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Streaming de música entra na ?adolescência?

Criados há quase uma década, serviços de streaming de música ainda pensam mais no crescimento do que no lucro; para executivos, a palavra de ordem é ‘evangelizar o usuário’ antes de tornar suas empresas rentáveis com assinaturas e anunciantes

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Divulgação

 

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Se fossem pessoas, os serviços de streaming de música começariam agora a lidar com os desafios e crises típicos da adolescência. Após a euforia do anúncio de que iria abrir capital, em setembro, se passou apenas um mês até que o Deezer desistisse dos planos. Logo depois, em novembro, usuários do Rdio foram surpreendidos com o fim das atividades da empresa. De quebra, a cantora Adele decidiu deixar seu terceiro álbum – o maior sucesso do ano da indústria fonográfica – fora da biblioteca de todos os serviços. As más notícias não param por aí: embora se tornem cada vez mais populares, os serviços de streaming ainda operam com prejuízo.

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Uma parte dessa crise tem a ver com a expectativa que a indústria da música depositou nessas empresas. Eles foram apontados como a primeira solução de peso para a “crise financeira” do setor. Desde 1999, quando o mercado da música viveu seu melhor ano na história com faturamento de US$ 28,6 bilhões, as receitas desabaram: em 2014, o setor faturou US$ 15 bilhões, de acordo com dados da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês).

Os principais vilões foram a pirataria e o crescimento da troca de arquivos pela internet, através de programas como Napster, Kazaa e uTorrent. “Tivemos uma década perdida: o consumidor passou a achar que não vali a pena pagar pela música”, diz o presidente-executivo da distribuidora independente Tratore, Maurício Bussab. Quando startups como as suecas Spotify e Rdio e a francesa Deezer surgiram, em meados dos anos 2000, elas foram apontadas como uma alternativa para ampliar o acesso à música e reduzir a pirataria. “A indústria fonográfica esperou o bonde passar para pegar carona”, diz a diretora de operações da Vevo, Fátima Pissarra.

De la para cá, os serviços de streaming conseguiram atrair mais de 500 milhões de usuários, segundo dados da empresa de pesquisas Statista. A previsão é de que o setor encerre o ano com 623 milhões de ouvintes, chegando a 2020 com quase 1 bilhão de pessoas.

Longe do azul. O grande número de usuários, porém, ainda não foi suficiente para tornar esses serviços rentáveis. Serviço mais popular do mercado, o Spotify conta hoje com cerca de 75 milhões de usuários – 20 milhões deles pagam pela assinatura, que custa R$ 15 no Brasil.

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O serviço registrou receita superior a US$ 1 bilhão em 2014 e prejuízos operacionais de US$ 165 milhões no mesmo período. “Estamos perto de chegar ao azul e dar lucro – quase podemos tocar esse momento, na verdade. Mas ainda estamos investindo muito para poder crescer”, diz a diretora geral do Spotify para a América Latina, Mia Nygren.

Em escala menor, o Deezer teve perdas de US$ 31 milhões e receita de US$ 163 milhões no ano passado. A empresa pretendia levantar mais de US$ 400 milhões em sua abertura de capital, mas teve problemas para atrair investidores. “Entrar na bolsa é um caminho certo, porque falta transparência nesse mercado”, diz o vice-presidente do Deezer para a América Latina, Mathieu Le Roux.

O prejuízo constante foi a principal razão que tirou a Rdio do mercado de streaming. Após pedir falência, a empresa vendeu parte de seus ativos para o Pandora, misto de streaming de música e rádio online que lidera o setor nos Estados Unidos, por US$ 75 milhões. “Eles estavam perdendo US$ 2 milhões por mês. Nenhuma empresa pode funcionar indefinidamente assim”, diz Bussab.

Essas movimentações, no entanto, fazem parte do jogo em um mercado que ainda precisa amadurecer. Segundo o diretor para indústria de mídia e entretenimento da consultoria Accenture, Luis Bonilauri, as empresas ainda precisam ganhar escala para tornar rentável o modelo de negócios misto – que inclui a receita com assinaturas, mas também com publicidade. “O modelo híbrido é interessante, porque permite ao usuário testar o serviço de forma ampla antes de decidir assiná-lo.”

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Nos próximos anos, o mercado deve se consolidar, a exemplo do que ocorreu no e-commerce, com a Amazon na liderança; e no streaming de vídeo, com o Netflix. “A estratégia é ganhar mercado, se tornar uma marca de referência e buscar uma rentabilidade maior”, diz o diretor da Accenture.

Apóstolos. Para os executivos das principais empresas de streaming que atuam no País, a palavra de ordem é evangelizar. “É um mercado incipiente no Brasil. No dia que pudermos falar em dezenas de milhões de usuários, mudaremos o mercado fonográfico brasileiro”, diz o diretor de parcerias para América Latina do Google Play Música, Ady Harley.

Para Mia, do Spotify, os brasileiros não sabem o que é streaming de música. “Nós ainda precisamos ensinar aos usuários. Quando chegamos a um território em que o Netflix já esta presente se torna mais fácil explicar”, diz a executiva.

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O cenário deve mudar nos próximos anos. “A partir de 2017 os negócios vão se tornar rentáveis. Talvez o Spotify possa se tornar rentável até antes”, aposta o diretor-geral da ONErpm, Arthur Fitzgibbon – a empresa é responsável por intermediar a relação entre os serviços de streaming e os artistas.

Rivalidade. Mesmo quando se tornarem lucrativos, os serviços de streaming ainda terão que enfrentar o gigante YouTube. Segundo dados de uma pesquisa realizada em janeiro pela empresa Opinion Box, o site de vídeos do YouTube é utilizado por 73% dos brasileiros para ouvir música – perdendo apenas para o rádio, com 76%. Os serviços de streaming, por sua vez, eram utilizados por apenas 28% dos entrevistados.

Outro desafio é ser diferente. Hoje, todos os serviços investem em um grande catálogo de música (que varia entre 30 e 35 milhões) e na ênfase da descoberta, que pode ser feita por sugestão de um curador ou por algoritmos que investigam o gosto do usuário. “Os serviços são bem parecidos”, diz Fabrício Ofuji, músico da banda Móveis Coloniais de Acaju.

Há quem aposte que os serviços de streaming terão de ir além: no futuro, eles podem tomar o lugar das gravadoras. “Os streamings devem apostar em artistas novos, com um gosto de exclusividade. Não tenho a menor dúvida de que veremos isso em breve”, diz Bonilauri.

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