Opinião|O novo tabuleiro global e os países emergentes: qual papel para o Brasil?

Transformação geopolítica dos últimos 20 anos é desafio para países emergentes salvaguardar seus interesses

PUBLICIDADE

As transformações nos padrões de distribuição de poder na política internacional têm evidentes impactos sobre diversas áreas: da segurança internacional à mudança climática; do comércio internacional ao regime de proteção aos direitos humanos. Num tabuleiro dinâmico, no qual a ascensão chinesa é o fator mais impactante dos últimos vinte anos, como potências médias emergentes, como o Brasil, por exemplo, se posicionam? Que estratégias adotam para salvaguardar seus interesses em cenário de rivalidade das grandes potências?

PUBLICIDADE

Para aferir como tais transformações são percebidas o BRICS Policy Center (PUC-Rio) em uma parceria com a Körber Stiftung (Alemanha), Gateway House (Índia), e South Africa Institute of International Affairs (África do Sul) conduziu uma pesquisa que ouviu 922 especialistas e formuladores de políticas nesses quatro países. Os resultados apresentam como esses grupos percebem o papel de seus países em um mundo crescentemente polarizado apontando para estratégias que variam entre entre o não-alinhamento e a proteção ou equilíbrio estratégico.

Entre os países do IBAS (Índia, Brasil e África do Sul), os dados da pesquisa revelam uma inclinação significativa para a compreensão de que estaríamos diante da emergência de um sistema bipolar, com 40% dos entrevistados nessas nações, e notáveis 45% no Brasil, apontando para essa tendência. Em contraste, para 43%, estaríamos diante de um mundo multipolar, ou tripolar (Estado Unidos, China e Rússia).

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa após a Cúpula do Brics de 2023, em Joanesburgo, África do Sul. Brasil precisa encontrar estratégias para salvaguardar interesses Foto: Phill Magakoe/AFP

Em um contexto em que mais que 80% dos entrevistados nos países IBAS identificam uma clara transição de poder no sistema internacional não é surpresa que no Brasil e na África do Sul demonstrem também um forte apoio ao não-alinhamento, com 82% e 79%, respectivamente, favorecendo essa estratégia. Isso contrasta com a posição encontrada na Índia, onde uma pequena maioria (59%) se inclina para a aproximação com os EUA.

A chave para a compreensão das diferenças entre Brasil e África do Sul, de um lado, e Índia, de outro, se encontram no posicionamento desses países diante da China. Ao considerar a China, os entrevistados brasileiros e sul-africanos têm uma percepção positiva de sua influência tanto em seus países (78% e 62%, respectivamente), quanto globalmente (76% e 60%, respectivamente). Em contraste, entrevistados indianos veem a influência da China de forma negativa tanto em seu país (86%), quanto globalmente (73%).

A diferença entre Brasil e África do Sul, de um lado, e Índia, de outro, reflete um cálculo geopolítico complexo, no qual as relações com a China têm um papel central. De um lado, a estratégia de proteção estratégica da Índia busca estabelecer parcerias (não apenas com potências ocidentais, mas também com a Rússia) que produzam relações mais equilibradas em sua região. De outro lado, a política de não-alinhamento adotada por Brasil e África do Sul tem como objetivo construir uma posição de equidistância em relação à competição entre as super-potências que lhes ofereça a possibilidade de se beneficiar do relacionamento com os dois pólos como forma de realizar seus objetivos estratégicos. A despeito de suas diferenças, contudo, essas estratégias têm como objetivo comum a manutenção e, eventual expansão, do espaço para a tomada de decisões estratégicas.

Neste contexto, o conflito na Ucrânia serve como um teste decisivo para as estratégias adotadas pelos três países. A abstenção diante do conflito e a disposição para participar de um processo de mediação, são as opções apontadas por 81% dos respondentes nos países IBAS. A preferência pelo engajamento diplomático, em lugar da adesão à uma das partes, é consistente com a busca pela manutenção de autonomia estratégica característica das estratégias adotadas pelos três países.

Publicidade

Os demais países IBAS parecem ter adotado uma estratégia dupla para navegar a transição de poder. O não-alinhamento proporciona uma posição de equidistância que garante flexibilidade estratégica, enquanto a proteção estratégica permite engajamentos pragmáticos que asseguram os interesses nacionais sem comprometimento excessivo com os pólos de poder. A política externa do Brasil tem rejeitado o envolvimento direto na competição entre superpotências com o objetivo de estabelecer pontes que conectem o país à várias geografias e diferentes posições políticas. Esse posicionamento permite que o país manobre com mais autonomia em um quadro de crescente instabilidade e constantes mudanças nas relações de poder globais.

No caso brasileiro, essa não é uma estratégia inovadora. Os formuladores da política externa têm, acertadamente, insistindo no universalismo e na construção de coalizões de geometria variável como dimensões centrais de sua inserção internacional. No presente cenário, a Presidência do G20 e a realização da COP 30, são oportunidades únicas. A capacidade de construir coalizões diversas pode ter importante impacto não apenas sobre a implementação dos objetivos de desenvolvimento domésticos (como expressos, por exemplo, no plano de transformação ecológica), mas também sobre a construção de uma sólida agenda multilateral em torno de problemas globais como a segurança alimentar e nutricional, combate a desigualdades e mitigação e adaptação à mudanças climáticas.

Paulo Esteves é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Carlos Frederico Coelho é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da ECEME

Opinião por Paulo Esteves
Carlos Frederico Coelho
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.