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Análise|Como salvar uma sociedade triste, solitária, raivosa e mesquinha

Ainda me apego à velha crença de que a cultura é muito mais importante do que a política ou qualquer formação pré-profissional em algoritmos e sistemas de software

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE — Semanas atrás, circulando pela lojinha do Museu de Arte Moderna de Nova York, me deparei com uma sacola onde estava escrito: “Você não é mais a mesma pessoa depois de vivenciar a arte”. É um sentimento simpático, pensei, mas será que é verdade? Ou para ser mais específico: consumir arte, música, literatura e o resto do que chamamos de cultura faz de você uma pessoa melhor?

Aristóteles pensava que sim, mas, hoje em dia, muita gente parece duvidar. As pesquisas mostram que os americanos estão abandonando as instituições culturais. Desde o início da década de 2000, cada vez menos pessoas dizem visitar museus e galerias de arte, ver peças de teatro ou assistir a concertos de música clássica, ópera ou balé.

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Os estudantes universitários estão fugindo das humanidades e correndo atrás das ciências da computação – aparentemente porque concluíram que vantagem profissional é mais importante do que o estado da alma. Muitos professores também parecem ter perdido a fé. Viraram ativistas políticos de raça, classe e gênero. O currículo é cada vez menos “Como George Eliot retrata o casamento?” e cada vez mais “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Mas comigo não cola. Confesso que ainda me apego à velha crença de que a cultura é muito mais importante do que a política ou qualquer formação pré-profissional em algoritmos e sistemas de software. Estou convencido de que consumir cultura fornece à sua mente conhecimento e sabedoria emocional; ajuda você a ter uma visão mais rica e significativa das próprias experiências; ajuda você a entender, pelo menos um pouco, a profundidade do que está acontecendo com as pessoas ao redor.

'Guernica', de Picasso, no Museu Reina Sofia, em Madrid 

A romancista Alice Walker lamentou que lhe faltassem modelos. Ela não conhecia escritoras negras que pudessem lhe servir de exemplo e inspiração enquanto tentava entender seu mundo e contar suas histórias. Tempos depois, encontrou a romancista e antropóloga Zora Neale Hurston, que, décadas antes, tinha apontado o caminho, mostrado como ver e se expressar, possibilitado que ela escrevesse sobre a vida da sua mãe, sobre o vodu, sobre as estruturas do autêntico folclore negro. Graças a Hurston, ela tinha uma nova forma de ver, uma forma mais profunda de se conectar com sua própria herança.

Eu diria que, se ficamos tão tristes, solitários, raivosos e mesquinhos como sociedade, é pelo menos em parte porque muitas pessoas não aprenderam ou nunca se interessaram em adentrar com empatia nas mentes dos outros seres humanos. Estamos cada vez mais politizados e, ao mesmo tempo, cada vez menos moralizados, espiritualizados e cultos.

A saída é redescobrir o código humanista. Esse código se baseia na ideia de que, a menos que você mergulhe nas ciências humanas, talvez nunca se depare com a questão mais importante: como devo viver minha vida?

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Fiz faculdade numa época em que muitas pessoas acreditavam que os grandes livros, poemas, pinturas e peças musicais realmente guardavam as chaves do tesouro. Se você os estudasse com cuidado e profundidade, eles melhorariam seu gosto, suas opiniões, sua conduta.

Nossos professores na Universidade de Chicago tinham aguçado a cabeça e renovado o coração aprendendo com livros e criticando livros. Ardiam intensamente tentando transmitir o que autores e artistas do passado tinham tentado dizer.

Os professores nos acolheram em um grande debate, com tradições de disputa que remontam a Ésquilo, William Shakespeare, George Bernard Shaw e Clifford Odets. Eles delineavam perspectivas extraordinárias, pessoas que tinham visto mais longe e mais profundamente, como Agostinho, Sylvia Plath e Richard Wright. E nos apresentaram uma gama de ecologias morais que foram construídas ao longo dos séculos e que se constituem como conjuntos de valores pelos quais podemos viver: estoicismo, budismo, romantismo, racionalismo, marxismo, liberalismo, feminismo.

A mensagem era que todos nós poderíamos apurar o gosto e o juízo ao nos familiarizar com o que havia de melhor – a mais grandiosa arte, filosofia, literatura e história. E essa jornada rumo à sabedoria se estenderia pela vida toda.

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As ciências exatas nos ajudam a compreender o mundo natural. As ciências sociais nos ajudam a avaliar padrões de comportamento em populações. Mas a cultura e as artes nos ajudam a entrar na experiência subjetiva de pessoas específicas: como este indivíduo em particular se sentia, como este outro ansiava e sofria. Temos a chance de caminhar com eles e, pelo menos um pouco, vivenciar o mundo como eles vivenciam.

Sabemos, por estudos dos psicólogos Raymond Mar e Keith Oatley, que a leitura de literatura está associada ao fortalecimento da empatia. A leitura profunda, a imersão em romances com personagens complexos, o envolvimento com histórias que exploram a complexidade das motivações deste personagem ou das feridas daquele outro, é um campo de treinamento para a compreensão da diversidade humana.

Esse exercício nos possibilita ver as pessoas reais da nossa vida com mais precisão e generosidade, para compreender melhor suas intenções, medos e necessidades – o reino oculto dos seus impulsos inconscientes. O conhecimento resultante não é factual, mas sim emocional.

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O romancista Frederick Buechner certa vez observou que nem todos os rostos pintados por Rembrandt eram notáveis. Alguns são apenas comuns. Mas mesmo o rosto mais simples “é visto de maneira tão notável que nos obriga a vê-lo de maneira notável”. Somos levados a valorizar as outras pessoas, a sentir e respeitar a imensa profundidade de cada alma humana.

As experiências com grandes obras de arte nos aprofundam de jeitos difíceis de descrever. Visitar a Catedral de Chartres ou terminar Os Irmãos Karamazov não é assimilar novos fatos, mas se sentir elevado, mudado, engrandecido. No romance Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke, o protagonista nota que, à medida que envelhece, consegue perceber a vida em um nível mais profundo: “Estou aprendendo a ver. Não sei por quê, mas tudo penetra mais profundamente em mim e não se detém onde sempre se detinha até agora”.

'Cristo Crucificado', de Alonso Cano (1646), no Museu da Real Academia de Belas Artes de San Fernando, em Madri 

Mark Edmundson leciona literatura na Universidade da Virgínia e é um dos que ainda segue o código humanista. Em seu livro Why Read? [”Por que ler?”], ele descreve a carga incorporada a uma grande obra de arte: “A literatura é, creio eu, nosso melhor estímulo para novos começos, nossa melhor oportunidade para o que poderíamos chamar de renascimento secular. Por mais que a sociedade em geral despreze a escrita imaginativa, por mais que aqueles supostamente empenhados em preservar e difundir a arte literária possam menosprezá-la, permanece o fato de que é na literatura que se encontram as grandes esperanças de renovação humana”.

Você não adoraria fazer um curso com esse cara?

Mas como isso acontece? Como a cultura funciona? A resposta mais curta é que a cultura nos ensina a ver. “A melhor coisa que uma alma humana já fez neste mundo foi ver algo e contar com clareza o que viu”, escreveu o crítico de arte vitoriano John Ruskin. “Quando centenas de pessoas sabem falar, apenas uma consegue pensar, quando milhares sabem pensar, apenas uma consegue ver”.

Sua maneira de perceber o mundo se torna sua maneira de estar no mundo. Se seus olhos aprenderam a ver – mesmo que só um pouco – da maneira como Liev Tolstói via, se seu coração consegue sentir tão profundamente quanto uma canção de k.d. lang, se você entende as pessoas com tanta complexidade quanto Shakespeare, então você melhorou a maneira como vive a vida.

Um dos meus heróis é Samuel Johnson, ensaísta, dramaturgo, poeta e dicionarista, um dos maiores críticos de todos os tempos. Ele teve uma juventude um tanto desleixada – era preguiçoso, invejoso, pouco confiável. Ao longo das décadas, porém, leu, escreveu e tateou seu caminho rumo à grandeza. Lia com uma sensibilidade impressionante. Certa vez, aos 9 anos, estava lendo Hamlet e chegou à cena do fantasma. Ficou tão apavorado que correu até a porta da frente para ver as pessoas na rua, só para se lembrar de que ainda estava na terra dos vivos.

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Johnson escreveu biografias de seus modelos morais. Compôs ensaios, poemas e peças de teatro sobre as grandes obras da tradição ocidental – e especialmente sobre seus próprios pecados, como se estivesse tentando expulsá-los de si mesmo com o flagelo do autoexame. (Johnson tinha uma fraqueza na inveja e, por isso, dezenas de ensaios nas suas publicações mencionam o pecado da inveja). Sua consciência da depravação humana levou à humildade, ao autocontrole e à redenção. E deu certo.

No final da vida, ele era extremamente generoso, um homem que conseguia ver o mundo com absoluta honestidade e empatia. Johnson convivia com artistas e estadistas, mas convidou marginalizados da sociedade a viverem com ele, para que pudesse lhes oferecer alimento e abrigo: um ex-escravizado, um médico que tratava dos pobres, um poeta cego. Certa noite, encontrou uma mulher – provavelmente uma prostituta – doente e exausta na rua. Ele a carregou nas costas e a levou para casa. Johnson era um cristão um tanto torturado. Esses momentos radicais de acolhimento são os atos fundamentais do Evangelho.

Quando morreu, seu panegírico observou que ele deixava um vazio na vida nacional que nada poderia preencher. Ele encarnava esse velho ideal humanista. E se tornou uma pessoa de bom gosto, uma pessoa sensata, uma pessoa de cultura. Morreu um homem maravilhoso.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times.

/ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Análise por David Brooks

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