O banquete de um rei: Charles III recebeu jantar luxuoso durante a viagem da França; veja o menu

Jantar oferecido por Macron no Palácio de Versalhes foi carregado de simbolismos para a França e o Reino Unido; países buscam reaproximação após Brexit

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Foto do author Luiz Henrique Gomes
Por Luiz Henrique Gomes
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De entrada, um prato de lagostas azuis da Bretanha preparado pela chef Anne-Sophie Pic. De prato principal, Chapon de Bresse au parfum de maïs, gratin de cèpes. Depois, queijos refinados, aliás, refinadíssimos, e macaron recheado de creme perfumado à pétala de rosas acompanhado de framboesas e lichias para a sobremesa. Assim o presidente da França, Emmanuel Macron, recepcionou o rei Charles III em um jantar. Sem direito à ironia: com o menu digno de um rei.

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A recepção aconteceu na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versalhes no último dia 20. Além do rei e do presidente francês, estavam a rainha Camilla, a primeira-dama da França, Brigitte Macron, e uma centena de convidados. De Mick Jagger, líder dos Rolling Stones, ao ator Hugh Grant, do ex-treinador francês Arsène Wenger ao ex-jogador Didier Drogba, os presentes se sentaram ao redor de uma mesa de 62 metros em uma noite carregada de simbolismos para a França e o Reino Unido pós-Brexit.

A começar pela entrada. A lagosta foi inspirada em um dos pratos prediletos do rei Luís XIV, que reinou a França entre 1643 e 1715 e construiu a Galeria dos Espelhos, onde o jantar foi servido.

Imagem mostra rei Charles III (à esq.) e o presidente da França, Emmanuel Macron (à dir.), antes do jantar real do dia 20, servido no Palácio de Versalhes. Jantar esteve permeado de simbolismos das relações bilaterais Foto: Benoit Tessier/via AP

A chef responsável pelo prato é Anne-Sophie Pic, única chefe francesa com três estrelas num dos principais guias de restaurantes do país, o Guia Michelin, publicado pela primeira vez no ano de 1900.

O principal ficou a cargo do chef Yannick Alléno, que comanda os restaurantes Pavillon Ledoyen e L’Abysse, localizados nos jardins do lado leste da Champs-Élysées, e o Le 1947, em Courchevel, nos Alpes franceses.

O prato é feito com um frango criado durante sete meses ao ar livre, que se alimenta de cereais produzidos na região de Bresse, sem trigo, milho ou antibióticos, e de alimentos encontrados naturalmente nos campos. Tão específicos que somente 30 criadores são autorizados a criar os galináceos em toda a França.

E então, os vinhos da noite: champanhe Pol Roger cuvée Winston Churchill 2013, vinho branco do Domaine Olivier Bâtard Montrachet grand cru 2018 e Château Mouton Rothschild 2004.

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O último possui o rótulo decorado com uma pintura em aquarela que retrata uma paisagem francesa. Abaixo, há uma inscrição e uma assinatura do pintor: “Charles, 2004″. Sim, estamos falando do próprio rei Charles III, então Príncipe de Gales.

O rótulo foi criado em comemoração ao centenário da Entente Cordiale, um tratado assinado em 1904 que normalizou as relações entre a França e o Reino Unido e pôs fim a quase mil anos de conflito entre as duas nações. A história considera como um dos principais responsáveis pelo tratado o rei Edward VII, ancestral direto de Charles.

Imagem mostra rótulo do vinho Château Mouton Rothschild 2004, com aquarela pintada pelo rei Charles III. Inscrição assinada pelo então Príncipe de Gales diz: "Para celebrar o centésimo aniversário da Entente Cordiale" Foto: Château Mouton Rothschild

O rei fez questão de citar o tratado no dia seguinte em um discurso em francês no Palácio de Versalhes, o primeiro de um monarca britânico perante o Parlamento da França, para propor algo semelhante no enfrentamento às mudanças climáticas. “Gostaria de propor que se tornasse também uma Entente para a sustentabilidade, para enfrentar de forma mais eficaz a emergência global em matéria de clima e biodiversidade”, declarou.

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O discurso exprimiu os propósitos políticos da visita de Charles. Para além da cordialidade e da pompa, o rei esteve na França na intenção de estreitar os laços entre as duas nações, mais distantes após o Brexit, em 2016. Nesse período houve disputas na pesca do Canal da Mancha e discussões sobre Irlanda do Norte, vistos para residentes e acolhimento de refugiados.

Em 2021, Macron chamou o então premiê britânico Boris Johnson de palhaço de circo. Segundo o historiador e professor da Queen’s College, Andrew Thompson, a visita contribui para reverter esse histórico, sendo o rei e a monarquia britânica partes importante da influência britânica. “Mas a capacidade que o rei tem de tomar iniciativas diplomáticas independentes é estritamente limitada”, ressalvou.

A julgar pelo jantar, a visita foi bem-sucedida. Charles brindou e discursou ao lado de Macron antes dos pratos serem servidos, agradecendo a hospitalidade e relembrando o quanto a sua mãe, a rainha Elizabeth II, gostava da França. “Sua generosidade de espírito traz à memória como minha família e eu ficamos comovidos com as homenagens prestadas na França a minha mãe”, disse o monarca. “Você (Macron) disse que ela tocou seus corações. Foi ela que manteve a França com o maior carinho”, acrescentou e concluiu citando La Vie En Rose, de Édith Piaf, como uma de suas canções prediletas.

Depois do discurso, das lagostas azuis e do Chapon de Bresse, vieram os queijos. Queijos Comté, da França, que levam 30 meses de maturação para estarem prontos, e o queijo azul inglês Stichelton, também feito sem pasteurizar. Por fim, Isfahan Persian, o macaroon servido na sobremesa, criado pelo chef Pierre Hermé.

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Charles III discursa diante de convidados do jantar no Palácio de Versalhes, no dia 20. Rei destacou relações da sua mãe, a rainha Elizabeth II, com a França Foto: Benoit Tessier/via AP

Segundo a imprensa francesa, a mesa de 62 metros tornara impossível os convidados conversarem entre si, exceto com vizinhos à esquerda e à direita. A atenção estava voltada para os pratos servidos, seus detalhes, sua preparação.

O mais atentos devem ter reparado uma ausência. O foie gras, o fígado de ganso ou pato que é considerado uma das maiores iguarias francesas, não estava no menu.

Aqui cabe uma nota: se o glamour dos pratos e do Palácio de Versalhes não bastam para demonstrar a suntuosidade que a França ofereceu a Charles, a ausência do foie gras é um pormenor que ilumina a dedicação de Paris. Charles III é contrário ao prato devido à engorda forçada que os animais são submetidos para prepará-lo e o proibiu nas residências oficiais da realeza britânica. “O Estado francês faz muito bem a pompa e as circunstâncias (aos chefes de Estado). O tratamento dado a Charles é típico de um chefe de Estado visitante, embora talvez tenha sido em uma escala maior”, declarou Thompson.

Nos dias seguintes ao jantar, Charles seguiu com a rainha Camilla por outras cidades da França antes de retornar à Inglaterra. Nos jornais franceses, a recepção oficial ao rei foi vista como boa-vontade às relações bilaterais. “Estreitar os laços, afrouxados pelo Brexit, é um imperativo absoluto”, escreveu o Le Monte no editorial de 22 de junho. O jornal ressaltou que o Brexit funcionou como uma bomba de fragmentação entre o Reino Unido e as nações da Europa, “provocando tanto uma ruptura institucional histórica quanto um sentimento de estranhamento, desdém até”. Pelo menu servido no dia 20, o esforço é para que isso esteja prestes a mudar.

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