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Quais as chances de o libertário Javier Milei vencer as eleições presidenciais na Argentina?

Um desconhecido na política até 2021, ele chegou aos primeiros lugares na pesquisas eleitorais, levantando questionamentos sobre suas chances de ser o próximo presidente da Argentina

Foto do author Carolina Marins
Por Carolina Marins
Atualização:

Um desconhecido na política argentina até conquistar uma cadeira como deputado em 2021, o libertário Javier Milei ganhou impulso na corrida presidencial no início deste ano. Quando saiu de pontuações ínfimas nas pesquisas de intenção de votos para próximo do primeiro lugar, analistas começaram a se perguntar quais eram as chances do libertário vencer as eleições em outubro.

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O presidente da coalizão Liberdade Avança capturou uma atenção considerável do eleitorado argentino quando se colocou como “diferente de tudo que está aí”. Com seu lema de ser “contra a casta política”, Milei enfatiza que não faz parte nem da política peronista nem da oposição macrista. O discurso agradou quem está cansado da enorme crise econômica que passa o país e não foi resolvida no últimos governos de Alberto Fernández e seu antecessor Mauricio Macri.

À insatisfação popular se somou as brigas internas dentro das coalizões de governo e oposição pelas candidaturas presidenciais. A chapa peronista União pela Pátria (antiga Frente de Todos) travou batalhas até os últimos dias para definir um candidato. Enquanto a oposição do Juntos pela Mudança decidiu sair com dois nomes de peso para a disputa, mas não sem antes protagonizar trocas de acusações entre eles e disputas até mesmo pela prefeitura de Buenos Aires.

O deputado e presidenciável argentino, Javier Milei, durante entrevista à TV local em Buenos Aires Foto: Luis Robayo/AFP

Na primeira pesquisa realizada após o fechamento das listas de candidatos, em 24 de junho, pela CB Consultora Opinión Pública, a coalizão oposicionista Juntos pela Mudança despontava na frente com 33%, com Patricia Bullrich mais provável de vencer as primárias. A coalizão de Milei aparecia em terceiro, com 17%. Mas ao analisar os votos individuais, Sergio Massa levava a melhor com 24,1%, seguido por Bullrich e Milei empatados em 17,3% e 17,2% respectivamente.

Em uma pesquisa mais fresca realizada pela consultora Zuban Córdoba e publicada esta quarta-feira, 12, pelo Clarin, Milei aparece bem colocado com 24,5%, mas tecnicamente empatado com Sergio Massa que leva 25,1%. No entanto, nos votos por coalizão, Milei fica para trás, com o Juntos pela Mudança levando 29,7% e o União pela Pátria 27,1%. Ambas pesquisas sinalizam que, embora Milei esteja na boca do eleitorado, suas chances se dissipam quando disputa com as legendas dominantes.

Enquanto a corrida estava indefinida dentro dos partidos tradicionais da Argentina, Milei se beneficiava de ser o único nome certo na disputa para as primárias que ocorrem em agosto e já ocupava espaços na televisão e no rádio para compartilhar suas ideias de governo.

As palavras fortes contra os políticos e a marca registrada do cabelo desordenado - que lhe rendeu comparações com o ex-premiê britânico Boris Johnson - conquistou um público que se viu representado em seu jeito mais próximo “do povo”. Mas foi seu diploma de economista que lhe rendeu a confiança de parte da população argentina de que ele saberia resolver o problema da inflação acima dos 110%. Ainda que seus planos fossem vagos ou radicais, como acabar com o Banco Central ou dolarizar a economia - em um cenário de fuga de dólares.

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Até antes do fechamento das listas, Milei aparentava ter chances reais de terminar como um dos favoritos nas Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO) que vão ocorrer em 13 de agosto. Mas o cenário mudou com a definição de última hora do candidato do governo e com denúncias de venda de candidaturas contra Milei.

Candidatura de Sergio Massa

Em 23 de junho, a coalizão de governo decidiu que o ministro da Economia, Sergio Massa, seria o candidato da União pela Pátria. Até então, seu nome disputava espaço com o embaixador da Argentina no Brasil Daniel Scioli, o ministro do interior Eduardo “Wado” de Pedro e o advogado Juan Grabois.

Indicar Massa parecia uma aposta de risco do governo, já que é justamente a economia o setor que mais desagrada o eleitorado, e sua grande promessa quando foi indicado “superministro” de conter a inflação galopante não surtiu efeitos. Pelo contrário, disputas internas entre Massa e o então ministro de gabinete de Fernández Antonio Aracre fez o dólar blue - o câmbio paralelo, porém mais utilizado - ultrapassar a barreira dos 400 pesos e quase encostar nos 500.

O ministro da Economia e presidenciável argentino, Sergio Massa, durante cúpula do Mercosul  Foto: Juan Ignacio Roncoroni/EFE

O que contou a favor de Massa foi sua postura mais distante dos peronistas, principalmente dos kirchneristas, cujos índices de reprovação quase inviabilizam uma vitória. Além disso, o ministro conseguiu abrir diálogos com a diretoria do FMI para reavaliar a dívida, embora ainda não haja uma definição sobre isso. Seu nome também agrada o setor financeiro.

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A indicação de seu nome, especialmente sendo o único candidato, surpreendeu, já que Cristina Kirchner, a figura mais influente da política argentina, não era uma apoiadora do economista. “Esta grande mudança que o partido governante fez, juntando-se quando até o último momento se acreditou que eles iriam se dividir, foi uma jogada muito inteligente porque agora eles apareceram como unidos”, afirma Juan Carlos Rosiello, professor e pesquisador do Centro de Análise Econômica da Universidade Católica Argentina (UCA).

Não à toa o governo mudou o nome de sua coalizão para União pela Pátria. “Agora nas primárias eles não vão ter uma derrota por entrarem divididos, porque o perigo e o medo que eles tinham era de entrarem divididos e que cada candidato receber um percentual muito baixo de votos”, completa.

A candidatura de Massa ocorre frente à fragmentação do Juntos pela Mudança, que decidiu concorrer com os nomes do prefeito de Buenos Aires, Horacio Larreta, e a ex-ministra da Segurança, Patricia Bullrich. Apesar de as pesquisas atualmente mostrarem o Juntos pela Mudança a frente em muitos cenários, quando analisados os votos individuais, Larreta e Bullrich dividem o eleitorado, enquanto Massa desponta na frente.

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“Sergio Massa deu ordem ao partido governista e conseguiu um efeito bastante positivo ao contar agora com o apoio de Scioli e Wado de Pedro para sua candidatura”, concorda Facundo Galván, professor de ciência política da Universidade de Buenos Aires. “Ao contrário do Juntos pela Mudança que estão se matando em uma campanha cheia de golpes baixos e muito desgastante”.

Os candidatos da coalizão Juntos pela Mudança: Horacio Larreta e Patricia Bullrich em foto de 2016 Foto: Enrique Marcarian/Reuters

Escândalo

Além das mudanças no xadrez dos adversários, Milei se vê agora prejudicado pelo maior escândalo envolvendo seu nome desde que entrou para a política em 2021. A Justiça Eleitoral argentina abriu uma investigação por denúncias de venda de candidaturas dentro da coalizão Liberdade Avança.

Segundo denunciou ex-aliados do candidato, sua equipe chegou a cobrar mais de US$ 50 mil dólares para indicar nomes às corridas para prefeitos, vereadores e governadores nas eleições provinciais. Áudios divulgados pelo La Nación em que Milei é citado pelo nome reforçaram as denúncias até que a Justiça abriu o inquérito. Milei nega a venda e se diz vítima de difamação.

Além disso, nenhum dos candidatos apoiados por ele conseguiu cargos nas eleições provinciais, que até então veem predominância dos candidatos apoiados pelo governo. No entanto, ainda faltam eleições de províncias importantes e que concentram a maioria do eleitorado, como Buenos Aires e Santa Fé.

“É muito difícil para um outsider entrar na Argentina devido à sua amplitude territorial na política. Milei está padecendo disso”, afirma María Lourdes Puente, cientista política e diretora da Escola de Política e Governo da UCA. “Definidas as candidaturas, todas com um matiz nítido do centro para a direita, Milei perde um pouco o sentido. As eleições provinciais mostram que a sociedade ao final se expressa e está disposta a mudar o voto sem soluções extremas.”

Javier Milei tem como projeto econômico acabar com o Banco Central argentino e dolarizar a economia Foto: Natacha Pisarenko/AP

As derrotas, além de indicarem a pouca força que o rosto de Milei teve para atrair eleitorado no boletim de voto, provocou cisões dentro da coalizão. Candidatos derrotados, como foi o caso de Paola Miers candidata a governadora de San Juan, acusaram Milei largá-los na disputa e apenas fazer aparições protocolares em seus departamentos.

O cenário de hoje, que pode mudar drasticamente segundo analistas, é de um Milei fragilizado que já bateu em seu teto de votos, e cujas chances para se tornar o próximo presidente da Argentina parece, novamente, remotas.

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“Por enquanto, a entrada de Massa impactou menos do que se pensava a disputa eleitoral. Porém, há tanto ruído dentro da equipe de Milei e tantas acusações internas no Juntas pela Mudança, que Massa aparentar ser o mais moderado”, afirma Facundo Galván.

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