Netanyahu desperdiça oportunidade de pôr fim à guerra na Faixa de Gaza

Líder israelense pressiona por acordo de ‘tudo ou nada’ com Hamas, sem ter feito concessões necessárias para isso

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Por Patrick Kingsley (The New York Times)

Em Israel, ataque do Hamas ainda é uma ferida aberta; Estadão visitou o país

Protestos em Tel-Aviv, memoriais na fronteira com Gaza: atentado de 7 de outubro ainda deixa marcas na sociedade israelense.

Quando Binyamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, conduziu o país a uma vitória militar sobre o Irã em junho, tanto seus aliados quanto seus rivais descreveram isso como sua maior conquista. Repleto de nova confiança e autoridade, Netanyahu parecia finalmente ter conquistado o capital político necessário para superar a oposição de seus aliados de extrema direita no governo e chegar a uma trégua na Faixa de Gaza.

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Seis semanas depois, o primeiro-ministro já desperdiçou esse momento. As negociações entre o grupo terrorista Hamas e Israel estão, mais uma vez, travadas. Israel agora pressiona por um acordo que encerre a guerra de uma só vez, em vez de em fases.

A medida leva as negociações de volta ao ponto em que estavam há 19 meses, quando mediadores tentaram pela última vez alcançar um acordo abrangente —e há a mesma probabilidade de fracasso de antes.

Palestinos trazem de volta pacotes de ajuda que conseguiram pegar enquanto voltam de Beit Lahia, em 29 de julho de 2025, depois que caminhões de ajuda entraram na Faixa de Gaza  Foto: Omar Al-Qattaa/AFP

Agora, como na época, tanto o Hamas quanto Netanyahu se recusam a fazer as concessões necessárias para que um acordo abrangente funcione.

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“Enquanto este for o governo —e assumindo que ele não mude fundamentalmente de rumo— não haverá acordo abrangente, e os reféns não retornarão”, escreveu Oren Setter, ex-integrante da equipe de negociação de Israel, em uma coluna publicada na segunda-feira no jornal israelense Yediot Ahronot. “A oposição precisa entender isso, o público precisa entender isso, e a mídia precisa entender isso”, acrescentou Setter.

Em resumo, a boa vontade que Netanyahu acumulou após a guerra contra o Irã em junho evaporou, tanto no cenário doméstico quanto internacional.

A condenação internacional à crescente fome em Gaza —que agências humanitárias e muitos governos estrangeiros atribuíram em grande parte ao bloqueio israelense de 11 semanas sobre o território, entre março e maio— está em seu ponto máximo. Em parte como protesto pela responsabilidade de Israel nessa situação, vários dos aliados históricos do país reconheceram um Estado palestino, ou prometeram fazê-lo em breve.

Nos Estados Unidos, a maioria dos senadores democratas votou na semana passada para bloquear algumas vendas de armas a Israel. Uma parlamentar republicana, Marjorie Taylor Greene, acusou Israel de genocídio —acusação que o país nega veementemente.

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A oposição interna à guerra em Gaza está em seu ponto mais alto, e crescem os apelos para que os reféns restantes em poder do Hamas sejam libertados por meio de um acordo diplomático. A capacidade de Israel de sustentar a guerra, em meio ao crescente cansaço entre seus reservistas militares, está sendo cada vez mais questionada. Após o aumento no número de suicídios entre soldados da reserva, o Exército criou um comitê para investigar como apoiar melhor aqueles que deixam o serviço.

O presidente Donald Trump fala com o premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, em um jantar com funcionários do governo de Israel e dos EUA na Casa Branca, em Washington, em 7 de julho de 2025  Foto: Haiyun Jiang/The New York Times

A prolongação do conflito em Gaza também reflete o fracasso do presidente Donald Trump em aproveitar o poder de barganha que obteve durante a guerra contra o Irã. Ao se juntar aos ataques de Netanyahu, Trump concedeu a Israel uma vitória simbólica. Na época, analistas esperavam que ele exigisse que Netanyahu retribuísse o favor encerrando a guerra em Gaza.

“Ele tinha todo o poder do mundo para dizer a Netanyahu: ‘Agora precisamos acabar com isso’”, disse Daniel Shapiro, pesquisador do Atlantic Council, um grupo de pesquisa com sede em Washington, e ex-embaixador dos EUA em Israel.

“Em vez disso, Netanyahu parece ter convencido Trump a lhe dar mais tempo”, disse Shapiro. “Agora, as coisas estão apenas se arrastando.”

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Dentro de Gaza, o resultado do atraso tem sido catastrófico. Apesar da decisão repentina de Israel de permitir a entrada de mais alimentos na semana passada, palestinos continuam morrendo diariamente de fome, segundo as autoridades de saúde do território.

Soldados israelenses continuam atirando e matando civis que tentam acessar um novo e profundamente problemático sistema de distribuição de alimentos, que força as pessoas a cruzarem linhas militares israelenses para alcançar os pontos de entrega. Desesperadas por comida, grandes multidões de civis continuam bloqueando e saqueando comboios de ajuda.

Imprensa israelense identificou o refém como Evyatar David, de 24 anos, sequestrado em 7 de outubro de 2023 Foto: AFP/Reprodução de vídeo do Hamas

Dentro de Israel, o atraso aumentou o descontentamento entre os críticos do governo. Se Netanyahu parecia decidido e ousado com seus ataques ao Irã em junho, agora ele volta a ser visto como indeciso e submisso às opiniões de seus parceiros de coalizão de extrema direita.

Um número crescente de israelenses —preocupados com os reféns em poder do Hamas, com a catástrofe humanitária em Gaza ou com ambos— pede o fim da guerra. Na segunda-feira, um grupo de ex-chefes de segurança, incluindo dois ex-chefes do Estado-Maior do Exército, três ex-diretores da agência de inteligência interna Shin Bet e três ex-diretores do Mossad, a agência de inteligência externa de Israel, lançou um vídeo que terminava com a legenda: “Fim da guerra!”

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Os generais disseram que a guerra, iniciada pelo ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, começou como uma guerra justa, mas desde então tornou-se interminável e sem propósito.

“Foi uma guerra defensiva”, disse Ami Ayalon, ex-chefe do Shin Bet, no vídeo. “Mas assim que alcançamos todos os seus objetivos militares, assim que obtivemos uma grande vitória militar contra todos os nossos inimigos, essa guerra deixou de ser justa”, acrescentou Ayalon. “Isso está levando o Estado de Israel à perda de sua segurança e de sua identidade.”

Netanyahu afirma que os objetivos da guerra ainda não foram alcançados —que a batalha deve continuar até que o Hamas seja destruído e os 20 reféns ainda vivos em Gaza sejam libertados. O Hamas e seus aliados divulgaram vídeos nos últimos dias mostrando dois desses reféns, visivelmente famintos e esqueléticos.

“Não vamos nos quebrar”, disse Netanyahu em um comunicado no domingo, após a circulação das imagens. “Estou tomado de uma determinação ainda mais forte para libertar nossos filhos sequestrados, eliminar o Hamas e garantir que Gaza não represente mais uma ameaça ao Estado de Israel.”

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Ainda assim, os críticos do governo afirmam que o Hamas já está dizimado, seus líderes em sua maioria mortos e seu arsenal severamente reduzido. Eles temem que a continuidade da guerra em Gaza cause pouco dano real ao Hamas, mas coloque em risco os reféns ainda detidos no território e agrave ainda mais a reputação já abalada de Israel.

Análise por Patrick Kingsley