro de 2022 e menos de 4 bilhões no fim do ano passado.

“A União Europeia deixou de ser um parceiro comercial importante para a Rússia”, constatou o chefe da missão russa na UE Kirill Logvinov em entrevista recente à agência estatal RIA. “Bruxelas tomou o caminho da guerra económica, introduzindo sanções intermináveis contra o nosso país”, reclamou.

Na mesma linha, os Estados Unidos também fecharam o cerco contra economia russa. Só na última leva, nos dois anos de guerra, as sanções atingiram 500 empresas e indivíduos, que abasteciam a produção industrial e militar de Moscou.

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“Com as sanções, a Rússia tem um número limitado de países com os quais pode fazer negócio. Isso faz com que a Rússia se empenhe mais em ampliar os negócios e acaba favorecendo a relação comercial com os países que estão abertos. O Brasil se favoreceu disso”, afirma o analista Daniel Buarque.

Apesar dos esforço liderado pelos EUA e seus aliados na Otan, a economia russa se recuperou rapidamente da contração registrada em 2022, o ano da invasão, e cresceu 3,6% em 2023. Para este ano, o Fundo Monetário Internacional prevê que o crescimento russo será de 3,2%, superando as previsões para países do G-7, como Estados Unidos (2,7%), Reino Unido (0,5%), Alemanha (0,2%) e França (0,7%).

As sanções tem limitado o acesso da Rússia à tecnologia, aponta o FMI, o que vai tornando a sua economia menos competitiva. Mas o aumento dos gastos do Kremlin, que investe pesado em sua máquina de guerra, e a capacidade de manter as exportações, sobretudo para China e Índia, impulsionam o crescimento verificado até aqui.

“Uma das coisas que a Otan, sob a liderança dos EUA mais esperava, era o isolamento da Rússia e isso não se verificou. A Rússia não teve a queda no PIB que se esperava, que poderia acelerar a saída da Ucrânia, justamente por causa dessa articulação com outros países”, aponta Pedro Brites. “A Rússia conseguiu, apesar de toda interdependência econômica que tinha com a Europa, reorientar as exportações, tanto aumentando o fluxo com parceiros tradicionais como por meio de novos parceiros, ampliando a ofensiva diplomática”, acrescenta.

Exemplo dessa ofensiva diplomática são as visitas que o experiente Sergei Lavrov, há duas décadas o nome do Kremlin para Relações Exteriores, tem feito pela América Latina com paradas no Brasil.

Na mais recente delas, para reunião do G-20 em fevereiro, Lula disse ao chanceler que participará da Cúpula do Brics em Kazan, na Rússia — o que depois foi classificado pelo presidente ucraniano Volodmir Zelenski como um erro. “Temos que isolar Putin politicamente”, declarou ao ser questionado sobre o eventual encontro entre os presidentes do Brasil e da Rússia.

Disputa por influência sobre América Latina

De modo geral, os latino-americanos condenaram a invasão da Ucrânia e votaram contra a Rússia nas Nações Unidas, mas não fecharam totalmente as portas para Moscou, como pede Kiev. E é justamente essa ideia de neutralidade ou de não alinhamento que a Rússia busca manter enquanto tenta aumentar a sua influência na América Latina, segundo analistas.

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Sem presença uma presença econômica robusta, como tem Pequim, o caminho de Moscou para avançar na região pode ser a energia, aponta o analista Ivan Klyszcz, em artigo para o Programa de Novas Abordagens em Pesquisa e Segurança na Eurásia (Ponars), rede de pesquisadores ligada à Universidade George Washington.

Exemplo disse seriam o aumento das exportações de diesel para o Brasil e o reforço da cooperação com os antigos aliados Cuba e Venezuela, além de contratos de companhias russas para explorar petróleo no México e a construção de um complexo nuclear na Bolívia, destaca o Klyszcz, que pesquisa as relações da Rússia com o “Sul Global”.

No caso brasileiro, o analista Daniel Buarque pondera que a diplomacia, o Itamaraty, historicamente tem um posição crítica em relação às sanções, embora a política externa possa ser mais volátil.

Do outro lado, o ex-presidente Jair Bolsonaro também evitou criticar a Rússia pela invasão da Ucrânia. Ao visitar Moscou às vésperas do ataque, ainda no governo, Bolsonaro chegou a dizer que era “solidário” à Rússia e repetir argumentos que Moscou usava enquanto posicionava as tropas para o que viria a ser a invasão da Ucrânia. Dias depois, com a guerra em curso, ele afirmou que o Brasil seria neutro. Na época, a preocupação era a dependência dos fertilizantes.

Daniel Buarque considera que o Brasil tem conseguido manter certa equidistância que beneficia o País no momento em que os Estados Unidos e seus aliados boicotam a economia da Rússia, como no caso do diesel. “A política externa brasileira tem seguido uma linha tradicional. Os comentários de Lula fogem disso, mas os comentários de Lula não refletem necessariamente o que está sendo feito”, opina.

‘Sul Global’, uma aposta de risco

No caso do petista, há uma clara tentativa de liderar o chamado “Sul Global”, o que reflete as apostas que Lula fez em política externa nos seus primeiros mandatos. A questão é se num mundo tão belicoso e polarizado, muito diferente do de vinte anos atrás, existe espaço para essa ideia de multipolaridade.

“Essa tem sido a grande prioridade do Brasil desde que Lula chegou ao poder. O governo tem uma crença muito grande na multipolaridade, na ideia de que haveria espaço para outras nações ampliarem o status internacional. E ele aposta que vai conseguir fazer isso por meio da liderança do Sul Global”, contextualiza Buarque, destacando que esse “Sul Global” tem buscado posicionamento mais independente dos EUA.

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Mas essa aposta na multipolaridade é arriscada. “No passado isso deu certo, ajudou a ampliar a voz em fóruns internacionais, ampliar o comércios exterior, mas era um momento em que o mundo estava favorecendo a ideia de multipolaridade”, afirma.

Agora, o mundo parece estar muito mais próximo de uma polarização entre EUA e seus aliados versus a China, que tem uma declarada “parceria sem limites” com a Rússia que da abertura para eventuais potências emergentes. “O Brasil está apostando num mundo que não parece ser o que está se desenhando. Esse é maior risco. A aposta na multipolaridade é muito arriscada por não há nenhuma evidência de que vá haver espaço para novas potências”, conclui Buarque.

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