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Devagar e sempre

O Palmeiras não precisa se afobar para ganhar o título. Restam três rodadas de tempo

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

20 Novembro 2016 | 05h00

Os operários das fábricas de roupas que fizeram a fama do Bom Retiro desde a metade do século passado não gostavam quando algum dos ônibus que vinham da Estação da Luz desembestava na descida da rua José Paulino. Se o motorista pisava com gosto no acelerador, era comum subir uma voz lá de trás: “Amigo, vai devagar porque eu estou com pressa!” A lógica da observação era perfeita: melhor caminhar em velocidade constante do que correr demais e se enroscar em acidente; no fim das contas, a perda de tempo seria maior. 

O preceito popular serve para o momento que o Palmeiras vive no Brasileiro. Há 20 e tantas rodadas está na frente dos demais, agora com vantagem de quatro pontos sobre o vice-líder Santos (71 a 67) e cinco de distância do Flamengo (66). Nas três rodadas que restam, joga duas vezes em casa – hoje contra o Botafogo e domingo que vem diante da Chapecoense – e encerra o ano contra o Vitória em Salvador. 

Os cálculos lhe são muito favoráveis e, para não depender de nenhuma derrapada de Fla e Santos, que se enfrentam na próxima semana, basta ganhar dois desses três jogos. Soma simples: vai para 77 pontos, o suficiente para deixar os outros a chupar dedo. 

Para trocar em miúdos, isso significa que não cabe afobação para Cuca e a rapaziada sob o comando dele. Compreensível que treinador e atletas sintam ansiedade à medida que a conquista se aproxima. Mesmo que estejam na casa há pouco tempo, percebem a pressão pelos 22 anos sem colocar a faixa no peito e levantar a taça. Absorvem a angústia do torcedor. Para arrematar, não há diferença enorme para os dois diretos perseguidores – e vêm em mente histórias de 2009, o ano em que a festa era barbada e virou frustração.

Tudo isso se leva em consideração. Mesmo profissionais da bola são pessoas como qualquer um que estará hoje nas arquibancadas do Allianz; portanto, sujeitos às pegadinhas da emoção. O desafio de Cuca não se limita a definir estratégia para cravar outros três pontos. Passa também por domar os nervos dos moços e convencê-los de que há 270 minutos, no mínimo, para pôr na sacola os pontos suficientes.

Por que a recomendação para ir devagar e sempre? Pela adrenalina acentuada que rolou no clássico com o Atlético-MG, na quinta-feira. Os jogadores do Galo recorreram à tática do sufoco e de alguma provocação – nada anormal nem fora dos padrões. Mas a turma palestrina entrou na “pilha” e, com menos de 15 minutos, por pouco não saiu um bafafá e tanto. Por sorte, o juiz preferiu contemporizar. Caso contrário, Gabriel Jesus teria levado vermelho (junto com Leandro Donizete). Poucos minutos depois, Dudu travou bate-boca de rua com Robinho. Parecia que o Palmeiras estava a correr em busca do topo – e era o contrário.

O líder é verde. Ponto. Eis a verdade objetiva, óbvia e indesmentível. Se há quem não goste do estilo de Cuca e trupe, nada a contestar; a vida é feita de opiniões nem sempre convergentes. E, vá lá, o Palmeiras não é uma das maravilhas do mundo moderno. O futebol mostrado, nas 35 jornadas até aqui, nem sempre foi impecável, de encher os olhos. Não teve técnica refinada constante. 

Mas funciona, tem regularidade e equilíbrio. Como o Corinthians de 2012, por exemplo, em diversas ocasiões fez a vantagem e soube controlar o ânimo rival; correu pouco risco e isso é mérito, não sinal de fraqueza. Em várias oportunidades, foi salvo pela zaga ou pelas defesas de Prass e Jailson. Estão lá para isso, formam a equipe. Alguém pode argumentar: “E quando ganhou por talento individual?” Ótimo, se investe em bons jogadores com a esperança de que resolvam. Ou são figurantes?

Palmeiras: calma, cabeça fresca e pés leves, que o título vem. Hoje, na semana que vem, ou dia 4. Tanto faz.

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