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Como o sucesso de uma série de TV ajudou o Reino Unido a encarar um escândalo devastador

Após anos de atrasos burocráticos e legais, as vítimas de um dos piores erros judiciais do Reino Unido estão finalmente sendo inocentadas - graças a série ‘Mr. Bates vs. the Post Office’

Por Stephen Castle

THE NEW YORK TIMES - Mais de 700 pessoas condenadas por um crime que não cometeram. Pelo menos quatro suicídios. Uma mulher enviada para a prisão enquanto estava grávida. Falências. Casamentos desfeitos, vidas arruinadas.

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Os detalhes chocantes de um dos piores erros judiciais da história britânica têm sido relatados há anos, mas de alguma forma permaneceram fora do radar para a maioria do público, apesar dos intensos esforços de ativistas e jornalistas investigativos.

Até o início deste ano. Uma emocionante série dramática da ITV, “Mr. Bates vs. the Post Office”, que começou a ser transmitida em 1º de janeiro, alcançou algo que escapou aos políticos por uma década, passando por um pântano de atrasos burocráticos e legais e forçando uma ação do governo.

O programa dramatiza o destino de centenas de pessoas que administravam filiais dos Correios em todo Reino Unido e que foram injustamente acusadas de roubo depois que um sistema de TI defeituoso chamado Horizon criou falsas deficiências na contabilidade.

Entre 1999 e 2015, eles foram perseguidos incansavelmente na Justiça pelos Correios por prejuízos financeiros que nunca ocorreram. Alguns foram presos, a maioria enfrentou dificuldades financeiras, muitos sofreram problemas de saúde mental e alguns tiraram a vida.

Sob pressão, o primeiro-ministro Rishi Sunak prometeu no dia 10 de janeiro uma nova lei para inocentar e compensar todas as vítimas conhecidas, uma intervenção abrangente que visa finalmente trazer justiça após anos de progresso glacial.

E a polícia disse repentinamente na semana anterior que iria investigar se autoridades dos Correios – que se recusaram por anos a admitir que a TI que obrigaram os gestores a utilizar era a culpada – deveriam enfrentar acusações. Enquanto isso, uma das suas antigas chefes, Paula Vennells, devolveu uma honraria concedida pela rainha em 2019, depois de mais de um milhão de pessoas terem assinado uma petição exigindo que ela fosse destituída dela.

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Série 'Mr. Bates vs. the Post Office' dramatiza história de centenas de pessoas que administravam filiais dos Correios e foram injustamente acusadas de roubo.  Foto: ITV via itv.com

“O drama é projetado para apelar ao coração”

Tudo isso deixou uma questão intrigante: como um programa de televisão conseguiu, em uma semana, mais do que jornalistas investigativos e políticos conseguiram em mais de uma década?

“Por mais brilhante que seja o jornalismo, talvez apele ao seu intelecto, à sua cabeça”, disse Gwyneth Hughes, escritora de “Mr. Bates vs. the Post Office”. “Enquanto o drama é projetado para apelar ao seu coração – é isso que vem fazendo há milhares de anos.”

Mattias Frey, professor de mídia na City, Universidade de Londres, argumentou que o drama mostra o poder contínuo da TV terrestre para mudar as percepções do público e gerar um daqueles momentos de conversas que ocorrem nos intervalos nos escritórios, que alimentam um debate público mais amplo.

Até o produtor executivo do programa, Patrick Spence, ficou surpreso com a escala da reação. Antes de o programa ser transmitido, ele disse à sua equipe que eles não deveriam ficar desanimados se a audiência fosse modesta, dada a competição pelos olhos.

No dia seguinte ao início da série ele foi informado por uma colega que mais de 3,5 milhões de pessoas assistiram ao primeiro episódio. “Achei que a tinha ouvido mal”, disse Spence. Nove milhões de pessoas já viram a série, de acordo com a ITV.

Ele acredita que o programa se tornou inadvertidamente um drama sobre o estado da nação, articulando “uma verdade maior, que é que não nos sentimos ouvidos e não confiamos nas pessoas que deveriam nos proteger”.

93 condenações anuladas - faltam mais de 600

O caso é ainda mais chocante porque os Correios são uma instituição inserida no tecido da vida britânica, mais habituada a ser retratada em um papel benigno, como no popular programa de televisão infantil “Postman Pat”.

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Um inquérito oficial sobre o escândalo foi iniciado em 2020, e mais de 148 milhões de libras, ou mais de US$ 188 milhões, já foram distribuídos às vítimas a partir de programas de compensação. Em 2019, 555 gestores de filiais contestaram com sucesso os Correios no Tribunal Superior.

Apesar disso, das 700 condenações criminais, apenas 93 foram anuladas até agora, um ritmo lento que alimentou a ira dos ativistas.

Desde que o drama da ITV foi ao ar, mais vítimas se apresentaram, mas dezenas de outras pessoas morreram antes de poderem receber indenização. Quando o Horizon declarou que as contas das filiais estavam deficitárias, os gestores foram contratualmente obrigados a compensar os déficits.

Alguns pagaram com as suas próprias economias para evitar processos judiciais, embora tivessem a certeza de não terem feito nada de errado. Outros se declararam culpados de crimes menores para evitar a prisão, embora fossem inocentes. Uma vítima, Lee Castleton, cuja situação foi apresentada na série, disse à BBC que a sua conta Horizon passava abruptamente de lucro para prejuízo e que mais de 90 chamadas para uma linha de apoio se revelaram inúteis. Os Correios, disse ele, estavam “absolutamente decididos” a não ajudá-lo.

À medida que as notícias do seu suposto delito se infiltravam na comunidade, Castleton e a sua família foram acusados de roubo na rua, a sua filha sofreu bullying na escola e desenvolveu um distúrbio alimentar. Forçado a viajar para longe em busca de trabalho, ele dormia no carro.

“Todo mundo gosta de um azarão”

Essas histórias fornecem o coração pulsante de “Mr. Bates vs. the Post Office”, que é o resultado de três anos de trabalho. A verdade do que aconteceu era “inacreditável”, disse Gwyneth Hughes, a escritora do programa. “Se eu escrevesse essas coisas de forma fictícia, ninguém acreditaria em mim, as pessoas desligariam.”

O heróico Mr. Bates (sr. Bates, em português), interpretado por Toby Jones, é retratado como um personagem de temperamento equilibrado e incansável que - como outras vítimas - foi informado pelos Correios que ele era a única pessoa a relatar problemas com o Horizon.

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Ele encontrou outros, formou um grupo de vítimas e prosseguiu com os seus casos com recursos escassos, lutando contra uma sucessão de obstáculos para alcançar uma vitória extraordinária nos tribunais.

“Todo mundo gosta de um azarão, e tínhamos muitos azarões”, disse Hughes, acrescentando que o sr. Bates pode parecer um fã barbudo e bem-educado de cerveja real ale, mas ele também é “um terrier; ele é sábio, inteligente e muito bom em planejar o futuro”.

“Ele é, de certa forma, um presente como personagem, ele tem uma complexidade: chega a hora, chega o homem”, disse. “Ele liderou esta longa marcha dos incompreendidos e não ouvidos e manteve seu senso de humor.”

Pressão crescente

Alguns políticos eram aliados na causa das vítimas, notavelmente James Arbuthnot, um legislador do Partido Conservador (agora na Câmara dos Lordes) que lutou em nome de um eleitor injustamente acusado de roubar 36.000 libras.

Há também uma participação especial de outro legislador do Partido Conservador, Nadhim Zahawi, que interpretou a si mesmo na série, questionando a Paula Vennells, a ex-chefe dos Correios, durante uma audiência da comissão parlamentar.

Para os telespectadores, Vennells surge como o rosto obstinado dos Correios, alguém determinado a defender sua reputação em vez de se envolver com suas vítimas, uma postura ainda mais surpreendente porque ela é uma anglicana ordenada (embora ela tenha se afastado de qualquer papel importante na igreja em 2021).

A Fujitsu, empresa japonesa que desenvolveu o sistema Horizon, também está sob pressão crescente, com os políticos esperando recuperar da empresa, que ainda tem contratos de bilhões de libras com o governo britânico, alguns dos custos da indenização das vítimas.

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O professor Mattias Frey se preocupa que os espectadores possam ter visto uma “simples história de Davi e Golias”, enquanto advogados e políticos precisam lidar com algo mais complicado. Ele vê o risco de que “a pressão que deveria ser exercida sobre os políticos, a fim de limpar esta confusão, talvez venha de uma forma indiferenciada”.

Hughes também se preocupa com isso. “Espero que eles façam o que é certo por todos os nossos adoráveis funcionários que administravam as filiais dos Correios, mas também espero que encontrem uma maneira de fazer isso que não cause mais problemas no futuro”, disse ela. “Graças a Deus esse não é o meu trabalho.”

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