Política 2.0 na Livraria Cultura nesta quarta

Se a internet aproxima as pessoas, por que não aproximá-las para fazer política? Este é o tema do primeiro debate dos Encontros Estadão & Cultura

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Por Redação Link
Atualização:
Flickr @ Sampaist – CC 

Começa nesta quarta-feira, 12, a série que o Link promove na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Além do debate sobre a política 2.0 no primeiro dia, as mesas tratarão ainda sobre sobre empreendedorismo em tecnologia (na quinta-feira, 14) e o livro na era digital (sexta-feira, 15). As atividades começam sempre 12h30 e os debates poderão ser acompanhados via Twitter através da hashtag #estadaonacultura.

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Na estreia do projeto, o editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado Pedro Doria, discutirá iniciativas de webcidadania com Rodrigo Bandeira, criador do site Cidade Democrática, e com o analista de mídias sociais Pedro Markun, um dos criadores do Transparência Hack Day.

Lançado em outubro de 2009, o Cidade Democrática “é um espaço em que questões públicas são enunciadas, apoiadas e resolvidas, além de organizar as informações para possibilitar a qualquer um saber o que está acontecendo em cada cidade, estado ou bairro com relação aos mais diversos temas”, como diz seu criador, em entrevista ao Link.

Na mesma época, acontecia a primeira edição do Transparência Hack Day, organizado pela Esfera e sediado pela Casa de Cultura Digital. A intenção era criar um espaço para que interessados em promover políticas públicas encontrassem desenvolvedores que criassem aplicativos que organizassem informações públicas relevantes. De lá saíram o SAC-SP e o Observatório do Marco Civil, por exemplo. Na semana passada, conversamos com os dois participantes do debate:

Markun, do Transparência Hack Day, e Bandeira, do Cidade Democrática

Qual a principal dificuldade dos projetos de webcidadania no Brasil, hoje? Já existe uma cultura de liberação de dados públicos pelo governo brasileiro?

Rodrigo Bandeira: As ferramentas que hoje estão ligadas ao movimento #webcidadania são exclusivamente brasileiras, construídas a partir da sociedade (não-governamentais, nesse sentido), fomentam a participação cidadã e fazem isso não exclusivamente por meio da web. As vezes, as pessoas acham que queremos fazer cidadania pela web. Não é isso. Queremos usar a web para fortalecer ações de participação usando as possibilidades da construção colaborativa, gestão de conhecimento, inteligência coletiva e promovendo a interoperabilidade das ferramentas que fazem isso das formas mais diferentes. Assim, mais que tudo, estamos propondo algo inovador que não é rapidamente entendido (ou aceito) por todos. Nosso primeiro desafio é que as pessoas entendam e não percebam isso como algo estranho e distante delas. Assim, o obstáculo é a necessária mudança de paradigma, mudança cultural de participação cidadã.

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Pedro Markun: Não compactuo muito com essa nomeclatura de webcidadania. Os projetos web tem os mesmos problemas de sempre, modelo de negócio e receita. E os projetos de cidadania (digital ou não) continuam com o velho problema de como engajar as pessoas e transformar um processo, ainda que tecnocraticamente reluzente, em algo real e efetivo. A cultura dos dados públicos começa a se estabelecer no país, ainda temos poucos – ou nenhum – exemplo concreto, mas o interesse é crescente e aparentemente legítimo por parte do poder público. É possível, antes mesmo dos dados públicos, mostrar como o público pode interagir com toda essa informação gerando riqueza de conhecimento e melhorando colaborativamente as práticas de governo e governança.

Falta no Brasil uma iniciativa como o Data.gov.uk? Existe alguma possibilidade de termos algo assim por aqui, ligado ao poder público?

Rodrigo Bandeira: Não sei sobre a probabilidade, mas isso é certamente possível e desejável. Sei que há muitas coisas interessantes nesse sentido como o Legisdados e o SAC-SP. Tenho certeza que muitas coisas estão sendo desenvolvidas por aí e vamos continuar tendo boas surpresas pela frente. Quanto a ferramentas que permitam a construção de propostas e problemas a partir da sociedade, é também no Reino Unido onde encontramos algumas experiências muito interessantes como o The point. Outras ferramentas bacanas tem surgido nos EUA como o My Society. Mas acho que o Brasil, por suas características de alta criatividade, muitas demandas sociais, espaços de participação social reprimidos a muito tempo e grande capital social, é o melhor lugar para iniciativas deste tipo despontarem e frutificarem.

Pedro Markun: Falta, sem sombra de duvidas, uma iniciativa real que priorize os dados públicos e a transparência como política de governo. É plenamente possível estabelecer algo análogo ao que aconteceu nos EUA ou no Reino Unido, basta vontade política e um acompanhamento de perto da sociedade. Tecnicamente é bem pouco complicado e os benefícios são inegaveis, é uma questão política sempre mascarada por dificuldades técnicas e velhos departamentos de TI. Mas acredito que com um plano bem estruturado e uma cobrança efetiva, poderíamos ter algo similar em um curto – ou médio – espaço de tempo.

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A internet muda a forma com que as pessoas se relacionam com a política? Cada vez mais, a web 2.0 aproxima o povo dos governantes, mas essa aproximação já tem algum reflexo prático?

Rodrigo Bandeira: Muda pelas próprias características da internet que, como já dissemos, permite gestão do conhecimento (todas as conversas, apoios e registros ficam lá para cada um fazer sua leitura), construção coletiva de conhecimento, amplo acesso à informação, por um custo relativamente baixo e com grande velocidade. Assim, o que antes implicava fazer vários telefonemas, duas ou três reuniões, preparar cartazes, conseguir equipamentos de som e mobilizar pessoas por algumas horas, hoje pode ser feito com relativamente pouco esforço e com um resultado muito melhor em termos de visibilidade e impacto real. Com relação aos reflexos práticos, vejo que o maior resultado que poderemos ter é que o brasileiro comece a tratar melhor do seu quintal e ofereça sua melhor contribuição para que o mesmo seja feito no nosso grande quintal coletivo que é o país.

Pedro Markun: As redes digitais, e a possibilidade de comunicação em larga escala com baixo custo aberta por elas já é por si só uma revolução política. Acredito que a internet cria novas formas de participação política, sobretudo em democracias representativas. Temos sim vários reflexos práticos dessas tecnologias, ainda que não com a magnitude ou profundidade que esperamos. Ou mesmo que longe do potencial real que as redes digitais trazem em si. Estamos engatinhando pela rede a procura de formas efetivas de participação, o sistema político precisa se adaptar na (quase) mesma medida que a sociedade precisa se adaptar para esses novos poderes e responsabilidades. Mas esse caminho é bastante sem retorno, recentes movimentos sociais organizados vem mostrando que a rede é uma arma poderosa. E por outro lado os governos vem se mostrando surpreendentemente abertos a esse tipo novo e eficaz de participação.

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ENCONTROS ESTADÃO & CULTURA

POLÍTICA 2.0 | O primeiro debate da série, mediado por Pedro Dória, editor-chefe de conteúdo digital do Grupo Estado, na quarta, 12, discute a internet como meio de fazer política. Participam Rodrigo Bandeira, do site Cidade Democrática, e Pedro Markum, do Transparência Hack Day.

NEGÓCIOS | Na quinta, 13, a mesa comandada por Renato Cruz, repórter de Economia do jornal, será sobre os negócios de tecnologia no Brasil. Estarão lá Aleksandar Mandic, da Mandic, Marcelo Romeiro, da Rio Bravo, Gustavo Morale, da HotWords, e Romero Rodrigues, do Buscapé.

E-BOOK | A leitura digital é pauta o debate comandado pelo editor do Link, Alexandre Matias, na sexta, 14, que terá participação de Flávio Moura, diretor de programação da Flip, e Samuel Titan, do Instituto Moreira Salles.

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