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Recuperação do consumo na Venezuela perde força e fantasma da crise econômica assusta o país

Tímidos sinais de recuperação do ano passado começam a ser ofuscados por indícios de agravamento da crise que levou 7 milhões de venezuelanos a emigrarem

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Por Redação

CARACAS - A queda no consumo na Venezuela nos últimos meses acendeu um alerta sobre a incipiente recuperação da economia do país, afetada por anos de escassez, inflação e dependência de produtos importados.

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Segundo a Consecomércio, a entidade de classe que reúne varejistas no país, as vendas no comércio em Caracas caíram 21% nos primeiros cinco meses do ano na comparação com o mesmo período do ano passado. Em paralelo, o aumento gradual da inflação, provocado pela diminuição da oferta de moeda forte no país, também colabora com a queda da confiança do consumidor.

Em 2022, a alta do preço do petróleo e a flexibilização de algumas sanções, junto à flexibilização de algumas regras econômicas por parte do governo do ditador Nicolás Maduro permitiram uma recuperação do consumo na Venezuela. Com isso, lojas foram reabertas e comerciantes renovaram seus estoques.

Posto de venda de frutas e legumes na Venezuela.  Foto: Meridith Kohut/The New York Times

Quedas nas vendas

A recuperação no consumo levou a economia do país a crescer 15% no ano passado, depois de uma contração de 80% em oito anos de recessão, marcados pela escassez e a hiperinflação. Esse fôlego, no entanto, tem dado sinais de ser mais curto do que o esperado e comerciantes já reavaliam suas estratégias.

É o caso de Deniris Camacho, que vende roupas no centro de Caracas. neste ano, os clientes têm sumido.

“Pouco a pouco, a cada dia menos e menos”, disse à AFP o comerciante de 60 anos, que há três décadas vende roupas femininas em um mercado no centro de Caracas.

A redução dos estoques reflete a queda nas vendas, já que muitos comerciantes, como Camacho, não conseguiram reabastecê-los desde dezembro. “Como posso fazer pedidos se ainda tenho estoque?”, questiona ele.

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Dessa forma, os tímidos sinais de recuperação do ano passado estão começando a ser ofuscados por indícios de agravamento da crise que levou 7 milhões de venezuelanos a emigrarem, segundo alertam os especialistas.

“Não há políticas econômicas que levem a um crescimento sustentado. O efeito de recuperação que vimos no ano passado teve a ver com os preços do petróleo”, comenta a economista Pilar Navarro, da empresa EMFI Securities, lembrando que o preço do barril de petróleo chegou a mais de US$ 100 após a invasão russa na Ucrânia.

Alta da inflação

A desaceleração econômica coincide com um escândalo de corrupção que abalou a empresa petrolífera estatal PDVSA com o desvio de pelo menos US$ 3 bilhões. Isso afetou a liquidez e o fluxo de caixa do governo. Houve também um “ressurgimento” da inflação.

“Com uma inflação de 436% (ano a ano até maio), é difícil para qualquer pessoa com qualquer renda manter seu poder de compra”, argumenta o professor e ex-chefe da mesa de câmbio do Banco Central venezuelano, Hermes Pérez.

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Janeiro, de fato, foi o mês com a maior inflação dos últimos dois anos: 42,1%. A empresa Datanálisis, nesse contexto difícil, estimou que a perda de confiança do consumidor foi de 23%.

De acordo com especialistas, a economia venezuelana só não entrou em colapso graças aos recursos adicionais provenientes das operações da empresa petrolífera norte-americana Chevron, autorizadas pelos Estados Unidos de forma limitada até o final de 2022.

“O motivo pelo qual não houve uma macrodesvalorização entre março e maio é porque há dólares no mercado, caso contrário o dólar teria disparado. E de onde vêm esses dólares? Da Chevron, não há outra fonte”, diz Luis Vicente León, economista e diretor da empresa de consultoria Datanálisis.

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Pérez calcula que o mercado de câmbio recebe cerca de US$ 100 milhões por mês da Chevron, uma quantia pouco expressiva em relação às receitas históricas do petróleo na Venezuela, mas “bastante” significativa em meio às dificuldades de exportação de petróleo devido ao embargo de Washington.

“O impacto dessa medida tem sido amplamente positivo”, diz Pérez, que, mesmo com dúvidas, espera que a situação se estabilize no segundo semestre do ano. / AFP E EFE

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