Novos smartphones buscam mercado ‘super premium'

Com iPhone X e Galaxy Note 8, vendidos por cerca de US$ 1 mil nos EUA, fabricantes vão atrás dos consumidores de renda mais alta

Por Bruno Capelas e Claudia Tozzeto
Atualização:
O novo iPhone X, quase sem bordas; com novos aparelhos, Samsung eApple querem atrair clientes de alta renda Foto: Washington Post

Na semana passada, as definições de “smartphone caro” foram atualizadas: ao lançar o novo iPhone X, modelo comemorativo de 10 anos da linha, a Apple alcançou um patamar nunca antes visto na indústria de tecnologia, ao cobrar US$ 1 mil por um celular. A sul-coreana Samsung, principal rival da empresa do iPhone neste mercado, já havia flertado com esse nível ao fixar o valor do Galaxy Note 8, seu mais recente modelo de alto padrão, em US$ 930 nos Estados Unidos.

PUBLICIDADE

Juntos, esses dois dispositivos parecem abrir caminho para uma nova categoria no mercado, a “super premium”, com smartphones que podem chegar às lojas do Brasil em torno de R$ 5 mil. Para analistas ouvidos pela reportagem do Estado, esta nova categoria vai além de só exibir recursos cada vez mais robustos e, de certa forma, quer cativar os amantes do luxo.

Há espaço para isso. Mesmo no Brasil, onde pagar o equivalente a US$ 1 mil por um smartphone não é algo exatamente novo. Desde 2010, quando o iPhone 4 chegou às lojas do País por R$ 1,7 mil – e o dólar na época era negociado na casa de R$ 1,70 –, tem sido assim.

Além disso, mesmo em tempos de crise o mercado de smartphones premium – acima de R$ 3 mil – tem crescido no País. Segundo dados da consultoria IDC Brasil, o segmento chegou a 600 mil unidades no segundo trimestre de 2017, com alta de 41% em relação ao mesmo período de 2016. Para Leonardo Munin, analista da IDC, o brasileiro tem percebido, cada vez mais, a importância de um bom smartphone na sua vida. “O consumidor passa o dia todo ligado ao seu celular, é o principal dispositivo dele”, diz.

Ainda de acordo com a consultoria, de cada US$ 100 gastos com dispositivos de tecnologia (celulares, tablets e PCs) no Brasil, US$ 77 são consumidos em smartphones – em 2010, a liderança era dos PCs, com US$ 50 para cada US$ 100. “Ao comprar um novo dispositivo, o usuário sempre aceita pagar mais caro por um modelo melhor”, diz o analista, acrescentando que aspectos como design e status fazem diferença.

“O iPhone X e o Galaxy Note 8 vão aumentar a barra de preços, permitindo que outros fabricantes também explorem essa faixa”, avalia Tuong Nguyen, analista da consultoria Gartner. “Ao estabelecer a marca de US$ 1 mil, a Apple mostra que tem o poder de atrair consumidores de luxo, diferenciando-os de quem compra um iPhone 8, vendido a US$ 699.”

Mais do mesmo. Um aspecto que chama a atenção, no entanto, é a relação entre preços e a quantidade de inovações oferecidas. Em vez de recursos disruptivos, como traziam nas primeiras gerações, agora os aparelhos ganham inovações incrementais, que melhoram a experiência, mas não são revoluções.

Publicidade

O Galaxy Note 8 tem recursos muito parecidos com os do Galaxy S8, apresentado pela Samsung no início deste ano. No caso do iPhone X, o sistema de reconhecimento facial e a tela quase sem bordas já apareceram em concorrentes.

Se decepcionam em “grandes novidades”, os smartphones “super premium” não deixam a desejar em melhorias no processamento, memória RAM e armazenamento. “É uma evolução que não inova, mas que faz diferença em como o consumidor sente o celular”, explica Munin, da IDC Brasil. “É preciso investir num hardware robusto que seja capaz de processar o vídeo, o game ou a foto.”

Segundo Renato Franzin, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), esses componentes, sozinhos, não justificam os US$ 300 de diferença entre um iPhone 8 e um iPhone X. Juntos, porém, fazem diferença no custo. A escolha da Apple em utilizar telas de OLED, por exemplo, aumentou o custo do iPhone X. Segundo o analista Ming Chi-Kuo, da consultoria KGI Securities, cada tela custa US$ 125 à Apple – mais que o dobro do preço da tela de outros modelos.

PUBLICIDADE

Lacuna. A criação de uma nova categoria é ainda uma oportunidade de diversificação. Maior fabricante de smartphones do mundo, a Samsung já explora isso há algum tempo. No segmento acima de R$ 2 mil, ela tem três linhas de aparelhos diferentes.

Ao apresentar três novos iPhones, sem aposentar linhas anteriores, a Apple criou uma família maior de modelos, vendidos no País entre R$ 2 mil e R$ 5 mil – preço projetado para a chegada do iPhone X ao Brasil. “A Apple expande o poder de escolha do consumidor e se aproxima do mercado intermediário”, diz Frank Gillett, vice-presidente da consultoria Forrester. 

Há, no entanto, quem aposte em um tipo diferente de premium, mais acessível. “Nossa estratégia é diferente”, diz Sérgio Buniac, presidente da Motorola para a América Latina. “O consumidor não precisa pagar muito para ter experiências premium.”

No passado, a empresa conquistou sucesso ao vender aparelhos de R$ 700 com 4G. Agora, a tática é oferecer tecnologias como sensor de impressão digital e câmera dupla por menos de R$ 3 mil. A receita tem dado certo no País. Ao lançar o Moto Z, que bate de frente com iPhone e Galaxy, mas é mais barato, a empresa cresceu 59% em unidades vendidas no primeiro semestre de 2017 ante o mesmo período de 2016. A indústria cresceu 17% no mesmo intervalo, segundo a IDC Brasil.

Publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.