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Análise|Depois de superar a dependência da heroína, será que os analgésicos que tomo vão me prejudicar?

Contei aos meus amigos que passaria pelas cirurgias e pedi ao meu marido que me buscasse depois dos procedimentos. Ele também pegou minha receita – só para alguns dias de suprimento, o que é outra precaução útil

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE — No verão setentrional passado, descobri que eu precisava passar por uma cirurgia oral complexa, incluindo extrair alguns dentes e fazer enxertos ósseos e implantes. Fazia anos que eu temia essa possibilidade, mas já não dava para adiá-la.

Além do medo da dor e da desfiguração temporária em consequência da falta de dentes, eu tinha outra grande preocupação: na casa dos 20 anos, fui viciada em heroína. Se as dores decorrentes dos dois procedimentos agendados fossem muito intensas, eu poderia precisar tomar opioides.

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Durante minha dependência, embora tenha usado bastante cocaína, a heroína era meu verdadeiro amor. Fazia com que eu me sentisse segura, aquecida, nutrida – o oposto da pessoa desprezível que eu temia realmente ser. Pesquisas atuais em neurociência mostram que os opioides naturais produzidos pelo cérebro são uma parte essencial do sistema de criação de conexões e vínculos sociais, de modo que, para pessoas como eu, que têm dificuldade em se sentir amáveis, essas drogas podem parecer um paraíso.

Como especialista em toxicodependência, eu sabia que, com a exposição médica a opioides, eu não estava necessariamente predeterminada ao uso compulsivo de drogas – mas também estava ciente de que era sensato ser cautelosa ao abrir uma porta que poderia me levar de volta ao meu passado.

Dor, dependência química e determinação: uma jornada de resiliência  Foto: Natee Meepian/Adobe Stock

Existe a crença comum de que pessoas com histórico de toxicodependência nunca devem tomar substâncias potencialmente viciantes por questões de saúde – ponto-final. Como resultado, algumas sofrem com dor extrema porque acreditam que a exposição aos compostos químicos fará com que percam o controle e voltem imediatamente à dependência ativa.

“Mas a verdade é que, enquanto a euforia associada às drogas pode ser um gatilho, o estresse causado por uma dor intensa também coloca a pessoa em risco de recaída”,

disse a dra. Sarah Wakeman, professora associada da Escola de Medicina da Universidade Harvard.

Felizmente, o próprio dr. Dennis Bohlin, meu dentista principal, está em processo de reabilitação, e pôde me ajudar a lidar com esses riscos. Mas muita gente não tem essa sorte.

Há muita desinformação sobre como o tratamento da dor com opioides afeta quem está em recuperação e quem tem alto risco de dependência. Compreender como as drogas psicoativas e a dependência realmente funcionam é crucial para gerenciar melhor o uso médico de opioides – e acabar com políticas que interferem na prevenção e na recuperação.

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“Não existe uma única resposta correta sobre como tratar as pessoas em recuperação com opioides”, afirmou a dra. Wakeman, que também é diretora médica sênior de transtorno do uso de substâncias no Hospital Geral Brigham, de Massachusetts. Com muita frequência, os médicos não tratam de modo adequado a dor em pessoas com dependência, mas alguns também, injustamente, desconsideram os medos de desencadear o desejo, acrescentou ela, enfatizando que a abordagem ideal se concentra nas preocupações do paciente.

Ainda assim, existe uma forte convicção na comunidade médica de que os analgésicos representam um risco maior para as pessoas em recuperação do que simplesmente não tratar a dor. Parte desse pensamento está relacionada à ideia imortalizada no slogan dos Alcoólicos Anônimos: “É o primeiro gole que te deixa bêbado.” É uma verdade indiscutível que, se nunca tomar o primeiro gole, você não estará em perigo de se desinibir e dar continuidade ao uso descontrolado de drogas.

Mas também é verdade que a perda de controle não é absoluta ou totalmente determinada pela farmacologia. Uma série de estudos inovadores elaborados por Alan Marlatt, da Universidade de Washington, renomado pesquisador em dependência, explica o motivo.

Para esses experimentos, o dr. Marlatt trabalhou com pessoas com distúrbios relacionados ao uso de álcool que tinham rejeitado o tratamento. Em um ambiente semelhante a um bar, foram convidadas para experimentar várias bebidas. Algumas eram vodca tônica, enquanto outras não continham álcool, mas vinham disfarçadas como coquetéis.

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Se é verdade que o primeiro gole cria um desejo incontrolável no cérebro, os grandes consumidores de álcool que participaram desses estudos deveriam ter ingerido mais bebida depois de tomar os primeiros tragos de álcool do que quando receberam os coquetéis falsos. Mas, na verdade, quando foram informados de que sua bebida continha álcool – mesmo que fosse só placebo –, os participantes beberam mais.

O inverso também aconteceu: quando recebiam bebidas placebo rotuladas como alcoólicas, o consumo resuziu. Em outras palavras, foi a convicção de que a exposição ao álcool leva à perda de controle que aumentou sua ingestão – e não o álcool em si.

Essas descobertas não significam que quem tem distúrbios graves relacionados ao uso de álcool pode simplesmente moderar seu consumo alterando suas crenças, nem mudam o fato de que a abstinência muitas vezes é mais segura, mas mostram que a exposição por si só não aciona automaticamente a perda de controle, mesmo para aqueles com dependência.

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Isso ajuda a explicar por que medicamentos opiáceos como a buprenorfina e a metadona podem ser usados para tratar pessoas dependentes de opioides. Quando administrados regularmente em doses adequadas e individualizadas, podem funcionar tão bem nesses pacientes quanto em qualquer outra pessoa, mesmo que tomem uma dose diária de opioide.

O preconceito que rotula os viciados como hedonistas egocêntricos complica ainda mais a ideia de que essas substâncias não devem ser administradas, mesmo em casos em que os níveis de dor seriam considerados intoleráveis em outras pessoas. Na realidade, os dependentes têm muito mais probabilidade de relatar problemas de saúde mental, o que pode levá-los a buscar alívio químico.

Pode ser que, para algumas pessoas, por razões que não são totalmente compreendidas, a própria dor reduza a intensidade ou a sensação de euforia dos opioides Foto: Lucy Susan Jones/The New York Times

No meu caso, a depressão e um transtorno do espectro autista não diagnosticado me levaram à dependência. Eu queria desesperadamente me relacionar com os outros, mas não me sentia digna, a ponto de achar que a única maneira de as pessoas fingirem gostar de mim era ter algo que elas quisessem – drogas, por exemplo. Viver com tanto ódio de mim mesma exigia anestesia. Minha recuperação consiste em desativar esse sentimento com técnicas cognitivas, antidepressivos e, principalmente, laços sociais genuínos.

Portanto, quando passei pelas duas cirurgias, tomei medidas para fortalecer meu suporte de recuperação e minimizar os riscos. Uma das maneiras de tornar isso mais seguro é saber o que esperar. A ansiedade pode aumentar a dor, enquanto ter uma sensação de previsibilidade e controle a reduz. O dr. Bohlin, com quem me consulto há mais de 20 anos, é especialista em fazer com que os pacientes se sintam seguros e em maximizar a sensação de autonomia.

Outro ponto-chave é o papel da conexão social. No que se refere à própria recuperação, o dr. Bohlin diz: “O segredo é que me apaixonei mais pela minha recuperação do que pela minha droga”. A respeito dos grupos de 12 passos – método utilizado em programas de recuperação, como os Alcoólicos Anônimos (AA) e os Narcóticos Anônimos (NA), para ajudar pessoas que lutam contra a dependência –, ele relatou:

“Eu me sentia seguro, amado e querido. E era isso que eu realmente queria, mais do que a droga”.

Os opioides naturais do cérebro – incluindo as endorfinas – são cruciais para a fisiologia do alívio do estresse. Normalmente, esses neurotransmissores são liberados quando somos acalmados por pessoas queridas, gerando uma sensação de calma e contentamento. É por isso que a conexão social pode aliviar tanto a dor física quanto a emocional – e o motivo pelo qual sua ausência é um fator de risco para o vício e para a recaída.

Portanto, contei aos meus amigos que passaria pelas cirurgias e pedi ao meu marido que me buscasse depois dos procedimentos. Ele também pegou minha receita – só para alguns dias de suprimento, o que é outra precaução útil. Se eu tivesse desejos, pediria a ele que guardasse os medicamentos para mim, como recomendam os especialistas. Para aqueles em processo de recuperação em 12 passos, o apoio de um padrinho também é recomendado.

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Senti menos ansiedade e dor porque sabia que o alívio estava disponível, se necessário. Tomei seis comprimidos de opioide durante o período de duas cirurgias distintas, mas nenhum desejo foi desencadeado. Houve um momento em que tive a sensação de que meu corpo estava em paz perfeita e detectei uma vaga lembrança de ter amado essa experiência anteriormente.

Mas isso não foi avassalador ou sedutor – nem valioso a ponto de arriscar a vida que tenho agora. Uma vida que vale a pena ser vivida – na qual você se sente profundamente conectado aos outros, possui as ferramentas necessárias para lidar com o sofrimento e tem um forte senso de propósito – é a melhor defesa contra a dependência.

Pode ser que, para algumas pessoas, por razões que não são totalmente compreendidas, a própria dor reduza a intensidade ou a sensação de euforia dos opioides. Isso também pode ser parte do motivo pelo qual não tive mais desejos.

Tendo o apoio e as precauções mencionados acima, os dependentes que precisam de cuidados para a dor podem ser tratados de maneira humana e eficaz, com o controle do acesso a medicamentos e o fornecimento do suporte necessário a elas. Alguns ainda podem optar por evitar a exposição às medicações – mas ninguém deveria ser deixado em agonia por uma falsa crença de que isso o protege da dependência.

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Análise por Maia Szalavitz

Maia Szalavitz é colunista de Opinião do 'The New York Times' e, mais recentemente, autora de 'Undoing Drugs: How Harm Reduction Is Changing the Future of Drugs and Addiction'

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