Planos de Maduro no Essequibo aumentam xenofobia contra venezuelanos que moram na Guiana

Boatos e teorias da conspiração dizem que venezuelanos estão no país a mando do ditador venezuelano para roubar terras e espionar; população dos dois países tem laços históricos que podem ser quebrados com hostilidades

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Por Luiz Henrique Gomes
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ENVIADO ESPECIAL A LETHEM — O venezuelano Josue David Perez chegou a Lethem há seis anos para fugir da crise econômica da Venezuela e conseguir emprego em um lugar seguro. A violência havia aumentado no seu país e Lethem pareceu um bom lugar para morar. Mas desde que o ditador Nicolás Maduro começou a falar que o Essequibo faz parte da Venezuela, a desconfiança e a xenofobia de parte dos guianenses cresceram.

Proprietário do hotel Savanna, na principal rua da cidade, Josue conta que sempre existiram moradores que não confiaram nele, mas sente que isso aumentou nas últimas semanas. “Como em todo lugar, existem pessoas que acham que somos bandidos ou ladrões para ter vindo para cá, e agora mais ainda”, disse.

A percepção de Josue se reflete nas ruas. Polo comercial por causa de sua localização, a cidade de apenas três mil pessoas é habitada por guianenses, brasileiros e venezuelanos, mas esses são os que mais têm dificuldade de permanecer. “É muito difícil darem empregos aqui aos venezuelanos, eles têm a fama de ladrões”, disse a brasileira Sheila Rodrigues, funcionária em um restaurante local.

Josue David Perez em Lethem, Guiana. Foto: Luiz Henrique Gomes/Estadão

Por causa disso, é fácil identificar os venezuelanos na cidade: estão, na maioria das vezes, vendendo colares e pulseiras artesanais nas ruas ou pedindo ajuda em dinheiro perto de supermercados. Também existem os que possuem empregos formais, mas são raros.

Perez emprega uma compatriota no Savanna Hotel. Saídos de um país em crise, eles não têm para onde ir e buscam um lugar para viver com maior segurança. Na maioria dos casos, são acolhidos por outros venezuelanos que estão mais estabelecidos. “Saí da Venezuela para tentar uma vida melhor. Tenho um filho, e a situação estava cada vez mais difícil por lá”, disse a funcionária, María Tejedor, que chegou a Lethem há duas semanas.

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Lethem, Guiana. Foto: Luiz Henrique Gomes/Estadão

Mas a desconfiança não é geral. As duas nações compartilham uma relação histórica, caracterizada pela migração de muitos guianenses que saíam de seu país - ainda hoje um dos menos desenvolvidos da América do Sul - para a Venezuela, que foi um dos mais ricos da região, e por isso atraia os estrangeiros.

Victor Paredes é guianense do sul do Essequibo, mas tem parentes que nasceram na Venezuela devido à migração de seus tios no passado. Motorista de uma van que faz o transporte da capital Georgetown até Lethem, ele conta que encontra venezuelanos todos os dias e não tem nenhum problema com eles. “São meus amigos. Eles viajam comigo, encontro eles no caminho, estão por aí há anos e muitos voltaram para cá porque têm parentes”, disse.

Lethem, Guiana. Foto: Luiz Henrique Gomes/Estadão

Na região, mesmo a distinção de venezuelanos e guianenses pelo fenótipo é mais difusa. Enquanto em Georgetown os guianenses são em sua maioria descendentes de africanos e indianos, no Essequibo, eles apresentam traços indígenas, semelhante aos venezuelanos.

O movimento de migração entre as duas nações se inverteu desde o início dos problemas econômicos da Venezuela na década passada. Cerca de 21 mil venezuelanos moram na Guiana hoje, segundo o governo do país. Os números, entretanto, são imprecisos por causa da presença de muitos residentes indocumentados.

Antes mesmo de a Guiana registrar o maior crescimento do mundo, no ano passado, os venezuelanos passaram a cruzar a fronteira com o país pela proximidade, facilidade e, principalmente, pelo ouro.

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O garimpo do mineral era a principal atividade econômica na região do Essequibo até a descoberta do petróleo. E, apesar de ter perdido importância para a economia do país, é o que atrai os venezuelanos ainda hoje. Enquanto a exploração do petróleo é feita por gigantes petrolíferas no mar, o ouro é extraído pelos garimpeiros que vivem no interior da região.

Em Georgetown, os garimpeiros são chamados de “gold people”. “Eles estão aí sempre com muito ouro, com colar, pulseiras, dentes de ouro”, disse Moses, um vendedor ambulante na capital guianense. “Acho que uma parte foi enviada por aquele presidente louco deles”, acrescentou.

A crença de Moses é repetida por muitos guianenses. Teorias conspiratórias de que Maduro está enviando venezuelanos para tomar o país aos poucos ou para espioná-los têm se espalhado pelas ruas e redes sociais. Outros cidadãos na capital falam em redes de criminosos que sequestram guianenses no Essequibo. Até mesmo alguns jornais do país têm questionado a presença dos vizinhos como perigosa.

Josue David Perez e Maria Tejedor em Lethem, Guiana. Foto: Luiz Henrique Gomes/Estadão

Sandy Perez, uma venezuelana de 29 anos, conta que os boatos têm afetado a sua vida, mesmo sendo filha de uma guianense que foi para a Venezuela no passado. Ela chegou a Georgetown há nove meses para trabalhar em um restaurante brasileiro em Georgetown, depois de morar por dois anos em Boa Vista, Roraima, e percebe que passou a ser tratada de maneira mais ríspida nas últimas semanas. “Parece que as pessoas não entendem que não temos nada a ver com o presidente [Nicolás Maduro]”, disse, em português.

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Apesar do aumento da hostilidade, os venezuelanos não pretendem deixar a Guiana. Eles consideram a Venezuela um lugar pior, por ora. Justo por causa disso, temem que o Essequibo seja anexado e eles voltem a estar no país. “Saí da Venezuela pelo motivo que todos sabem. Quando penso que posso estar de volta ao país, me preocupo”, disse Jose Rodríguez.

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