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Chuva de dados

Um problema e um final de semana para executar uma ideia que pode salvar vidas. Como eles embarcaram em uma maratona e criaram projetos úteis em 48 horas

Por Tatiana Mello Dias
Atualização:
 Foto: Estadão

??? Um problema e um final de semana para executar uma ideia que pode salvar vidas. Como eles embarcaram em uma maratona e criaram projetos úteis em 48 horas

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SÃO PAULO – O final de semana ensolarado poderia servir para um bate-e-volta à praia, uma manhã no parque ou uma tarde preguiçosa. Mas Matheus Bánffy, 15 anos, andava de um lado para outro da sala em que outras dezenas de programadores discutiam códigos, línguas e problemas.

Casaco de moletom e boné, ouvia, opinava e voltava aos códigos no computador. Trabalhava fazendo uma tela de login para uma rede social destinada a voluntários — era um dos projetos do Random Hacks for Kindness (RhoK), evento capitaneado por gigantes como Google, Nasa, Microsoft, Yahoo e Banco Mundial para reunir quem entende de tecnologia para criar aplicativos para a população.

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O Rhok aconteceu em 19 cidades e, em sua terceira edição brasileira, reuniu pelo menos 80 pessoas interessadas em apresentar problemas e discutir soluções que passem pela tecnologia para ajudar na prevenção e atuação após desastres. “Temos iniciativas grandes de dados abertos e também de apoiar o software livre e democratizar a tecnologia”, diz Joaquim Toro, especialista em gestão de desastres do Banco Mundial, que coordena a edição brasileira da maratona.

Matheus está aprendendo a programar com o pai, Ricardo Bánffy, programador experiente nesse tipo de maratona. Instalados em uma sala na zona sul de São Paulo, programadores de várias linguagens abriram mão do final de semana para programar nos projetos do RhoK.

Para evitar desastres. O evento funciona assim: de um lado, especialistas nas áreas (neste caso, desastres) apresentam os problemas. Foi durante um Rhok, por exemplo, que surgiu o People Finder, do Google, usado para localizar desaparecidos em casos de tragédia.

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Por aqui, os problemas eram vários: falta de pluviômetros, escassez de mecanismos de alerta, falta de organização nos dados da Defesa Civil. Problemas definidos, os programadores escolhem uma área e começam a quebrar a cabeça atrás de soluções.

Agostinho Ogura, pesquisador do Laboratório de Riscos Ambientais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), apresentou um dos problemas: é preciso estender — e muito — a rede de pluviômetros. Os aparelhos são relativamente baratos e há versões feitas até em garrafas PET, mas todas demandam alguém para monitorar. Como construir um pluviômetro barato e automatizado? O grupo vencedor escreveu algoritmos complicados e chegou a uma solução: uma máquina fotografaria a imagem e os algoritmos transformariam a foto em um dado pluviométrico. Os testes foram feitos em copos de café. Deu certo. O projeto levou o primeiro lugar, tanto pela criatividade quando pela proposta, que inclui espalhar o mecanismo por escolas para transformá-las em pequenas estações pluviométricas. “A solução tem grandes chances de ser aplicada. Vamos tentar fazer um piloto na cidade e replicá-la para outros locais”, diz Ogura.

“Como ‘hack’, avaliando a engenhosidade, o uso ‘criativo’ dos recursos técnicos, eu achei o projeto vencedor genial”, diz Bánffy. O projeto em que ele e seu filho trabalharam também mereceu destaque. Eles criaram a RhoK Bush, uma rede social em que voluntários cadastram suas habilidades e são acionados por mensagem de celular, dependendo da localização das ocorrências. “É uma ferramenta quase pronta para organizar pessoas com interesses similares ou complementares”, diz Bánffy.

O Rhok Bush, escrito em Python, tem o código disponilbilizado de forma livre — essa, aliás, é uma exigência do evento. Tudo deve ser feito em software livre para ser aproveitado por outros projetos em outros países, se for o caso. Um dos responsáveis pela rede, Bruno Gola, diz que pretende continuar trabalhando no projeto — afinal, foram apenas dois dias de evento, tempo em que é preciso estudar a ideia e apresentar um produto pronto.

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Ele foi até o evento, no final da Marginal Pinheiros, de bicicleta. Passou ali o sábado e o domingo — o final do primeiro dia foi fechado com uma pizzada. E mergulhou na maratona de programação por diversão — e também por um pouco de engajamento, é claro. “Acho legal por acreditar que hackers podem atuar politicamente usando seu conhecimento da rede”, diz ele. Há outro motivo claro pelo qual eles estavam lá, juntos, e não remotamente em suas casas: a troca de experiências nesse tipo de ambiente ajuda muito no trabalho.

Sem plateia. “O que acho legal nesse formato de evento é que é uma coisa mais bagunçada, não é como uma grande conferência com palestrantes e uma plateia. Todo mundo participa, todos interagem. É uma coisa mais descentralizada”, diz Gola. “Dá para aprender muito mais nesse modelo de evento do que em conferencias tradicionais, onde você fica sentado escutando alguém falar a maior parte do tempo.”

Bánffy vai na mesma linha. Não é qualquer profissional que passa o final de semana trabalhando em troca de pizza, não é? “É que, no fundo, fazemos isso por diversão. Eu adoro aprender coisas novas”, diz.

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Seu filho já programa os robôs de Lego que são feitos na escola. No Rhok, diz o pai, ele “fez um bom trabalho”. Ele está aprendendo programação aos poucos – Ricardo diz que não quer forçar e ainda está pensando na melhor maneira de ensinar. E ele adorou ter participado da maratona hacker. Tanto é que pediu para ir ao Fórum Internacional do Software Livre, que acontece em Porto Alegre no final do mês. O pai não deixou — o garoto tem aula.

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