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Negócios com a China são enganosos e EUA ainda têm muito a oferecer ao Brasil, diz enviado de Biden

Em entrevista exclusiva ao ‘Estadão’, secretário do Departamento de Estado afirma que a Casa Branca está disposta a mudar política de sanções à Venezuela se regime de Nicolás Maduro normalizar eleições; embaixador reafirma necessidade de Lula ouvir a Ucrânia em sondagens para acordo de paz

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Por Felipe Frazão
Atualização:


Foto: WILTON JUNIOR
Entrevista comBrian A. NicholsSecretário Adjunto de Estado para as Américas do governo dos EUA

BRASÍLIA - Despachado ao Brasil nesta semana pelo governo Joe Biden, o embaixador Brian A. Nichols, secretário-adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental, afirma que os negócios de infraestrutura fechados pela China ao redor do mundo e sobretudo na América Latina são “enganosos”. Em entrevista exclusiva ao Estadão, Nichols disse que os projetos oferecidos por Pequim ao Brasil, uma forma de favorecer sua economia e influenciar a geopolítica, não trazem benefícios de longo prazo aos países parceiros e muitas vezes envolvem corrupção.

Nichols é o segundo enviado da cúpula da diplomacia norte-americana a Brasília desde o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de uma viagem de Estado à China, na qual o petista relançou a parceria estratégica com o governo Xi Jinping. A China desafia a liderança global dos Estados Unidos e desde 2009 é o principal parceiro comercial do Brasil. Antigo detentor da posição, os EUA ainda veem uma aproximação cada vez maior nos investimentos: o estoque vindo dos norte-americanos é de U$ 191 bilhões, enquanto os chineses já alcançaram U$ 70 bilhões.

Na conversa com a reportagem, Nichols indicou que o governo Joe Biden está disposto a rever mais das sanções econômicas aplicadas à Venezuela, como começou a ocorrer no ano passado, nos primeiros passos de reaproximação entre Washington e Caracas. Para isso, a condição é que o regime chavista de Nicolás Maduro retome o diálogo com opositores e promova eleições livres em 2024. Estamos mais do que dispostos a modificar nossas políticas em resposta ao progresso concreto em direção a uma eleição livre e justa”, afirmou o secretário.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista realizada na embaixada dos Estados Unidos em Brasília:

Brian A. Nichols, secretário adjunto para Américas, afirmou em entrevista ao Estadão que os negócios com a China são enganosos e não beneficiam os países no longo prazo Foto: Wilton Júnior/Estadão


China, Rússia, EUA e União Europeia disputam influência sobre os países emergentes. Recentemente Lula viajou à China, eles ofereceram a Nova Rota da Seda, investimentos em infraestrutura. Como os EUA vão reagir à influência chinesa na América Latina, o que têm a oferecer ao Brasil?

Os países são livres para tomar suas próprias decisões e respeitamos profundamente a soberania do Brasil e sua capacidade de decidir com quem negociar. Queremos que os países possam tomar essa decisão com os olhos abertos e com alternativas reais.

Os acordos de infraestrutura que os países fizeram com a China muitas vezes se mostraram enganosos, nos termos financeiros que os países obtêm. A qualidade dos projetos construídos tem sido abaixo do padrão em muitos casos. Enquanto os custos reais não foram revelados, os custos foram inflados e, muitas vezes, nesses projetos, muito francamente, vimos corrupção ao redor deles.

Após cinco anos, os projetos de investimento da China não trazem nenhum benefício para o PIB dos países. Portanto, eles geralmente fornecem um aumento de curto prazo, mas - isso foi medido academicamente - após cinco anos, não há nenhum benefício. Precisamos que os países entendam exatamente o que estão ganhando quando fazem esses negócios.

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Estou incrivelmente otimista de que os Estados Unidos e o Brasil tenham um grande futuro econômico juntos que promoverão bons empregos, alto crescimento e uma economia limpa para o futuro.

Brian Nichols, secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental

Precisamos oferecer soluções de implantação rápida, realistas e acessíveis para os desafios que os países enfrentam. Quando viajo e converso com líderes estrangeiros eles costumam dizer que não querem procurar a China, mas precisam de opções. Estamos trabalhando para garantir que os Estados Unidos estão dando aos países opções de como atender às suas necessidades.

O setor privado dos Estados Unidos no Brasil representa 1/3 do valor do setor privado neste País e nossas empresas estão ansiosas para continuar em parceria com o Brasil, para construir uma economia forte, investir e ajudar o Brasil a desenvolver uma economia de geração de empregos e integrar melhor à economia global, sendo um grande parceiro nas Américas. Estou incrivelmente otimista de que os Estados Unidos e o Brasil tenham um grande futuro econômico juntos que promoverão bons empregos, alto crescimento e uma economia limpa para o futuro.

Devo observar que ainda assim autoridades do governo brasileiro declaram preferência pela parceria com a China para a reindustrialização do País. Isso foi dito na viagem de Lula a Pequim.

O Brasil tem tantos especialistas, engenheiros, arquitetos e economistas talentosos. As instituições brasileiras saberão avaliar essas ofertas e decidir se vão ser ou não benéficas a esta nação.

No ano passado, os EUA enviaram delegações a Caracas e afrouxaram sanções ao regime de Nicolás Maduro. Quais novas evoluções nessa relação entre os países o senhor pode compartilhar? O senhor acredita em eleições livres na Venezuela no ano que vem?

O tempo está ficando curto para se preparar para uma eleição na Venezuela. Precisamos nos mover rapidamente e coletivamente. O processo de preparação para isso é um retorno à plataforma de negociação da Cidade do México, para que a oposição e o regime de Maduro conversem entre si sobre o caminho a seguir. Estamos mais do que dispostos a modificar nossas políticas em resposta ao progresso concreto em direção a uma eleição livre e justa, e a reconhecer o vencedor de uma eleição declarada livre e justa.

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Queremos uma Venezuela onde o povo venezuelano se beneficie das mesmas liberdades democráticas que as pessoas de todo o nosso hemisfério desfrutam. Isso significa implementar uma série de reformas que a comunidade internacional já pediu. O relatório da missão de observação eleitoral da União Europeia sugere que a Venezuela se comprometa com 23 reformas diferentes para poder ter uma eleição livre e justa.

Estamos muito preocupados com o bem-estar dos povo venezuelano e isso significa garantir que eles tenham oportunidades econômicas, que tenham acesso a cuidados de saúde e benefícios sociais, que a situação humanitária catastrófica da Venezuela, que está levando a um fluxo sem precedentes de migrantes por todo o nosso Hemisfério. Obrigado ao Brasil por acolher tantos venezuelanos, haitianos e afegãos, por seu trabalho generoso ao abrir suas portas.

Estamos mais do que dispostos a modificar nossas políticas em resposta ao progresso concreto em direção a uma eleição livre e justa, e a reconhecer o vencedor de uma eleição declarada livre e justa.

Brian Nichols, secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental

O embaixador Nichols afirma que há disposição do governo Joe Biden em rever a política de sanções à Venezuela, mas cobra avanços em direção a eleições no ano que vem Foto: Wilton Junior/Estadão

O Brasil diz estar pronto a cooperar no Haiti, mas rejeitou participar uma vez mais de uma nova operação militar no país. Ainda é possível convencer o governo Lula do contrário?

O Brasil obviamente tem uma tremenda história de apoio ao povo haitiano e continua a fornecer assistência humanitária ao Haiti. Nós valorizamos profundamente, respeitamos nossa cooperação em apoio ao povo haitiano e vamos continuar esse esforço juntos.

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O presidente Lula não se encontrou com Zelenski no G-7 no fim de semana. Eles nem sequer se cumprimentaram. O Brasil fez todo o esforço possível para que o diálogo entre os líderes ocorresse no Japão? Como o Brasil saiu na foto, quando se fala da guerra?

A decisão de convidar Lula para participar da cúpula do G-7 foi um reconhecimento à liderança global do Brasil e ao papel pessoal dele. O Brasil é no momento um membro-eleito do Conselho de Segurança das Nações Unidas - e os Estados Unidos apoiam a expansão do Conselho -, há o envolvimento de Lula para liderar o G-20. O Brasil está num momento muito importante na arena internacional. Falar sobre o conflito na Ucrânia está no topo da agenda do G-7 e da comunidade internacional.

A primeira e mais importante forma de chegar à paz é que a Rússia retire suas forças da Ucrânia e respeite a soberania e as fronteiras.

Brian Nichols, secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental

A invasão não provocada da Rússia à Ucrânia, um país vizinho pacífico com o qual assinou um tratado prometendo respeitar a soberania territorial quando as armas nucleares foram retiradas, no fim da União Soviética, chocou a comunidade internacional. Nós vemos nas manchetes hoje a incrível devastação que os russos provocaram em Bakenmut. Precisamos recordar: esse conflito ocorre inteiramente dentro das fronteiras ucranianas. Não é um conflito na Rússia, mas dentro da Ucrânia. O primeiro passo para encerrar a guerra é que a Rússia se retire da Ucrânia.

Não podemos esperar que o povo ucraniano concorde com nada sem consultá-los. Conversar com a Ucrânia sobre as formas de encerrar a guerra é vital. O presidente Zelenski tem sido muito convincente ao explicar os desafios e ameaças que enfrenta. Nós encorajamos os esforços pela paz, mas a primeira e mais importante forma de chegar à paz é que a Rússia retire suas forças da Ucrânia e respeite a soberania e as fronteiras.

Gostaria de ser mais específico. Lula disse que tentou atender um pedido de reunião da Ucrânia, mas que Zelenski não apareceu. Ele agora insiste que não irá a Kiev porque nenhum dos lados deseja falar sobre a paz no momento. Ele está certo?

Eu não marco as reuniões de Lula e de Zelenski, mas posso dizer que aqueles que desejam entender o conflito e chegar a uma solução para a guerra, é importante conversar com as partes. Não estava em Hiroshima, eu estava deste lado da Terra, não sei o que ocorreu.

O presidente Lula criticou o discurso de Biden no G-7, exigindo que a Rússia abandone a Ucrânia. Lula afirma que isso não ajuda no momento. Lula já havia dito que os Estados Unidos incentivam a continuidade da guerra, ao apoiar a contra ofensiva ucraniana. O Brasil pede um cessar-fogo. Essa é a melhor forma de chegar a um acordo de paz?

A solução pode ser alcançada quando a Rússia remover suas tropas do território ucraniano. Será o fim, a guerra acabará. O presidente Biden reitera os fatos: um país invadiu o outro sem ser provocado e continua a lutar dentro desse outro país. Nas Américas nós respeitamos as fronteiras internacionais. Nenhum país invade o outro. Esses valores estão profundamente enraizados através das Américas, no Caribe, na América do Sul, na América do Norte. Não resolvermos nossas diferenças invadindo o outro. O povo da Ucrânia merece ter o mesmo direito e benefício.

Por que os EUA decidiram autorizar as forças ucranianos a serem treinadas e usar os caças F-16 agora? É possível garantir que os caças serão usados somente na defesa do território da Ucrânia, prevenindo que sejam enviados além da fronteira russa?

A decisão de conceder qualquer sistema de armas à Ucrânia é baseada em avaliações militares de segurança nacional sobre os pedidos deles e no esforço da comunidade internacional para permitir que a Ucrânia exerça seu direito de autodefesa. Um ano depois após o conflito, reconhecemos que o enfrentamento continua e que a sobrevivência e a soberania da Ucrânia dependem de dar-lhes as ferramentas que precisam para se defender dessa agressão não provocada. É o que estamos fazendo. As autoridades ucranianas form muito contidas, no uso dos outros sistemas que receberam, em seus esforços para expulsar invasores de seu território, sem ir além do que é necessário para tentar fazê-los recuar.

A comunidade internacional deve falar de forma muito clara à única parte da guerra que possui armas nucleares que rejeitaria essa escalada horrível e que exige que a guerra acabe

Brian Nichols, secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental

Existe risco real de uma escalada na guerra, de uso de armas nucleares?

Temos que ser muito atenciosos em tentar conter esse conflito. A comunidade internacional deve falar de forma muito clara à única parte da guerra que possui armas nucleares que rejeitaria essa escalada horrível e que exige que a guerra acabe. E, de novo, somente o agressor possui armas nucleares.

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EUA vão ajudar países a combater atividades clandestinas em toda a região da Amazônia, segundo Brian Nichols Foto: Wilton Junior/Estadão

Estamos assistindo nos últimos dias a uma disputa interna no governo brasileiro. A Petrobras deseja explorar reservas de petróleo na foz do Rio Amazonas, e o órgão ambiental, o Ibama, negou autorização. O Congresso, com aval de membros do ministério de Lula, ameaça mudar atribuições dos ministérios dos Povos Indígenas e do Meio Ambiente. O Brasil não está indo contra os esforços climáticos mundiais para eliminar esse tipo de energia e com essa disputa interna?

Um dos grandes benefícios do Brasil é ser um país com instituições fortes, com compromisso demonstrado em enfrentar os desafios da mudança climática. Eu respeito profundamente esse compromisso. A transição para fontes de energia renováveis - e o Brasil é um líder em energia verde, energia limpa - é vital, mas eu não ousaria dizer ao Brasil como lidar com essa questão em particular. Infelizmente, não temos a capacidade de fazer a transição imediata para um mundo e economia completamente livres dos hidrocarbonetos. Temos que administrar essa transição da forma mais rápida possível, da forma mais agressiva e criativa.

Os esforços do presidente Biden sob a lei de redução da inflação estão gerando uma transformação profunda e rápida, com uso de fontes de energia renováveis, desenvolvimento de novas tecnologias, veículos mais eficientes, veículos elétricos, livres de emissões. Esperamos poder fazer parceria com países ao redor do mundo para ajudar a replicar esse progresso, e o Brasil obviamente é um líder na questão da mudança climática, queremos trabalhar de perto com o Brasil.

Centenas de empresas americanas no Brasil estão trabalhando em diferentes elementos desses desafios da transição para uma economia mais verde, e a parceria entre nossos setores privados e nossos governos e nossa sociedade civil, a promessa de US$ 500 milhões do presidente para o Fundo Amazônia. Essas são todas as formas pelas quais estamos apoiando esses esforços no Brasil e no mundo.

Estamos fazendo tudo o que podemos para ajudar a promover oportunidades alternativas limpas de desenvolvimento que não degradem a Amazônia

Brian Nichols, secretário-adjunto de Estado para o Hemisfério Ocidental

A promessa de 500 milhões de dólares é muito menor do que os U$ 20 bilhões que Biden prometeu na campanha eleitoral. Devemos esperar novos aportes? A mudança de atribuições dos ministérios, se ocorrer, pode afetar o efetivo pagamento ao Fundo Amazônia?

Na Cúpula das Américas no ano passado, falamos de um compromisso de U$ 50 bilhões de dólares em financiamento climático para os bancos multilaterais de desenvolvimento, ao longo de cinco anos. Estamos trabalhando, por meio de programas de cooperação para aplicação da lei, contra a extração ilegal de madeira e a mineração ilegal de outro na Amazônia, não apenas no Brasil, mas em todos os países da região amazônica.

Estamos fazendo tudo o que podemos para ajudar a promover oportunidades alternativas limpas de desenvolvimento que não degradem a Amazônia, seja a floresta ou os rios que compõem a bacia amazônica, por meio da agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Nossos especialistas agrícolas compartilham as melhores práticas de agricultura, que serão menos prejudiciais ao meio ambiente, a Administração Nacional Oceanográfica e Atmosférica (NOAA) e a NASA fornecem dados importantes sobre desmatamento e mudanças climáticas.

O presidente Biden está comprometido em defender os recursos de que precisamos para fazer nossa parte. O projeto da lei de redução da inflação (Inflation Reduction Act, em inglês) no Congresso dos EUA foi o maior investimento de um único país em energia limpa e combate às mudanças climáticas na história do mundo. Esse é o tipo de compromisso que esta administração tem. Biden continuará a pressionar.

Não se trata apenas do governo dos EUA e da sociedade civil. É a Academia, o setor privado, o Banco Multilateral de Desenvolvimento. Estamos todos trabalhando juntos para fornecer soluções e estou muito otimista de que seremos capazes de fazer isso.

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