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Republicanos fretam aviões e ônibus para mandar imigrantes ilegais a redutos democratas nos EUA

Milhares de imigrantes já foram enviados de ônibus para redutos democratas, em um ato de retaliação dos governadores republicanos à política migratória de Biden

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Por Redação
Atualização:

EDGARTOWN, Massachusetts - Governadores republicanos estão enviando imigrantes irregulares sem aviso prévio para redutos democratas nos Estados Unidos, incluindo uma rica ilha de veraneio em Massachusetts e próximo da casa da vice-presidente, Kamala Harris, para provocar políticos democratas e destacar sua oposição às políticas de fronteira do governo de Joe Biden.

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Os governadores da Flórida, do Texas e do Arizona já enviaram milhares de migrantes em ônibus para Nova York, Chicago e a capital Washington, nos últimos meses, mas os últimos movimentos surpresa - que incluíram dois voos para a rica ilha de Martha’s Vineyard na quarta-feira, 14, pagos pela Flórida - foram considerados um “teatro político desumano” pelos críticos.

Cerca de 50 imigrantes aterrissaram inesperadamente em Martha’s Vineyard, afirmaram autoridades locais. O grupo de imigrantes, que inclui crianças, chegou em dois aviões por volta das 15h locais, sem nenhum aviso prévio, afirmou o senador estadual Julian Cyr, democrata que representa Cape Cod, Martha’s Vineyard e Nantucket, Massachusetts. Autoridades e voluntários das cinco municipalidades da ilha “realmente mobilizaram céu e terra, essencialmente para prover a mesma resposta que proveríamos no advento de um furacão”, afirmou ele.

Parte do grupo de imigrantes enviado para Martha's Vineyard pelo governador da Flórida, Ron DeSantis Foto: Ray Ewing/Vineyard Gazette via AP

Enquanto os imigrantes recebiam testes de covid-19, alimentos e roupas, houve confusão a respeito de quem os havia mandado para Martha’s Vineyard, um popular destino de ricos e poderosos. Os imigrantes afirmaram que seu dia havia começado em San Antonio, no Texas, mas o gabinete do governador da Flórida que assumiu a responsabilidade pelos voos.

Taryn Fenske, diretora de comunicação do governador da Flórida, Ron DeSantis, afirmou que os dois voos foram parte do programa do Estado de transportar imigrantes que entram no país sem permissão legal para as ditas “destinações-refúgios”. Este ano, a Legislatura da Flórida destinou US$ 12 milhões para esse programa de transporte.

“Estados como Massachusetts, Nova York e Califórnia disponibilizarão com mais facilidade a assistência para esses indivíduos que ele convidam para o nosso país incentivando a imigração ilegal por meio de sua designação como ‘Estados-refúgio’ e seu apoio à política de fronteiras abertas do governo Biden”, afirmou Fenske em um comunicado.

O governador do Texas, Greg Abbott, anunciou nesta quinta a chegada de dois ônibus de imigrantes do lado de fora da residência de Kamala Harris. Eles transportaram mais de 100 migrantes da Colômbia, Cuba, Guiana, Nicarágua, Panamá e Venezuela. “O governo Biden-Harris continua ignorando e negando a crise histórica em nossa fronteira sul, que colocou em perigo e sobrecarregou as comunidades do Texas por quase dois anos”, disse Abbott.

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Migrantes da América Central e do Sul esperam perto da residência da vice-presidente, Kamala Harris, depois de serem enviados de ônibus do Texas para Washington Foto: Kevin Dietsch/Getty Images/AFP

Abbott transportou 7.900 imigrantes de ônibus para Washington desde abril, depois enviando 2.200 para Nova York e 300 para Chicago. O governador do Arizona, Doug Ducey, transportou mais de 1.800 imigrantes de ônibus para Washington desde maio. Os passageiros devem assinar documentos de que as viagens gratuitas são voluntárias.

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, democrata, solicitou nesta quinta-feira, 15, que o Departamento de Justiça investigue o envio dos imigrantes, em uma prática que ele chamou de “desumano”. “O que DeSantis e Greg Abbott estão fazendo não é esperto, é cruel”, escreveu o democrata em seu Twitter.

Acolhimento

Um dos imigrantes, que pediu para ser identificado apenas como Leonel, disse, em espanhol, que as pessoas em Martha’s Vineyard eram generosas e que ele nunca viu “nada assim”. Ele ganhou um par de sapatos. “Não durmo bem há três meses”, afirmou Leonel, que não tem parentes nem amigos nos Estados Unidos. “Fazia três meses que eu não usava calças novas — ou sapatos.”

Leonel, de 45 anos, afirmou que deixou a Venezuela três meses atrás, atravessando o Estreito de Darién, entre Colômbia e Panamá, onde não há estradas, para então cruzar a América Central e o México. Sua primeira tentativa de entrar nos EUA fracassou. Na segunda tentativa, em Piedras Negras, México, ele conseguiu atravessar o Rio Grande.

Leonel passou vários dias em um centro de detenção para imigrantes antes de ser libertado em San Antonio, onde ele e outros imigrantes ouviram que poderiam conseguir transporte para Massachusetts. E todos concordaram em seguir para lá.

Terry MacCormack, secretário de imprensa do governador de Massachusetts, Charlie Baker, afirmou em um comunicado que seu governo está em contato com autoridades locais da ilha, que estavam fornecendo “serviços de abrigo de curto prazo” para os imigrantes.

Almoço é preparado par4a imigrantes na igreja St. Andrew na ilha de Martha’s Vineyard Foto: Matt Cosby/The New York Times

Os imigrantes parecem vir, em sua maioria, da Venezuela, afirmou o deputado estadual Dylan Fernandes. Eles receberam assistência básica no Centro Comunitário de Martha’s Vineyard, em Oak Bluffs, antes de serem levados para a escola regional de ensino médio do outro lado da rua e, finalmente, para a Igreja Episcopal de St. Andrew, em Edgartown, antiga cidade baleeira que é a mais bem cuidada da ilha.

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Mesmo grandes cidades americanas tiveram dificuldades para lidar com os imigrantes que chegam “com nenhum ou quase nenhum aviso prévio”, conforme afirmou o governador de Illinois, JB Pritzker, em sua declaração de estado de emergência na quarta-feira. Ele citou a necessidade de abrigo e assistência médica para os 500 imigrantes que foram mandados de ônibus do Texas para Chicago.

“Enquanto outros Estados podem estar tratando essas famílias vulneráveis como peões, aqui em Illinois, as tratamos como seres humanos”, afirmou Pritzker em um comunicado.

O desafio enfrentado por Martha’s Vineyard — com população em torno de 20 mil habitantes — pode ser ainda mais acentuado.

O reverendo Chip Seadale afirmou que a igreja de St. Andrew decidiu acolher os imigrantes depois de saber que eles não tinham para onde ir. Um paroquiano o havia procurado, sabendo que a igreja ajuda a abrigar pessoas sem-teto durante o inverno.

Migrantes da Venezuela são deixados perto da casa da vice-presidente Kamala Harris em Washington nesta quinta Foto: Oliver Contreras/The New York Times

O único abrigo para pessoas sem-teto da ilha não funciona durante o verão, tem capacidade para 10 pessoas e um único banheiro, afirmou Barbara Rush, zeladora da igreja de St. Andrew. “Cinquenta pessoas sem ter onde morar é um número enorme para o tamanho desta comunidade”, afirmou ela. “Mas esta comunidade é forte e capaz.”

Enquanto Martha’s Vineyard é um conhecido destino de veraneio de ricos e poderosos — o ex-presidente Barack Obama e John Kerry têm casas lá — há escassez de moradia economicamente acessível na ilha, onde um imóvel residencial custa em média cerca de US$ 1 milhão. Além disso, os imigrantes estão chegando no fim da temporada de verão, quando os empregos temporários desaparecem.

“Literalmente não há trabalho no inverno, e não existem moradias baratas em Martha’s Vineyard”, afirmou Rush. “A maioria das pessoas que têm empregos de renda baixa ou média vive fora da ilha e vem aqui para trabalhar.”

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Ela afirmou que grupos comunitários locais, igrejas e restaurantes estavam colaborando com a assistência. Entre os voluntários estava o corretor imobiliário Sergio Racig, que foi para a igreja ajudar na comunicação, traduzindo. “Alguns deles foram torturados pelo cartel mexicano — coisas muito, muito ruins aconteceram com eles”, afirmou Racig, acrescentando: “Eles estão felizes em ver todo o apoio na ilha”.

DeSantis, republicano com ambições presidenciais, criticou repetidamente o governo federal por transportar imigrantes para a Flórida e tem ameaçado enviá-los, em vez disso, para enclaves progressistas. Ele mencionou com frequência o Estado onde Biden reside, Delaware, como possível destino./AP, NYT e EFE