Cena de startups do Recife passa por renovação

Com mais de 250 empresas de tecnologia, polo da capital de Pernambuco chega aos 15 anos de existência como referência em inovação e ostentando nova geração de empreendedores

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Por Murilo Roncolato
6 min de leitura

*Segunda reportagem de série sobre as principais cenas de startups do Brasil; ao longo das próximas semanas, além de Belo Horizonte e Recife, visitaremos Florianópolis e São Paulo

 

RECIFE – O Porto Digital, iniciativa voltada ao fomento de novos negócios de tecnologia no centro histórico de Recife, já teve o nome provisório de Delta do Capibaribe. A referência geográfica no título foi inspirada no famoso Vale do Silício, o que já indicava as pretensões do polo que surgia. Hoje, o território passa por uma renovação. Nas suas antigas ruas, empresários tradicionais da área de tecnologia hoje passam a conviver com inquietos empreendedores ansiosos por transformar suas ideias em startups de sucesso.

O Porto Digital, parque tecnológico distinto pela excelência na produção de software e serviços, chega a 2015 se “remoçando” com essa geração de empreendedores, que trazem novas organizações, metodologias e demandas, como a necessidade de aceleradoras (que as auxiliam a crescer mais rapidamente), e cobram mais ousadia por parte dos poucos investidores de capital de risco do Recife.

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Localizado na ilha que abriga o centro histórico e o Marco Zero, o Porto nasceu com a ideia de promover um ambiente mais propício a novos negócios na área de software – através de incentivos fiscais, por exemplo – no bairro do Recife Antigo.

Para isso, a organização social responsável pela gestão do território tratou, logo no início, de convidar o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) para o bairro. Com a presença desse núcleo privado de pesquisa, inovação e gestação de novos negócios, o ambiente ideal estava criado. Hoje, são mais de 250 empresas e instituições instaladas, gerando 7,1 mil empregos diretos e movimentando cerca de R$ 1 bilhão por ano.

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“O C.E.S.A.R e o Porto Digital acabaram formando o alicerce do lugar, junto com as primeiras empresas que se fizeram nesse ambiente. O que está acontecendo agora é que estamos vendo o que está sendo construído em cima disso tudo”, diz Vitor Andrade, gerente de operações do programa federal de incentivo Startup Brasil. “É interessante ver surgirem novas lideranças nos últimos anos, pessoas que organizam eventos com o Startup Weekend, o Startup Meetup, e que se juntam às lideranças antigas e à universidade”, disse.

 

Francisco Saboya, atual presidente do Porto Digital, acompanhou a nova movimentação e entendeu que precisava mudar para manter a região atraente. “Precisávamos então de três coisas: aceleradoras, maior articulação com investidores e fundos, e espaços de coworking”, disse. Este último, foi minimizado naturalmente, com a chegada da rede internacional Impact Hub no Recife, em 2013. A aceleradora veio com o lançamento da Jump Brasil no mesmo ano; já a rede de investidores ainda passa por formação, mas ganha membros, a maioria empreendedores de sucesso da própria região.

 

“Essa cena emergente das startups do jovem empreendedor inovador tem muito mais velocidade e precisa de aceleração, e não mais de uma incubadora. Tem que trabalhar em espaços abertos em conexão direta com outras pessoas, trocando”, diz Saboya. “A gente dialoga com essa nova geração reconhecendo sua importância, participando desses espaços, e direcionando nosso esforços para essa nova onda.”

O executivo destaca a criação do Porto Mídia, estrutura voltada para atender empreendedores nas típicas áreas de economia criativa: fotografia, games, design, música e cinema. Além disso, pretende levar estruturas semelhantes, chamadas Armazéns da Criatividade (sob o custo de R$ 13 milhões cada), a cidades universitárias no interior do Estado, como Caruaru e Petrolina.

Sergio Cavalcante, superintendente do C.E.S.A.R, também observa a presença de “uma série de pessoas que estão fazendo coisas independentemente de C.E.S.A.R ou Porto Digital”, citando a comunidade em torno do Impact Hub e do novo Fab Lab de Recife, oficina de criação que oferece equipamentos como impressoras 3D para uso do público.

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Mas como sempre há obstáculos no percurso, Cavalcante destaca que é importante também que essa nova geração aprenda com as instituições mais experientes. “O que vemos, na maioria, é gente vindo com ideias que são aplicativos voltados para o consumidor final. Todos querem ser o novo Facebook. Para nós, o interessante é abrir a cabeça dessa moçada e fazê-los pensar antes em encontrar problemas mais relevantes para serem resolvidos, que normalmente estão aqui do lado, são locais.”

 

Cara nova

Os tais jovens são figuras que se envolvem em comunidades virtuais – em Recife, a mais popular se chama Manguezal – que promovem encontros e eventos regulares. Entre eles, estão os da rede internacional Startup Weekend, que reúne interessados em empreendedorismo, além de programadores e designers, e propõe a criação de produtos ou serviços que devem ser concluídos durante um final de semana.

O evento ganhou em Recife subedições, voltadas para temas específicos, como o Startup Weekend Edu (para soluções em educação), Sertão (realizado em Serra Talhada e agora em Petrolina), e os estreantes Youth (realizado por jovens de 11 a 13 anos), Change Maker (com a presença de líderes de comunidades carentes) e a UFPE (que acontece com estudantes da universidade).

“O Startup Weekend aproxima e conecta pessoas com talentos diferentes para uma ideia maior”, diz Raoni Valadares, à frente da edição Sertão. “E também dá suporte, colocando pessoas que já passaram por isso para contar sua experiência como mentores.”

Mayara Pimentel, responsável pela versão Change Maker, comenta que todo o rebuliço que se vê na região do Porto Digital pelas startups se deve mais ao ambiente favorável do que pelo incentivo fiscal. “O benefício é interessante só para empresas que já estão estabelecidas. Para startups, isso nem entra como um fator”, diz. “Para essa galera mais jovem, as startups representam a melhor forma de testarem suas ideias e alcançar o sucesso profissional. É por isso que elas estão aqui.”

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O quadro desenhado por Pimentel se aproxima do contado por Antonio Filho, administrador, de 25 anos, que venceu a última edição do Startup Weekend Recife. Ao lado de Rafael Montenegro, ambos passaram a atuar na organização de edições do evento e agora se dedicam à startup recém-criada Pegueeei, que exibe promoções por geolocalização. “Larguei um emprego na sexta retrasada. Minha mãe perguntou se eu sabia o que estava fazendo. Eu respondi: ‘Acho que sim, mas fica tranquila’.”

Aglomerado

Os diferentes universos, no entanto, se beneficiam mutuamente na proximidade da ilha recifense. “As empresas interagem muito mais, é tudo muito acessível, nos cafés, nos restaurantes”, conta Fred Vasconcelos, fundador da veterana de games Joy Street.

Para Francisco Saboya, do Porto Digital, a aglomeração territerial foi fundamental para o sucesso da região. “No fundo, o que a gente faz aqui é trazer gente interessante, e gente interessante em contato com gente interessante gera fagulhas que são extremamente produtivas”, diz.

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