Venezuelanos que deixaram tudo para trás estão presos ao sul da fronteira americana

Eles venderam tudo o que tinham e atravessaram uma selva mortífera. Agora, dezenas de milhares de migrantes estão na fronteira dos Estados Unidos, impedidos de passar e sem ter para onde ir

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Por David Shortell e Julie Turkewitz
Atualização:

CIUDAD JUÁREZ, México — No México, eles se aglomeram ao longo da fronteira dos Estados Unidos, enchem acampamentos improvisados e marcham em meio à poeira sob uma ponte internacional, empunhando cartazes que dizem, “S.O.S. HELP”. Em Honduras, Guatemala e Nicarágua eles dormem nas ruas, mendigando comida e angustiados a respeito de seu futuro. Alguns se apresentam a autoridades locais, pedindo transporte seguro de volta. Outros prometem a si mesmos perseverar e seguir caminho para os EUA.

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Uma mudança abrupta na política imigratória do governo de Joe Biden ocorrida este mês deixou praticamente da noite para o dia milhares de migrantes venezuelanos — entre o sul da América Central e a fronteira entre México e EUA — empacados em um limbo burocrático.

A Venezuela, país que tantos abandonaram, caiu em um regime autoritário e ruína econômica, desencadeando a maior crise migratória no Hemisfério Ocidental. Desde 2015, um a cada quatro venezuelanos partiu para o exterior.

Migrantes continuam seu caminho rumo aos EUA apesar das novas medidas migratórias que limita a entrada de venezuelanos Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

Os EUA, país que eles tentam entrar, fechou as portas para a maioria deles em 12 de outubro, impondo uma regra que forçou muitos a voltar para o México, em uma resposta abrangente a um problema humanitário cada vez mais complexo, que levou números recordes de migrantes para a fronteira americana este ano.

“Quero chorar, quero berrar”, afirmou o venezuelano Darrins Arrechedra, de 31 anos, que afirmou ter atravessado dez países a caminho dos EUA e chegou à fronteira um dia depois de o governo Biden parar de admitir a entrada de venezuelanos.

Arrechedra, que tentou ganhar a vida no Chile antes de empreender essa jornada, estava diante de um escritório de auxílio ao migrante em Ciudad Juárez, de onde é possível ver El Paso, do outro lado do Rio Grande, no Texas.

Amigos nos EUA prometeram-lhe trabalho, afirmou Arrechedra, e ele havia vendido seus pertences e gasto suas economias para chegar até aqui. “Realmente não tenho ideia do que vou fazer agora”, afirmou ele.

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Nos meses mais recentes, ondas de venezuelanos deixaram a América do Sul quando se espalhou um rumor de que os EUA não conseguiriam mantê-los fora facilmente e permitiriam que eles entrassem e solicitassem asilo.

Uma cerca com arames farpados separa a cidade mexicana de Ciudad Juarez e El Paso, no Texas Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

Quase todos atravessaram a selva densa do Estreito de Darién, que conecta as Américas do Sul e Central — e se tornou cenário de uma luta angustiante, enquanto migrantes se defrontam com desidratação, fome e até morte.

O aumento no fluxo migratório ajudou a alimentar um intenso debate dentro dos EUA a respeito de imigração, e governadores republicanos chegaram a enviar imigrantes para enclaves democratas no norte do país em aviões e ônibus, fazendo a cidade de Nova York erguer um acampamento e declarar estado de emergência para lidar com os recém-chegados.

Sob crescente pressão política, em 12 de outubro o governo Biden anunciou a ampliação do uso de uma regra de saúde pública da era Trump que permite às autoridades na fronteira rejeitar a entrada de venezuelanos.

O objetivo, de acordo com uma explicação da política publicada no diário oficial federal, foi “melhorar a segurança” na fronteira “reduzindo a migração irregular de cidadãos venezuelanos”.

Venezuelanos em Ciudad Juarez, México, que disse recentemente que eles precisam deixar o país Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

O México concordou em aceitá-los sob um acordo que incluiu aumentar o número de vistos americanos para imigrantes mexicanos, centro-americanos e haitianos.

A manobra foi imediatamente criticada por muitos grupos de defesa de direitos de migrantes, que classificam a regra como expansão de uma política que tira ilegalmente das pessoas o direito de solicitar asilo, em uma resposta desumana a uma crise tão devastadora.

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Ao anunciar que impediria a entrada da maioria dos cidadãos da Venezuela, os EUA também criaram um programa humanitário que permitirá a entrada de 24 mil venezuelanos que solicitem o visto no exterior.

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Estima-se que as expulsões de venezuelanos até aqui já superaram esse total e que mais de 50 mil migrantes atravessaram Darién nas primeiras três semanas de outubro, de acordo com autoridades do Panamá.

“Esta política não leva em conta que o deslocamento venezuelano está no mesmo nível de qualquer nação em guerra”, afirmou Maria Corina Vegas, uma das líderes do grupo americano de defesa de direitos ABIC Action, que advoga por uma reforma imigratória que beneficia empresas. “Ela não conserta nosso sistema imigratório nem a escassez de força de trabalho que atinge nossos negócios e nossa economia.”

Migrantes venezuelanos conversam com membros da Guarda Nacional Mexicana em Ciudad Juarez Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

Mas o governo Biden afirmou que está criando um caminho mais seguro para alguns migrantes venezuelanos. “Aqueles que seguirem o processo legítimo terão oportunidade de viajar em segurança para os EUA e ser elegíveis para trabalhar aqui”, afirmou o secretário de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas.

Antes da nova diretriz, a maioria dos venezuelanos que atravessava a fronteira podia solicitar asilo, um processo que pode levar anos para se concluir, para o qual apenas uma pequena porcentagem de migrantes se qualifica.

Antes do governo anunciar a nova política, aproximadamente 1,2 mil venezuelanos atravessavam a fronteira sul dos EUA diariamente, afirmaram autoridades americanas. Nos dias recentes, o número médio diário caiu para 150.

Durante os primeiros dez dias de aplicação dessa política, cerca de 5,1 mil venezuelanos foram mandados de volta para o México, de acordo com as Nações Unidas. Mas a política parece ter sido concebida sem um plano claro para os venezuelanos expulsos de volta para o México. Muitos venderam suas casas e seus pertences para fazer a viagem e gastaram suas últimas economias para conseguir chegar à fronteira.

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Michael Medina e sua família, que foram até a fronteira dos EUA e foram deportados de volta para o México Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

Na sexta-feira, o governo mexicano convocou uma reunião de emergência com organizações de ajuda para discutir os passos seguintes.

Em uma mensagem à imprensa, o governo mexicano afirmou que está aumentando sua capacidade de fornecer abrigo e considera trabalhar com organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas e a Cruz Vermelha, para permitir que os migrantes permaneçam no México, o que poderia incluir a emissão de permissões de trabalho.

Mas, em Ciudad Juárez, os venezuelanos devolvidos nos dias recentes receberam um formulário da autoridade imigratória do México afirmando que eles têm de deixar o país “por seus próprios meios”, em até 15 dias. Em resposta a um pedido de comentário, uma autoridade de imigração afirmou que os migrantes podem prorrogar sua estadia se solicitarem asilo.

No México e na América Central, muitos venezuelanos tentando saber o que os espera estão obtendo poucas respostas.

Na Guatemala, no Panamá e em Honduras, autoridades de imigração estão trabalhando juntamente com consulados venezuelanos e as Nações Unidas para ajudar os que desejam voltar para a Venezuela.

Mas a situação tem se complicado, porque muitos migrantes não têm passaportes nem dinheiro para comprar passagens de avião.

Venezuelanos se aquecem à luz do sol após uma noite fria debaixo da ponte internacional de Ciudad Juarez, México  Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

O governo guatemalteco afirmou que mais de 90 migrantes venezuelanos que decidiram retornar para seu país depois do anúncio da nova política americana serão colocados em voos — depois que suas famílias concordaram em pagar pelas passagens.

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A crise na Venezuela começou quase uma década atrás, conforme a corrupção e o mau governo de um regime autoritário, de inspiração socialista, levou a um colapso econômico que foi exacerbado por sanções dos EUA.

Por anos os venezuelanos fugiram para países vizinhos na América do Sul, mas conforme a pandemia de covid-19 prejudicou suas economias, muitos partiram para os EUA.

As Nações Unidas afirmaram este mês que mais de 7,1 milhões de pessoas deixaram a Venezuela desde 2015, o que torna seu êxodo um dos maiores no planeta.

O programa criado pelas autoridades americanas para permitir que alguns venezuelanos solicitem entrada legal a partir de outros países segue um modelo criado para acolher ucranianos. O processo exige que os venezuelanos possuam um passaporte válido e contem com alguém dentro dos EUA disposto a se responsabilizar por eles.

Enquanto o programa ucraniano foi aberto sem um limite de permissões, a versão para os venezuelanos tem um limite de 24 mil vistos. Este ano, cerca de 150 mil venezuelanos chegaram à fronteira dos EUA.

Alguns grupos de defesa de direitos de migrantes elogiaram a criação de um caminho legal, ainda que estreito. Quatro venezuelanos entraram nos EUA recentemente por meio do novo processo.

Migrantes venezulanos apelam por ajuda humanitária durante um protesto perto da fronteira dos EUA Foto: Alejandro Cegarra/The New York Times

Mas críticos afirmam que esse mecanismo desqualifica os venezuelanos mais pobres, pois muitos deles não possuem o documento necessário e não conhecem ninguém nos EUA. O programa também desqualifica qualquer venezuelano que entrou no Panamá ou no México depois de 19 de outubro, muitos dos quais ainda a caminho da fronteira americana.

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“É lamentável saber que toda essa jornada foi inútil”, afirmou Margaret Diaz, de 28 anos, que chegou à fronteira dos EUA dois dias depois da política de expulsão ser anunciada. Diaz afirmou que ela, seu marido e suas duas filhas pequenas venderam o pouco que tinham e pegaram dinheiro emprestado antes de deixar sua casa, no Chile, no mês passado.

Quando Diaz se apresentou com a família às autoridades americanas, em 14 de outubro, todos foram levados para um centro de detenção. Ela se recorda de ter pensado, “Se nos deixarem entrar, é porque já somos vencedores”.

Alguns dias depois, contudo, eles foram colocados em um ônibus lotado com outros venezuelanos e transportados para Ciudad Juárez. Ela se lembra de olhar para o marido, que chorava.

Para chegar aos EUA, Jonnaleth Hidalgo, de 22 anos, caminhou com a filha pequena e o marido através de Darién, que ela descreveu como “o inferno na terra”. A família quase se afogou no caminho.

Na semana passada, em Ciudad Juárez, conforme o sol começava a esquentar uma fria manhã, ela era um dos cerca de 60 venezuelanos que marcharam na direção de uma seção da fronteira diretamente oposta a um posto imigratório dos EUA do outro lado do rio. Enquanto os agentes assistiam, o grupo levantou cartazes pedindo ajuda. Usando camiseta branca, ela descreveu o protesto como uma última tentativa desesperada de “mostrar para quem está do outro lado que nós temos direitos humanos”. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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