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A metamorfose dos campos de golfe extintos que retornaram à natureza; veja fotos

A maioria dos campos de golfe fechados é pavimentada, mas alguns estão sendo transformados em botes salva-vidas ecológicos para a vida selvagem, as plantas e as pessoas

Por Cara Buckley (The New York Times)

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE — Um dos bancos de areia estava coberto de ervas daninhas. Outro tinha blocos de madeira e um castelo de brinquedo, evidência de crianças brincando. As pessoas passeavam com seus cachorros pelo campo, que parecia um tanto desleixado. Era mesmo o que se poderia esperar.

Hoje em dia, esses terrenos são aparados apenas duas vezes por ano e não são encharcados com pesticidas desde 2018, quando esse trecho de 600 mil metros quadrados deixou de ser o campo de golfe San Geronimo e começou sua jornada de volta para a natureza – ou pelo menos para um pouco mais perto da natureza.

Alguns campos de golfe fechados em todo o país foram comprados por fundos imobiliários, municípios e grupos sem fins lucrativos e, depois, transformados em reservas naturais, parques e áreas úmidas. Entre eles estão locais em Detroit, Pensilvânia, Colorado, o Finger Lakes, no norte do estado de Nova York, e pelo menos quatro na Califórnia.

O campo de golfe de San Geronimo está sendo recuperado e reflorestado e agora é conhecido como Bem Comum de San Geronimo Foto: Jim Wilson/The New York Times

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“Percebemos bem rápido o alto valor de restauração, o valor de conservação e o valor recreativo do acesso público”, disse Guillermo Rodriguez, diretor estadual para a Califórnia da organização sem fins lucrativos Trust for Public Land, que comprou o campo de San Geronimo no condado de Marin por US$ 8,9 milhões, em 2018, e o renomeou como Bem Comum de San Geronimo.

Durante um recente passeio pelo terreno, que fica na parte baixa do vale de San Geronimo, a menos de uma hora de carro ao norte de São Francisco, Rodriguez apontou para colinas que servem de habitat para a vida selvagem, como falcões que nos sobrevoavam. “Temos terras públicas de ambos os lados”, disse ele. “Este era o elo perdido”.

A restauração das terras de San Geronimo ainda está em andamento. As planícies aluviais serão reconectadas e uma barreira contra peixes foi removida, permitindo o acesso a áreas migratórias e de reprodução mais robustas para o salmão-prateado e a truta-arco-íris, ameaçada de extinção. Também estão planejadas trilhas que vão contornar habitats sensíveis, fazendo da terra um bote salva-vidas ecológico acessível ao público, totalmente diferente de seus tempos como campo de golfe.

“É um lugar ótimo e lindo”, disse Charles Esposito, 76 anos, aposentado que estava passeando no local. “Adoro isso aqui”.

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Nos últimos anos, a indústria do golfe tomou medidas para aliviar seu impacto ambiental em alguns locais, utilizando menos água, semeando plantas amigas dos polinizadores e diminuindo o uso de pesticidas e fertilizantes.

Os recursos e produtos químicos necessários para manter a grama imaculada fizeram do esporte o inimigo número um dos ambientalistas. Os cerca de 16 mil campos de golfe dos Estados Unidos utilizam 6 bilhões de litros de água por dia, segundo a Associação Americana de Golfe, e são tratados com 100 mil toneladas de nitrogênio, fósforo e potássio por ano.

Os Estados Unidos têm mais campos de golfe do que unidades do McDonald’s e também mais do que qualquer outro país, respondendo por cerca de 42% dos campos de todo o mundo, de acordo com a Fundação Nacional de Golfe.

Esse excesso de oferta, juntamente com as pressões de desenvolvimento, ocasionou mais fechamentos do que inaugurações de campos de golfe desde 2006. O regresso à natureza – ou a uma versão dela – ainda é raridade para antigos campos de golfe, a maioria dos quais acaba nas mãos de incorporadores comerciais ou residenciais, de acordo com a Fundação Nacional de Golfe. Um exemplo recente foi um antigo campo de golfe de 36 buracos em New Hampshire que a Target comprou por quase 122 milhões de dólares, em 2023, para construir um novo centro de distribuição.

A restauração do terreno de San Geronimo ainda está em andamento. Estão planejadas trilhas que contornam o habitat sensível e ajudam a torná-lo totalmente diferente de quando era um campo de golfe. Parte da restauração planejada inclui a reconexão de planícies de inundação que foram alteradas pelo campo de golfe Foto: Jim Wilson/The New York Times

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Para que um campo de golfe se transforme em um espaço verde e público, é necessário alinhar um conjunto improvável de estrelas. Tem de haver um vendedor disposto e, o que é crucial, um comprador preocupado com a conservação, que possa se dar ao luxo não só de comprar o terreno, mas também de o restaurar. De acordo com Eric Bosman, urbanista da empresa de design e planejamento Kimley-Horne, 28 campos foram transformados em espaços verdes e públicos entre 2010 e outubro de 2022.

Mas o número parece estar crescendo aos poucos. Em 2023, o campo de golfe Cedar View, na margem leste do Lago Cayuga, no norte do estado de Nova York, foi comprado pelo Finger Lakes Land Trust. Outra organização sem fins lucrativos, o West Lake Art Conservation Center, planeja transformar os cerca de 900 mil metros quadrados do Lakeview Golf & Country Club, em Owasco, em uma reserva natural.

Embora a reconstituição de um campo de golfe possa desiludir os jogadores, traz grandes benefícios para animais, plantas e pessoas.

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Algumas centenas de quilômetros ao sul de San Geronimo, em um trecho de terra de propriedade da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, a extensão de 250 mil metros quadrados que já abrigou o campo de golfe Ocean Meadows agora é um estuário cercado por pastagens, pântanos salgados e ilhas de sálvia costeira.

Um banco de praça oferece um lugar tranquilo para descansar e apreciar a paisagem Foto: Jim Wilson/The New York Times

O proprietário anterior tinha pensado em vender o campo a um empresário do setor imobiliário, mas foi frustrado pela recessão de 2008, segundo Lisa Stratton, diretora de gestão de ecossistemas do Centro Cheadle para Biodiversidade e Restauração Ecológica da universidade, que administra o terreno. As pessoas da escola pediram ajuda ao Trust for Public Land, que comprou a propriedade por US$ 7 milhões em 2013 e a doou à universidade.

A restauração do terreno de Santa Barbara levou anos e foi financiada por US$ 16 milhões em doações locais, estaduais e federais. Exigiu a realocação de 270 mil metros cúbicos de terra que os desenvolvedores do campo de golfe haviam retirado de planaltos próximos e colocado sobre pântanos, para criar o campo décadas atrás. As áreas úmidas reabilitadas agora reduzem os riscos de inundações e protegem contra a subida do nível do mar, disse Stratton.

A mudança também significou que as casas próximas não estão mais em uma zona federal de inundação. Sem bolas de golfe zunindo, a terra se tornou habitat para aves limícolas migratórias, entre elas maçaricos e narcejas – e até atraiu o misterioso Botaurus lentiginosus. Estruturas rochosas subterrâneas recém-instaladas agora fornecem habitat para coelhos, esquilos e corujas.

Plantas que o governo federal classifica como ameaçadas de extinção, como a Astragalus pycnostachyus e a Chloropyron maritimum, também foram trazidas para a área, como parte de um esforço para mover algumas plantas para o norte, à medida que seus habitats naturais ficam muito quentes. Estudantes da universidade participaram do trabalho de restauração e rastrearam centenas de espécies animais.

Em Palm Springs, Califórnia, o Mesquite Golf & Country Club foi convertido na Reserva Prescott nos últimos anos Foto: Ariana Drehsler/The New York Times

Em Palm Springs, alguns vizinhos do antigo Mesquite Golf & Country Club resistiram aos planos de restaurar o terreno ao seu estado natural, dizendo que preferiam a vista proporcionada por um campo profissional bem cuidado de 18 buracos.

“Tínhamos uma vista muito bonita do campo de golfe até as montanhas”, disse Don Olness, que faz parte do conselho da associação de proprietários de um condomínio vizinho. Mas desde que o Oswit Land Trust comprou o campo de golfe por 9 milhões de dólares, em 2022, a área se encheu de ervas daninhas, árvores mortas e galhos caídos, disse ele. “Virou uma área mal cuidada”, disse Olness.

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Citando um acordo de arrendamento com os proprietários dos campos de golfe, a associação de proprietários entrou com uma ação para interromper temporariamente quaisquer alterações feitas pelo fundo, que comprou o campo com uma doação do filantropo Brad Prescott, e o renomeou como Reserva Prescott.

Um grupo de trilheiros usa as trilhas da Reserva Prescott Foto: Ariana Drehsler/The New York Times

Jane Garrison, fundadora e diretora executiva do fundo, disse que o processo pendente o está impedindo de acessar uma doação multimilionária necessária para restaurar adequadamente o terreno. Mas das cinco propriedades do fundo, a Reserva Prescott logo se tornou a mais popular.

O fundo removeu o veneno do depósito de manutenção do campo, além de pesticidas e armadilhas para esquilos de todo o local, disse Garrison. Ela e seus colegas encontraram coelhos e corujas mortos e um exame confirmou que um esquilo havia morrido após consumir rodenticida, o que deixa predadores como coiotes e linces suscetíveis à sarna.

“Quando você remove todo o veneno e interrompe esse ciclo, você dá a essas espécies a chance de se recuperarem”, disse Garrison.

Embora a restauração esteja apenas começando, as flores e plantas silvestres já reapareceram, disse ela. Cerca de 100 árvores nativas, entre elas salgueiros do deserto, paus-ferros e algarobas, foram doadas por um viveiro local e plantadas. O fundo decidiu manter os lagos no local, mas com água reciclada, porque as mudanças climáticas dificultam que a vida selvagem encontre água.

O grupo espera adquirir mais campos de golfe em Palm Springs, que, apesar de estar no deserto, abriga muitos campos. “Quando o terreno desaparece, é para sempre, porque eles constroem condomínios”, disse Garrison. “Mas quando você salva, ele fica salvo para sempre. E isso não tem preço”.

Embora a restauração esteja apenas começando, a Reserva Prescott agora abriga plantas nativas, incluindo cerca de 100 árvores doadas por um viveiro local Foto: Ariana Drehsler/The New York Times

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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