Após aporte de US$ 190 mi, MadeiraMadeira é o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021

Especializada em venda online de material de construção e de móveis, startup ultrapassa a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado

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Por Bruno Romani
5 min de leitura

A quarentena forçou muita gente a ficar em casa, o que acabou impulsionando alguns novos hábitos. Reformas e investimentos no lar ganharam força - afinal, a casa virou também escritório e escola. Ao mesmo tempo, o comércio online foi impulsionado. Não é coincidência, portanto, que o primeiro ‘unicórnio’ brasileiro de 2021 esteja ligado a esses dois novos hábitos. Especializada em venda online de material de construção e móveis, a startup curitibana MadeiraMadeira anuncia nesta quinta, 7, que o seu valor de mercado superou a marca de US$ 1 bilhão, após receber um aporte de US$ 190 milhões.

A rodada foi liderada pelo conglomerado japonês Softbank, que já havia investido R$ 110 milhões na empresa em 2019, e pela gestora de fundos de ações Dynamo. Participaram também Flybridge e Monashees, que já haviam feito aportes na empresa em rodadas anteriores, além de VELT Partners, Brasil Capital e Lakewood Capital. Essa foi a quinta rodada de investimentos da MadeiraMadeira, que acabou transformando a startup no 14º unicórnio brasileiro. 

“A janela de oportunidade para o investimento era positiva. Em um cenário assim, é preciso ficar atento para que outros competidores não passem na frente”, explica ao Estadão Daniel Scandian, cofundador e CEO da MadeiraMadeira. “Iniciativas que desenvolvemos, como o braço logístico, deram certo e decidimos acelerar as apostas. Investimentos que seriam feitos em três anos caíram para um”, diz. 

Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira Foto: MadeiraMadeira

Fundada em 2009, a startup teve um ano bastante agitado em 2020. A companhia aumentou as vendas em 120% no ano - após queda de 50% em março, a startup teve um salto de 250% nos negócios em abril. Com isso, o time também dobrou. No começo de 2020, o quadro tinha 600 funcionários - terminou com 1.300. O objetivo da startup é chegar ao final de 2021 com 2.700 contratados. Outros números do ano passado que também orgulham o executivo são as inaugurações de dez centros de distribuição e de nove lojas físicas. 

“Esse investimento na MadeiraMadeira aconteceria independentemente da pandemia, pois a empresa já vinha apresentando bons números”, diz Paulo Passoni, sócio do Softbank na América Latina. “O mercado em que eles atuam ainda está no começo. Ele ainda é extremamente ineficiente. O relacionamento entre os fabricantes e o consumidor demora e o preço é alto. É isso que estamos tentando mudar com a MadeiraMadeira”, diz. 

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Inspiração

Para o consumidor, uma das coisas que chama a atenção na startup é o fato de que ela oferece produtos, principalmente móveis, com preços baixos - uma escrivaninha pode custar a partir de R$ 110. Na plataforma, existem tanto vendas diretas como um marketplace. Scandian não entrega todo o segredo de como isso é possível, mas dá algumas pistas. 

“Trabalhamos com margens magras e economia de escala. Todos os ganhos que temos na cadeia repassamos ao consumidor. Temos metas internas para sempre reduzir os custos”, diz. É uma visão que lembra a de alguns fabricantes chineses de smartphones, como a Xiaomi, que se popularizaram recentemente por dispositivos bons e baratos. A inspiração para Scandian, porém, é mais antiga: “Queremos ser o que o Walmart foi nos anos 1970 e o que a Amazon foi na década de 1990”.

“O modelo da MadeiraMadeira também está ligado a comercializar diretamente o estoque dos fornecedores, o que reduz o número de ‘mãos’ na cadeia. Além de reduzir custos, é um formato que se encaixa bem no mundo de pandemia”, explica Guilherme Fowler, professor do Insper. De fato, o braço logístico da empresa deverá ser um de seus diferenciais. 

“Móveis não navegam na mesma malha que, por exemplo, uma caixa de tênis. Ítens grandes e pesados precisam de uma rede de distribuição diferenciada. É isso que permite à Madeira Madeira competir com os grandes nomes do comércio eletrônico. O foco deles não é esse”, diz Passoni.

Investimentos

A melhoria da logística de produtos está altamente ligada a um dos pontos de atenção da startup depois do investimento: melhorar a experiência do cliente. Recentemente, a MadeiraMadeira passou por uma situação incômoda. No final de dezembro, a jornalista Vera Magalhães publicou no Twitter reclamações sobre uma compra feita na MadeiraMadeira que supostamente não teve seu prazo de entrega cumprido. O barulho nas redes sociais chegou até a Scandian. 

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Sem citar a jornalista, ele disse: “Recentemente, tive uma aula com a Luiza Trajano, do Magazine Luiza. Ela me ligou após um problema com um cliente que temos em comum. Foi um puxão de orelha para entender o quanto o cliente é importante. Rapidamente, montamos um plano de trabalho agressivo para 2021”, diz ele. 

Os especialistas também enxergam a satisfação do cliente como o grande desafio da empresa a partir de agora. “O desafio de qualquer e-commerce é como chegar até o consumidor. Com o crescimento, a escala aumenta, o que também aumenta as chances de problemas ocorrerem”, diz Felipe Matos, presidente eleito da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e colunista do Estadão. “Para um influenciador, é mais fácil reclamar, mas precisa funcionar para todo mundo”, diz. 

Para o Softbank, é possível reduzir o tempo de entrega de produtos grandes de duas semanas para cinco dias - ou até dois em cidades como São Paulo. 

Entre os outros investimentos que a empresa fará com o novo aporte estão: reforçar sua marca própria de móveis, aumentar a presença física e fazer aquisições de outras startups - um time interno já foi criado para avaliar possíveis negócios. Sobre o primeiro item, a MadeiraMadeira se inspira na sueca Ikea, que oferece o chamado “design democrático”, produtos atraentes por preços baixos.

Já em relação às lojas físicas, o formato adotado é o de “guide shop” - espaços pequenos que permitem conhecer ao vivo alguns produtos e fazer encomendas online. Scandian diz que a pandemia ainda não permitiu explorar todo o potencial desses espaços que, segundo ele, tendem a crescer. Por outro lado, Passoni lembra que o contexto de pandemia permite negociar aluguéis mais baratos.

Abertura de capital 

Após virar unicórnio, Scandian admite que espera abrir o capital da companhia em algum momento. A escolha dos investidores na nova rodada é uma indicação. “Os novos investidores têm um perfil voltado ao mercado público de ações. Eles são investidores de mercado público com um pé no investimento privado - a ideia é orientar os passos até a abertura de capital.Eles podem nos orientar da mesma maneira que fizeram os primeiros investidores da companhia”.

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Ele, porém, não estima uma data para que isso ocorra. “Com essa nova captação, precisamos focar na execução e no retorno, o que nos tornará uma empresa mais sólida e maior. Queremos abrir o capital quando tivermos as nossas iniciativas mais provadas. Estamos montando um time para fazer o IPO em algum momento. E ele poderá acontecer tanto no Brasil quanto fora”, diz. 

Para Felipe Matos, a consolidação da MadeiraMadeira é também positiva para o ecossistema brasileiro de startups. “Começamos a ver os unicórnios brasileiros diversificando o perfil, saindo das fintechs”, diz - ele faz referência ao fato de que a maioria das startups nacionais mais valiosas são bancos digitais, como o Nubank, ou trabalham com crédito, como a Creditas. “Podemos gerar valor fora de um segmento específico. E isso é uma boa notícia”, diz.

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