O Estado Islâmico a caminho de Roma

Problema do grupo extremista vai além do Islã e passa por décadas de governança falida no mundo árabe e no Paquistão

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Por THOMAS e FRIEDMAN
3 min de leitura

Os italianos receberam a coisa numa boa. Na semana passada, Adam Taylor, do Washington Post, coligiu tuítes que italianos postaram após um vídeo assassino divulgado pelo Estado Islâmico (EI) advertir: "Hoje, estamos ao sul de Roma". "Conquistaremos Roma com a permissão de Alá", ameaçou o militante islamista. Quando a hashtag #We_Are_Coming_o_Rome (Nós Estamos Chegando, ó Roma) circulou na Itália, moradores de Roma responderam à altura o desafio. Seus tuítes, observou Taylor, incluíram o equivalente a: "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma ahahah Cuidado com o Anel Viário: o tráfego é muito intenso, vocês ficariam presos!"; "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma êi só uma dica: não venham de trem, ele está sempre atrasado!"; "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma Vocês chegaram tarde demais, a Itália já foi destruída por seus governos"; e "#Nós_Estamos_Chegando_Ó_Roma estamos preparados para conhecê-los! Temos um ótimo terreno no Coliseu à venda".Os modos assassinos do EI não são uma piada, mas os italianos zombarem do EI é bastante apropriado. Enquanto debatemos exaustivamente a relação do EI com o Islã, esquecemos uma verdade simples sobre muitas pessoas atraídas por grupos assim. É a verdade enunciada por Ruslan Tsarni na CNN após seus dois sobrinhos, Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev, serem acusados pelo atentado a bomba na Maratona de Boston. Eles não passam de dois "perdedores", ele disse, "ressentidos com os que se saíram melhor do que eles e enfeitaram isso com ideologia". "Qualquer outra coisa, relacionada com religião, com o Islã, é uma fraude, é falsa." Há muita verdade nisso. O EI é constituído por três facções frouxamente ligadas e é preciso compreender as três antes de nos envolvermos mais em outra guerra no Iraque e na Síria. Uma facção compreende os voluntários estrangeiros. Alguns são jihadistas encruados, mas muitos são meros perdedores, desajustados, em busca de aventuras e jovens que nunca tiveram poder, emprego, a mão de uma garota e entraram para o EI para conseguir as três coisas. Duvido que muitos sejam estudiosos sérios do Islã ou que oferecer-lhes uma versão mais moderada os conservaria em casa. Se o EI não puder oferecer empregos, poder e sexo, esse grupo encolherá.A segunda facção do EI, sua espinha dorsal, é formada por ex-oficiais do exército baathista sunita e tribos e sunitas iraquianos locais que dão suporte passivo ao EI. Embora os sunitas iraquianos constituam um terço da população do Iraque, eles governaram o Iraque durante gerações e simplesmente não podem aceitar o fato de que a maioria xiita está agora no poder. Além disso, para muitos aldeões sunitas sob controle do EI, o grupo é menos ruim do que a brutalidade e discriminação que receberam do governo anterior do Iraque liderado por xiitas. Uma pesquisa no Google revelará que o EI não inventou a tortura no Iraque.Os EUA continuam repetindo o erro no Oriente Médio: superestimando o poder da ideologia religiosa e subestimando o impacto da má governança. Sarah Chayes, que trabalhou por muito tempo no Afeganistão e escreveu um livro importante - Thieves of State: Why Corruption Threatens Global Security (Ladrões de Estado: por que a corrupção coloca em risco a segurança global, em tradução livre) - sobre como a corrupção governamental ajudou a afastar afegãos dos americanos e do regime afegão pró-EUA, argumenta que "nada alimenta mais o extremismo do que a corrupção e a injustiça escancaradas" que alguns dos aliados mais próximos dos EUA no Oriente Médio ministram diariamente a seus povos.A terceira facção do EI é formada pelos verdadeiros ideólogos, liderados por Abu Bakr al-Baghdadi. Eles têm sua própria versão apocalíptica do Islã. No entanto, ela não repercutiria não fosse o fato de que "tanto a religião como a política foram sequestradas" no mundo árabe e no Paquistão, criando uma "mistura tóxica", diz Nader Mousavizadeh, presidente adjunto da consultoria internacional Macro Advisory Partners. Os povos árabes foram governados principalmente por radicais e reacionários. Sem a perspectiva de uma política legítima "que genuinamente responda às aflições populares", nenhuma quantidade de tentativas de cima para baixo para estabelecer um Islã moderado terá êxito, diz.O Islã não tem uma espécie de Vaticano para decretar qual Islã é autêntico, por isso ele se manifesta de maneiras diferentes em diferentes contextos. Há um Islã moderado que surgiu em contextos políticos, sociais e econômicos decentes - como o Islã indiano, o Islã indonésio e o Islã malaio - e nunca ficaram no caminho de seu progresso. E há Islãs puritanos, contrários a uma educação moderna e pluralista, às liberdades femininas, que surgiram dos cantos mais tribais do mundo árabe, da Nigéria e do Paquistão, ajudando a manter o atraso desses lugares.Moderação. É por isso que o EI não é apenas um problema do Islã. Ele é um produto de décadas de governança falida no mundo árabe e no Paquistão e séculos de calcificação do Islã árabe. As duas coisas se alimentam mutuamente. Portanto, para derrotar o EI e não ver outro movimento semelhante surgir, é preciso: eliminar sua liderança; convocar muçulmanos para desacreditar as versões muito reais, populares e extremistas do Islã que emergem da Arábia Saudita e do Paquistão; barrar a injustiça, a corrupção, o sectarismo e a falência estatal no mundo árabe e no Paquistão; e arranjar para os sunitas iraquianos sua própria região autônoma no Iraque e uma parte de sua riqueza petrolífera, como os curdos têm.Eu sei, parece impossível. No entanto, esse problema é muito profundo. Esse é o único caminho para um Islã árabe mais moderado - e também para menos jovens homens e mulheres procurarem dignidade nos lugares errados. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK É COLUNISTA

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