Alunos aprendem menos no fim do fundamental

Estudantes com desempenho mais alto ao término da 4ª série não conseguem o mesmo resultado na 8ª, indica análise da Prova Brasil

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h09

Os alunos que alcançam os melhores resultados nos anos iniciais do ensino fundamental (da 1.ª à 4.ª série) não conseguem manter o desempenho nos anos seguintes. Pelo contrário, os que têm as notas mais altas ao fim da 4.ª série são os que menos conseguem ter um bom rendimento até o final da 8.ª série.

A constatação é feita com base em uma análise comparativa entre os resultados obtidos na Prova Brasil pelos estudantes das redes públicas que estavam na 5.ª série em 2007 e na 8.ª em 2011. O recorte tem como premissa a ideia de que, se progrediram como o esperado e não deixaram o estudo, as duas avaliações foram feitas pelos mesmos estudantes.

Isso faz com que se questione a interpretação do governo de que a melhora geral no aprendizado dos alunos dos anos iniciais - como se observou no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2011, divulgado na semana passada - fará com que a atual geração de estudantes chegue mais bem preparada e, consequentemente, aprenda mais no segundo ciclo do ensino fundamental. A longo prazo, diz o governo, a melhora repercutiria no ensino médio.

"Isso não se comprova. Os números mostram que nas redes em que os alunos ingressam mais preparados - mas ainda sem todas as habilidades esperadas para o final do primeiro ciclo - os anos finais têm agregado menos", resume Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, que fez a tabulação dos dados.

"Um melhor resultado nos anos iniciais tem mais modificado o formato da curva de crescimento que promovido um grande impacto sobre as habilidades que o aluno domina ao final do ensino fundamental."

É o que se observa na rede pública do Distrito Federal. Em 2007, nos anos iniciais, os alunos tinham as maiores notas de português e matemática do Brasil. Em 2011, quando esses mesmos estudantes chegaram ao fim do fundamental, os resultados mudaram radicalmente. Foram eles os que menos agregaram aprendizado: subiram apenas 43 pontos em matemática e 52 em português.

Muito pouco, se forem considerados os parâmetros de progresso estabelecidos pela ONG Todos pela Educação, que preveem um acréscimo de 75 pontos do primeiro para o segundo ciclo do ensino fundamental.

Nenhum Estado alcança esse índice de crescimento. O que fica mais perto é exatamente o que tinha as piores notas em 2007: o Rio Grande do Norte. O crescimento foi de 63 pontos em matemática e 74,5 em português. Com o crescimento, os alunos conseguiram, no fim do fundamental, o que era para ter sido obtido já nos anos iniciais.

"Isso mostra que sempre é mais fácil melhorar quando você está ruim demais", sintetiza Paula Louzano, professora da Faculdade de Educação da USP. Para ela, é exatamente esse o ciclo que mais merece atenção. "O ensino médio não está bom, mas o foco prioritário deve ser os anos finais do fundamental porque, como os dados mostram, chegar preparado não é garantia alguma de que se agregará mais."

Mesmo porque, se forem analisadas as cidades isoladamente, encontram-se casos de municípios que tinham bons resultados em 2007 e, na comparação com 2011, retrocederam.

Em Taquarivaí (SP), o desempenho em matemática dos estudantes nos anos finais foi 52 pontos menor que o que obtida, em 2005, pelos alunos dos anos iniciais. Na Barra do Chapéu, também no interior paulista, a defasagem foi de 35 pontos.

Causas. A queda na evolução do aprendizado se deve a várias razões. Um dos motivos, sugerem especialistas, é que a transição do primeiro para o segundo ciclo é complexa e coincide com a adolescência.

"O estudante está em uma idade sensível e troca o dia a dia que tinha, com a sala de aula com um professor polivalente, por uma nova rotina com vários docentes e muitas disciplinas", explica Isabel Santana, gerente da Fundação Itaú Social. Somado a isso, acrescenta Isabel, pode haver conhecimento da disciplina, mas despreparo didático dos professores dos anos finais. "Talvez eles tenham uma técnica mais apurada, já que têm formação específica, mas lhes falte o preparo metodológico do pedagogo."

Por fim, afirma Faria, a queda no aproveitamento pode refletir uma inconsistência da formação inicial desses estudantes, mesmo nas redes que conseguem os melhores resultados.

Esses sintomas foram diagnosticados no Distrito Federal e, para que o ritmo de crescimento não diminua tão fortemente, a Secretaria de Educação tem apostado na formação de docentes ao mesmo tempo em que examina os vácuos no conteúdo dos anos iniciais. "Estabelecemos essas medidas porque vimos o quanto perdemos de um ciclo para o outro. Acreditamos que veremos resultados no próximo Ideb", disse a subsecretária de Educação Básica, Sandra Zita.

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