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Baixando pares de tênis

Especialista em novos modelos de negócio, Matt Mason fala do futuro da impressão 3D e suas consequências

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Por Rafael Cabral
( Foto: Flickr/PopTech)

O jornalista Matt Mason é especialista em novos modelos de negócio surgidos com a internet. Em seu livro The Pirate’s Dilemma (baixe aqui), que explica como a pirataria pode reinventar o capitalismo, ele afirma que as impressoras 3D podem levar as polêmicas do mundo digital para o real.

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Se até objetos podem ser recriados em casa com o auxílio de um aparelho desses, como ficam os direitos autorais? Com máquinas de produção rápida se popularizando, surgiria uma espécie de P2P de coisas. “A internet mudou o jogo para tudo que podia ser transmitido eletronicamente. Agora é a vez mundo material. Em breve, nós mesmos podemos estar produzindo nossos objetos”, escreveu. Conversei com ele sobre o futuro dessa tecnologia:

Todos terão uma impressora 3D? Quão distantes estamos do “download de pares de tênis” que você propõe no seu livro?

Já é possível ter uma delas. Companhias como a MakerBot já estão mandando várias delas para todo o mundo. Se elas vão ou não se tornar mainstream é primeiramente uma questão cultural – existem várias tecnologias legais que poderíamos estar usando, mas nunca pegaram.

Com as impressoras 3D se tornando cada vez mais versáteis e úteis, faz sentido que mais pessoas queiram usá-las. Eu acho que estamos a uma década de baixar nossos próprios tênis e de preocupar empresas como a Nike.

Quais os principais desafios para o desenvolvimento dessas tecnologias? A indústria e as marcas estão interessadas em ajudar ou estão preocupadas?

No momento, impressoras 3D não têm uma aplicação matadora, que ande junto com o desenvolvimento das máquinas. A música já teve. Foi o compartilhamento de arquivos que tornou a internet tão poderosa e subversiva, logo no seu começo. Agora, a coisa mais legal que uma impressora 3D pode oferecer é uma versão física do seu avatar no World of Warcraft, o que não é tão legal como música de graça. Pares de tênis de graça e ao custo de um clique, por exemplo, tornariam a tecnologia popular.

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Alguns fabricantes de impressoras 3D querem torná-las mainstream e acham que elas facilitarão o surgimento de novas Apples e Microsofts pelo mundo. Quando você conversa com eles, todos estão muito empolgados com as possibilidades e com o que pode acontecer. Eu não acredito que muita gente se sinta ameaçada por essas tecnologias ainda, já que ainda não há ameaça. Nenhuma das gravadoras se sentiu ameaçada pelo conceito da internet nos anos 80. E a maioria ainda não havia se tocado nos anos 90, também.

As maiores implicações da popularização das impressoras 3D são econômicas e legais, já que essas tecnologias podem dar aos cidadãos a chance de parar de consumir grande parte dos produtos industriais e produzir os seus. Distopia demais ou alguém pode tentar proibir esse desenvolvimento, como fizeram com o compartilhamento de arquivos?

Elas são uma oportunidade, não um problema. Se de fato as pessoas começarem a usá-las, acredito que se formará uma comunidade que poderá brigar com quem se sentir incomodado. A indústria, pequenas cadeias de manufatura ou empresas que produzem acessórios: todas elas ficariam muito tristes se essa área engrenasse.

Novos pensamentos econômicos e modelos de negócio surgiriam, e acredito que eles achariam a fórmula que o mundo digital ainda não encontrou. Parte dos problemas da internet vazariam para o mundo real, mas várias possibilidades apareceriam. Não seria o fim do capitalismo – apenas um incentivo para novos negócios e ideias econômicas e uma pá de cal nos sistemas antigos.

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Para o inventor Adrian Bowyer, criador de uma impressora 3D que pode se reimprimir, “a engenharia está fazendo as coisas erradas desde a revolução industrial”. Você acredita nisso? É interessante para a indústria de tecnologia vender impressoras que podem criar outras impressoras?

Ele quis dizer que a natureza sempre foi mais eficiente em se reproduzir do que as máquinas. O dispositivo que pode se replicar é um enigma para a indústria. Se uma máquina assim se tornasse popular, poderíamos espalhar duas coisas: materiais e informação, e é isso que assusta as pessoas. Mas não é isso que as empresas vendem.

Elas vendem histórias sobre as coisas que produzem, o que não mudará com a popularização das impressoras 3D. Sempre compraremos produtos justificados com boas histórias. A Nike, por exemplo, não é dona de nenhuma fábrica de tênis. Ela gasta muito mais dinheiro fortalecendo sua marca e criando anúncios. Já vivemos em um mundo em que a história é a única coisa que vale algo.

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O editor da Wired, Chris Anderson, está escrevendo um livro sobre uma “nova revolução industrial” que surgiria com a união de modelos open source, pequenas fábricas e impressoras 3D. O que você acha da ideia dele? Acredita no surgimento de um novo meio de produção?

Acredito que ele tem um ponto, como sempre. Um novo meio de produção, baseado em impressão 3D, já está aí – só é muito pequeno, no momento. Está crescendo, com certeza, mas se ele vai ou não se tornar grande depende de várias coisas, sendo que a maioria não tem nada a ver com o quanto a tecnologia é boa.

É difícil prever onde a impressão 3D vai chegar, já que existem tantos fatores culturais e sociais que não podemos prever. Vivemos em um mundo em que políticos tomam decisões porque pessoas lhes dão sacos de dinheiro. Grandes decisões envolvendo o que é aceitável ou permissível nem sempre são governadas pelo pensamento racional, ou por aquilo que é melhor para a sociedade.

A única coisa que é certa é que essa tecnologia está se sofisticando muito rapidamente. Se continuar assim, teremos decisões importantes a tomar. Mas se aprendemos algo com a era digital é que tecnologias que são boas e úteis tendem a ganhar o jogo, mesmo se proibidas.

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