No Oriente Médio, assim me ensinou o embaixador Uri Savir (Z”L), que foi o chefe da equipe de negociações dos Acordos de Oslo (1993), “if you are not at the table, then you’re probably on the menu” (se você não está à mesa, provavelmente está no cardápio) – referindo-se à forma como Israel agiu ao longo de todo o processo frente aos palestinos e outros atores relevantes.
Essa expressão, bem conhecida nos mundos da política, diplomacia e negociações, bem como no universo dos negócios, destaca a importância crucial de estar presente à mesa de tomada de decisões, influenciando e, sempre que possível, liderando as discussões. Caso contrário, é provável que seus interesses sejam discutidos sem você – ou sequer sejam considerados. Em tal situação, você pode se encontrar fora do jogo, sujeito a pressões que não necessariamente correspondem à sua agenda, sem ter a chance de influenciar os rumos – ou, no máximo, apenas depois do fato consumado e à margem do processo. Se quiserem, essa é (quase) toda a essência da questão em poucas palavras.
Fast forward para os dias atuais, maio de 2025: Israel não está presente na “mesa” que Donald Trump abriu no Oriente Médio – uma “mesa” que conduz um processo de transformação histórica profunda, redefinindo, na prática, o cenário estratégico e político da região e, em grande medida, o panorama global.

A importância dos acontecimentos não poderia ser mais evidente. Israel está ausente dos processos decisórios cruciais que estão ocorrendo agora sob a liderança do presidente Trump, apesar de quase todas as decisões tomadas lá impactarem diretamente seu futuro: sua segurança nacional, sua economia, sua superioridade militar e seu posicionamento estratégico, assim como suas relações com os Estados Unidos, com países do Oriente Médio, com a Europa e com a comunidade internacional como um todo. Israel simplesmente não está lá.
Além disso, Israel está fora do quadro não por acaso. Essa foi uma escolha consciente do primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, refletindo prioridades questionáveis. Netanyahu hoje lidera a coalizão de direita mais extrema da história do país. Ainda assim, é quem poderia e deveria ter assumido seu lugar nessa mesa única e decisiva (mesmo que por meio de entendimentos prévios com Trump e sua equipe, e não necessariamente de forma presencial). No entanto, tremendo pelas forças políticas que o cercam hoje, temeu que um movimento desse tipo pudesse desestabilizar sua coalizão.
Ele optou por priorizar sua continuidade política em vez de integrar-se e influenciar um processo estratégico histórico e abrangente, de enorme importância para Israel.
Trump identificou as tendências e não esperou. “Visitarei Israel quando a guerra terminar”, disse ele em resposta ao pedido de Netanyahu para incluir Israel em sua visita regional. Como presidente dos EUA, os interesses americanos vêm em primeiro lugar, e ele segue rapidamente em direção aos seus objetivos.
E assim, em vez de embarcar nesse trem de oportunidades – que estava ao seu alcance – aproveitando a chance de influenciar o processo, construir entendimentos e abrir novas portas, Netanyahu optou por se agarrar à continuação da guerra em Gaza. Isso em conformidade com as exigências de Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich, que parecem ser aqueles que realmente ditam a agenda.
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A percepção é de que algo mudou. Trump, que até recentemente era visto como a maior esperança pelo governo israelense, não tem mais paciência para a postura hesitante de Netanyahu em relação à guerra em Gaza e à libertação dos reféns. Em uma reunião recente no Comitê de Relações Exteriores e Defesa, Netanyahu admitiu que Israel precisa começar a “desmamar” do apoio norte-americano.
A recusa de Netanyahu (até agora) em se juntar à mesa regional pode condenar Israel a afundar ainda mais na lama do conflito em Gaza, junto aos palestinos, tornando-se, inevitavelmente, um ator visto como desestabilizador da região.
Esse cenário contrasta fortemente com o que Netanyahu apresentou como um dos maiores feitos de seu governo anterior: os Acordos de Abraão. Em setembro de 2020, ele conseguiu, segundo sua própria visão, tirar os palestinos da equação estratégica. Esses acordos permitiram relações de paz (sem chamar isso explicitamente de paz) com os países signatários, sem devolver territórios, mas com muitas oportunidades econômicas que geraram receitas substanciais para Israel, especialmente no setor tecnológico.
Agora, em seu segundo mandato, Trump vira o jogo: está em vias de fechar “mega-deals” colossais com os Estados do Golfo, transferindo o centro de gravidade econômico regional para a Arábia Saudita. Desta vez, é Israel quem se encontra na posição de ser relegada à margem.
Desde a assinatura dos Acordos de Abraão, Netanyahu nunca escondeu seu desejo de alcançar um acordo de normalização com a Arábia Saudita, que, segundo ele, colocaria fim ao conflito árabe-israelense. Já em janeiro de 2023, nas primeiras semanas de seu retorno ao cargo de primeiro-ministro, ele falou abertamente sobre isso e, ao mesmo tempo, manteve conversas secretas com os sauditas para avançar no tema.
Agora, não apenas Trump deixou de exigir um acordo sobre um programa nuclear civil como condição para o avanço das negociações com Riad – como insistia o governo de Joe Biden –, mas também está fechando um acordo bilionário com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para a compra de sistemas de armas avançadas da indústria militar americana. Um acordo que pode enfraquecer a superioridade militar israelense, que Washington se empenhou em preservar por tantos anos.
Embora Trump ainda não tenha autorizado a venda de caças F-35 para a Arábia Saudita, ele já planeja vendê-los para a Turquia, cujo presidente, Erdogan, é considerado hoje um dos principais rivais de Israel. Paralelamente, Trump não apenas remove as sanções contra a Síria, mas também convida seu novo presidente, Al-Joulani, a aderir aos Acordos de Abraão – tudo isso “sobre a cabeça” de Israel e sem qualquer coordenação prévia com ela. E isso sem mencionar as negociações nucleares com o Irã e o cessar-fogo com os houthis, enquanto Israel continua sendo alvo de ataques.
A porta para a cooperação regional se fechou definitivamente para Israel? Não necessariamente.

Podemos entrar no processo e colher seus frutos? Sim, mas… Na diplomacia, assim como nos negócios, o timing é um elemento crucial. Quem entra no processo depois de ter se recusado a participar desde o início pode descobrir que as cartas já foram distribuídas, que o espaço para influência diminuiu e que a capacidade de moldar os rumos do processo foi substancialmente reduzida – restando apenas as migalhas deixadas sobre a mesa.
Se Netanyahu tivesse escolhido tomar uma decisão de liderança e se unir ao processo desde o início, apesar das ameaças da sua coalizão, é possível que, contra todas as expectativas, ele tivesse conquistado um apoio público significativo, que poderia até fortalecê-lo nas próximas eleições. Tampouco significaria que ele teria que aceitar tudo o que Trump propõe. Em negociações – mesmo em meio a um processo regional histórico como o que está ocorrendo agora – não se trata de tudo ou nada. Pelo contrário, trata-se de um processo de concessões mútuas, diálogo contínuo, construção de confiança e identificação de oportunidades estratégicas. Mas quando você não está presente, não tem cartas na mão para jogar e extrair o máximo da oportunidade.
Netanyahu sabe disso muito bem. Afinal, iniciou sua carreira política como um diplomata de alto escalão e conhece a fundo os meandros da negociação e as regras do jogo em arenas internacionais complexas. A capacidade de conduzir um diálogo firme, mas flexível; de exigir, mas também de ceder; e de influenciar o desfecho sem abrir mão dos interesses israelenses – essa foi exatamente a oportunidade que estava em suas mãos.
Essa oportunidade, ao que tudo indica, ainda não desapareceu completamente – mas se reduziu significativamente. Se ela se concretizar, será em condições menos favoráveis e com um custo que poderia ter sido evitado. Enquanto a mesa de decisões regionais se forma e novas alianças ganham corpo, Israel permanece fora do círculo de influência – e essa perda não é apenas de Netanyahu, mas, acima de tudo, do Estado de Israel.







