O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, precisa fazer uma decisão crítica na guerra entre Israel e Irã, que chegou ao quarto dia nesta segunda-feira, 16: se deve entrar no conflito ajudando Israel a destruir a instalação subterrânea de enriquecimento nuclear em Fordo, que somente os “destruidores de bunkers” americanos, lançados por caças B-2 americanos, consegue alcançar.
Se ele decidir prosseguir, os EUA se tornarão participantes diretos do novo conflito no Oriente Médio e irá enfrentar o Irã exatamente no tipo de guerra que Trump jurou, em duas campanhas, evitar. Autoridades iranianas alertaram que a participação americana em um ataque às suas instalações colocará em risco qualquer chance remanescente do acordo de desarmamento nuclear que Trump insiste ter interesse em buscar.
Trump encorajou o vice-presidente americano J.D. Vance e seu enviado para o Oriente Médio, Steve Witkoff, a se oferecerem para se encontrar com os iranianos esta semana, de acordo com uma autoridade americana. A oferta deve ser bem recebida.

Durante a cúpula do G-7 no Canadá nesta segunda, Trump disse que acredita que o Irã está pronto para negociar. “Acho que o Irã está basicamente na mesa de negociações, eles querem fazer um acordo”.
Se o encontro entre EUA e Irã acontecer, afirmam as autoridades, o provável interlocutor iraniano seria o ministro das Relações Exteriores do país, Abbas Araghchi, que teve papel fundamental no acordo nuclear de 2015 com o governo de Barack Obama e conhece os detalhes do complexo nuclear iraniano.
Araghchi, que foi o interlocutor de Witkoff em negociações recentes, sinalizou a abertura a um acordo nesta segunda em um comunicado. “Se o presidente Trump for sincero em sua diplomacia e estiver interessado em interromper a guerra, os próximos passos serão importantes”, afirmou o chanceler.
“Basta um telefonema de Washington para amordaçar alguém como Netanyahu”, disse, referindo-se ao primeiro ministro israelense. “Isso pode abrir caminho para o retorno à diplomacia.”
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Se o esforço diplomático fracassar, ou se os iranianos continuarem relutantes em ceder à exigência central de Trump de que eles devem, em última instância, acabar com todo o enriquecimento de urânio em solo iraniano, o presidente ainda terá a opção de ordenar que Fordo e outras instalações nucleares sejam destruídas.
Há apenas uma arma para essa tarefa, dizem especialistas. Chama-se Massive Ordnance Penetrator, ou GBU-57, e pesa tanto — 13.660 kg — que só pode ser içada por um caça bombardeiro B-2. Israel não tem nem a arma nem o bombardeiro necessários para içá-la no ar e sobrevoar o alvo.
Por isso, se Trump recuar, pode muito bem significar que o principal objetivo de Israel na guerra nunca será alcançado.
“Fordo sempre foi o ponto crucial dessa coisa”, declarou Brett McGurk, que trabalhou em questões do Oriente Médio para quatro presidentes americanos sucessivos, de George W. Bush a Joe Biden. “Se isso terminar com Fordo ainda enriquecendo, então não será um ganho estratégico.”
Isso já é verdade há muito tempo e, nos últimos dois anos, o Exército dos EUA aprimorou a operação, sob rigoroso escrutínio da Casa Branca. Os exercícios levaram à conclusão de que uma bomba não resolveria o problema; qualquer ataque a Fordo teria que ocorrer em ondas, com caças B-2s lançando uma bomba depois da outra no mesmo buraco. E a operação teria que ser executada por um piloto e tripulação americanos.
Tudo isso fazia parte do mundo dos planos de guerra até as explosões iniciais na manhã de sexta em Teerã, quando o premiê israelense Binyamin Netanyahu ordenou os ataques sob a justificativa de que Israel havia descoberto uma ameaça “iminente” que exigia uma “ação preventiva”. Novas informações de inteligência, Netanyahu sugeriu sem descrever os detalhes, indicavam que o Irã estava prestes a transformar o estoque de combustível em armas.

Autoridades de inteligência dos EUA que acompanham o programa iraniano há anos concordam que cientistas e especialistas nucleares iranianos têm trabalhado para encurtar o tempo necessário para fabricar uma bomba nuclear, mas não viram grandes avanços.
No entanto, eles concordam com McGurk e outros especialistas em um ponto: se a instalação de Fordo sobreviver ao conflito, o Irã manterá o equipamento essencial necessário para permanecer no caminho para a bomba, mesmo que primeiro tenha que reconstruir grande parte da infraestrutura nuclear que Israel deixou em ruínas nos últimos quatro dias.
Pode haver outras alternativas ao bombardeio, embora dificilmente sejam garantidas. Se a energia de Fordo for cortada, por sabotadores ou bombardeios, isso pode danificar ou destruir as centrífugas que giram em velocidades supersônicas. De acordo com Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), isso pode ter acontecido em Natanz, outro grande centro de enriquecimento de urânio iraniano. Israel cortou o fornecimento de energia da usina na sexta, e Grossi declarou que a interrupção provavelmente a deixou fora de controle.
Trump raramente menciona Fordo nominalmente, mas ocasionalmente aludiu à GBU-57, às vezes dizendo a assessores que ordenou seu desenvolvimento. Isso não é verdade: os EUA começaram a projetar a arma em 2004, durante o governo Bush, especificamente para derrubar as montanhas que protegiam algumas das instalações nucleares mais profundas do Irã e da Coreia do Norte. No entanto, a arma foi testada durante o primeiro mandato Trump e adicionada ao arsenal.
Netanyahu tem pressionado os EUA a disponibilizar o equipamentos antibunker desde o governo Bush, até agora sem sucesso. Entretanto, pessoas que conversaram com Trump nos últimos meses dizem que o assunto tem sido abordado repetidamente nas conversas entre ele e o primeiro-ministro israelense. Quando questionado sobre o assunto, Trump geralmente evita uma resposta direta.
Se isso significa fornecer bombas, forneçam bombas
Lindsey Graham, senador republicano da Carolina do Sul
Agora a pressão é grande. O ex-ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, que renunciou ao cargo por divergências com Netanyahu, disse a jornalista Bianna Golodryga, da CNN, que “o trabalho tem que ser feito por Israel e pelos Estados Unidos”, em uma aparente referência ao fato de que a bomba teria que ser lançada por um piloto americano em um avião americano. Ele disse que o presidente dos EUA tinha “a opção de mudar o Oriente Médio e influenciar o mundo”.
O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul que frequentemente fala pelos membros mais tradicionais e agressivos de seu partido, disse na CBS no domingo que “se a diplomacia não for bem-sucedida”, ele “instará o presidente Trump a fazer tudo para garantir que, quando essa operação terminar, não haja mais nada de pé no Irã em relação ao programa nuclear”.
“Se isso significa fornecer bombas, forneçam bombas”, disse ele, acrescentando, em uma clara referência ao Massive Ordinance Penetrator: “quaisquer bombas. Se isso significa voar com Israel, voe com Israel.”
Os republicanos, no entanto, não estão unidos em torno dessa perspectiva. E a divisão no partido sobre a decisão de usar ou não uma das armas convencionais mais poderosas do Pentágono para ajudar um dos aliados mais próximos dos EUA evidenciou uma divisão muito mais profunda. Não se trata apenas de paralisar as centrífugas de Fordo; trata-se também da visão do movimento MAGA (Make America Great Again, em inglês) sobre que tipo de guerras os EUA devem evitar a todo custo.
A ala antiintervencionista do partido, cuja voz mais proeminente é dada pelo influente podcaster Tucker Carlson, argumentou que a lição do Iraque e do Afeganistão é que só há riscos negativos em se envolver profundamente em outra guerra no Oriente Médio. Na sexta-feira, Carlson escreveu que os EUA deveriam “abandonar Israel” e “deixá-los lutar suas próprias guerras”.
“Se Israel quiser travar esta guerra, tem todo o direito de fazê-lo”, disse Carlson. “É um país soberano e pode fazer o que quiser. Mas não com o apoio dos Estados Unidos.”
No Pentágono, as opiniões se dividem por outros motivos. Elbridge Colby, subsecretário de defesa, o terceiro posto na hierarquia do Pentágono, há muito argumenta que todo o recurso militar dedicado às guerras no Oriente Médio saem do orçamento do Pacífico e de contenção da China.
Por enquanto, Trump pode se dar ao luxo de manter um pé em cada campo. Ao fazer mais uma tentativa de diplomacia coercitiva, ele pode argumentar com os fiéis do MAGA que usa a ameaça do Massive Ordnance Penetrator para pôr fim ao conflito pacificamente. E pode dizer aos iranianos que eles vão parar de enriquecer urânio de uma forma ou de outra, seja por acordo diplomático ou porque uma GBU-57 implodiu a montanha.
Mas se a combinação de persuasão e coerção falhar, ele terá que decidir se esta é uma guerra de Israel ou dos Estados Unidos.






