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Vídeo mostra que guardas não ajudaram imigrantes presos em incêndio no México; veja

Nas imagens, agentes do centro de detenção aparecem mantendo as vítimas trancadas enquanto fogo se alastra na cela

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Por Redação
Atualização:

Imagens de câmera de segurança mostram agentes do centro de detenção de imigrantes em Ciudad Juaréz, no México, negando socorro às pessoas presas em uma cela em chamas, no incêndio que deixou 39 mortos e 28 feridos na noite de segunda-feira, 27.

Nas filmagens, os migrantes aparecem tentando abrir a porta da cela onde estavam trancados enquanto o fogo avançava, sem sucesso. Guardas observam a cena do lado de fora, mas não liberam a passagem para escaparem.

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Em entrevista a uma emissora local, o ministro do Interior mexicano, Adán López, confirmou a veracidade do clipe, de 32 segundos, e disse que o governo teve acesso às imagens logo após o incêndio. O vídeo parece vir de uma câmera de segurança nas instalações do Instituto Nacional de Migrações (INM), órgão do governo para onde são levados imigrantes sem documento, perto da fronteira que liga Ciudad Juárez a El Paso, no estado americano do Texas.

Ao todo, havia 68 homens migrantes no local, todos maiores de idade e procedentes da América Central e da América do Sul, em sua maioria venezuelanos. De acordo com as autoridades mexicanas, eles foram detidos por trabalharem ilegalmente nas ruas da cidade como camelôs ou limpando para-brisas.

Corpos de imigrantes foram removidos do Instituto Nacional de Imigração, em Ciudad Juarez, e colocados no estacionamento do local Foto: Jose Luis Gonzalez / REUTERS

O vídeo viralizou nas redes sociais e foi reproduzido por diversos jornais mexicanos, provocando fortes críticas da opinião pública pela suposta inação dos agentes. Em certo momento, a fumaça toma todo o local e só é possível ver o clarão do fogo. No entanto, como as imagens não têm som, não é possível determinar se algo foi dito no momento em que as chamas começaram.

A indignação voltou-se contra o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, que culpou as vítimas pela tragédia, afirmando que o fogo começou quando os imigrantes protestaram contra a detenção. As investigações sobre a origem do incêndio, inédito em uma instituição do tipo, estão a cargo do Procuradoria-Geral e do INM.

‘Isso teve a ver com um protesto que eles começaram, quando, supomos, descobriram que seriam deportados”, disse López Obrador em sua coletiva de imprensa diária na terça-feira, 28. “Em protesto, colocaram colchões à porta do abrigo e atearam fogo neles, não imaginando que causariam essa desgraça terrível”, acrescentou.

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O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, culpou as vítimas do incêndio pela tragédia Foto: Sáshenka Gutiérrez / EFE

As filmagens de câmera de segurança corroboram o relato da esposa de um imigrante venezuelano que sobreviveu ao incêndio sobre a suposta negação de socorro dos agentes. Familiares também reclamaram da falta de informações sobre o paradeiro das vítimas e questionaram os motivos da detenção.

A mensagem da placa diz que "Os 39 mortos em Ciudad Juárez são vítimas, não culpados", foi colada em uma porta da embaixada mexicana em Caracas, Venezuela Foto: Matias Delacroix / AP

Mais de um dia e meio depois do incidente, as autoridades ainda não confirmaram as identidades e o número de falecidos por nacionalidade.

Tampouco a situação dos 28 feridos, alguns em estado grave pela inalação da fumaça. Inicialmente, o número de mortos apontados era de 40, mas foi corrigido para 39 na quarta-feira, 29.

Equipes de resgate estiveram nas instalações do Instituto Nacional de Migração (INM) para prestar socorros, mas 38 pessoas não resistiram  Foto: Luis Torres / EFE

O ministro dos Negócios Estrangeiros do México, Marcelo Ebrard, afirmou na terça-feira que “os responsáveis diretos pelo incêndio” foram entregues aos investigadores, sem especificar quem eram essas pessoas. Governos de países de origem dos migrantes, como El Salvador, cobraram a responsabilização dos culpados.

Em sua coletiva de imprensa diária, o presidente mexicano assegurou que o governo não esconderá os fatos e é contra a violação dos direitos humanos.

“Não vamos ocultar nada e não haverá impunidade”, declarou Obrador, cobrando que a Procuradoria-Geral avance nas investigações e que os culpados sejam “punidos conforme a lei”.

A tragédia de segunda-feira acontece no momento em que o México tenta lidar com o enorme fluxo de migrantes que atravessam o país na esperança de chegar aos Estados Unidos.

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28 pessoas ficaram feridas no incêndio que aconteceu no centro de detenção de imigrantes em Ciudad Juaréz, no México Foto: Jose Luis Gonzalez / REUTERS

Muitos acampam em cidades fronteiriças como Ciudad Juárez enquanto aguardam o fim de uma política americana conhecida como Título 42, da era Trump, que permite que os EUA barrem a entrada de pessoas “para prevenir a propagação de doenças transmissíveis”, justificativa usada durante a pandemia de covid-19.

O presidente americano, Joe Biden, endureceu a política migratória, obrigando migrantes da Ucrânia, Venezuela, Cuba, Nicarágua e Haiti a solicitar asilo a partir dos países pelos quais transitam ou a fazer agendamentos online.

O democrata é acusado pela oposição republicana de ter perdido o controle da fronteira, com mais de 4,5 milhões de pessoas sem documentos interceptadas na região desde que assumiu o cargo.

Em nota, a Anistia Internacional afirmou que o incêndio é “consequência das restritivas e cruéis políticas migratórias compartilhadas pelos governos do México e dos Estados Unidos”.

“Como é possível que as autoridades mexicanas tenham deixado seres humanos trancados sem possibilidade de escapar do incêndio?”, questionou Erika Guevara Rosas, diretora para as Américas da Anistia Internacional, em comunicado.

Durante vigília, menina acende velas com fotos das vítimas que não sobreviveram ao incêndio Foto: Christian Chavez / AP

Um relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da ONU, indica que desde 2014 cerca de 4,4 mil pessoas morreram ou desapareceram na fronteira entre o México e os Estados Unidos, que se estende por 3.180 quilômetros. / AFP e AP

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