Em testes comerciais nos EUA, 5G atrasa no País por entraves regulatórios

Operadoras brasileiras aguardam definição de faixa de frequência da Anatel para realizar testes da tecnologia em maior escala

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Por Mariana Lima
Atualização:
Inatel desenvolveu uma tecnologia nacional de 5G e quer conectar áreas que ainda não tem acesso à internet Foto: Inatel

Desde o início do mês, nos Estados Unidos, já é possível acessar a internet do futuro: basta entrar em uma loja da operadora Verizon e instalar, em um dos poucos celulares já compatíveis, um chip de internet 5G – apelido dado à tecnologia de conexão móvel de quinta geração. Por enquanto, a diferença só aparece na velocidade maior do tráfego de dados. No futuro, no entanto, ele será a base para o funcionamento de avanços como carros autônomos e cidades inteligentes. Enquanto as operadoras americanas já avançam na conexão de quinta geração, aqui no Brasil entraves regulatórios impedem experimentos em escala maior. 

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Ao contrário do salto entre as gerações anteriores (2G, 3G e 4G), o 5G não trará só ganhos na velocidade. Segundo especialistas, a conexão é mais segura e mais estável, conseguindo suportar um número maior de aparelhos conectados a um mesmo ponto de transmissão. Além disso, ela tem um tempo mais curto de resposta na emissão de um sinal entre o dispositivo e a antena da operadora (latência). Também é mais eficiente no gasto de energia. 

Juntas, essas características vão permitir que objetos “conversem” entre si de forma eficiente, sem a interferência de humanos. É o que vai possibilitar, em breve, ganho de escala em inúmeros avanços tecnológicos – de cidades inteligentes a carros autônomos, passando por casas e empresas conectadas. “Já podemos pôr veículos sem motorista nas ruas, mas a conexão 4G de hoje não é segura a ponto de evitar acidentes”, diz Wilson Cardoso, diretor de soluções da Nokia. 

Lá e cá. Para funcionar em escala global, a tecnologia ainda precisa passar por uma série de regulamentações, em um processo liderado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) . Isso não freou, no entanto, o avanço de empresas e governos. Nos EUA, a agência reguladora de telecomunicações (FCC, na sigla em inglês) liberou faixas de frequência para testes em larga escala do 5G. Prevê para novembro as primeiras licitações de espectro. Além da Verizon, que já testa o serviço comercialmente, as operadoras AT&T e T-Mobile também pretendem oferecer planos no início de 2019. O mesmo deve acontecer no Japão e na Coreia do Sul, preveem teles locais. 

No Brasil, por conta de custos, as operadoras estão mais cautelosas e aguardam a UIT definir parâmetros para fazer testes em larga escala. Também esperam a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decidir quais faixas de frequência poderão ser usadas para o 5G. Na última semana, a agência sinalizou que pretende leiloar espectros nas frequências de 2,3 GHz e 3,5 GHz, no segundo semestre de 2019. 

Depois disso, ainda são necessários meses para “limpar” a frequência, evitando interferências, antes de liberar a faixa para funcionamento comercial. “Ainda estamos negociando com o governo. Se tudo der muito certo, teremos o 5G no País apenas daqui a três anos”, ressaltou Sami Foguel, presidente da TIM, durante a Futurecom, evento de telecomunicações realizado na última semana em São Paulo. 

Para não ficar para trás, as quatro principais operadoras do País – Vivo, Claro, TIM e Oi – fazem testes em laboratório e buscam investir em equipamentos de 5G também compatíveis com 4G . Mesmo quando estiver disponível, a tecnologia não deve ter adesão instantânea. “Não dependemos só da frequência para tornar o 5G uma realidade”, diz Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco. Para José Félix, presidente do grupo Claro, o 5G começará a ser adotado por soluções específicas, como demandas da indústria, antes de estar disponível para a população. 

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Uma combinação de entraves impede a adoção em larga escala do 5G. Eles vão da falta de aparelhos que já possam usar a tecnologia à demora na aprovação para instalação de antenas – um gargalo já existente na cobertura do 4G. As operadoras também pedem regras e tributos mais flexíveis para poder destravar seus investimentos nos próximos anos. São fatores que podem nos impedir de ver, assim que possível, carros autônomos rodando no País. No futuro, quem sabe, a rota pode ser diferente. / COLABOROU CIRCE BONATELLI

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