Drama pessoal do pontífice não tem precedentes

Outros papas, como Pio X, Pio XII e Paulo VI, foram alvo de polêmicas, mas nenhum enfrentou tal crise de credibilidade

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

O papa Bento XVI, eleito para a sucessão de João Paulo II em 19 de abril de 2005, após ter dirigido desde 1981 a Congregação para a Doutrina da Fé, antigo Tribunal da Santa Inquisição, completa cinco anos de pontificado em meio a um drama pessoal que seus antecessores não enfrentaram em vida, no século passado.

As denúncias de milhares de casos de pedofilia no clero e a suspeita de que Ratzinger protegeu padres pedófilos provocaram para a Igreja Católica uma crise de credibilidade só comparável à Reforma de Lutero, na avaliação feita pelo teólogo suíço Hans Küng em carta aberta aos bispos do mundo inteiro.

Angelo Sodano, ex-secretário de Estado do Vaticano e atualmente decano do Colégio de Cardeais, atribuiu o envolvimento, ou tentativa de envolvimento, de Bento XVI no escândalo de pedofilia a uma suposta campanha para desmoralizar a autoridade da Igreja. Seria, segundo o cardeal, uma campanha comparável à sofrida por Pio X quando condenou o modernismo e por Pio XII, ao ser acusado de omissão por não ter defendido judeus na tragédia do Holocausto.

Há diferenças notáveis nesse paralelo que tornam mais dolorosa a crise provocada na Igreja pela ocorrência de casos de pedofilia no clero. Na polêmica em torno do modernismo, Pio X enfrentou os seus adversários no campo filosófico e teológico e, no caso do Holocausto, as acusações contra Pio XII se tornaram públicas após a sua morte.

O envolvimento, ou tentativa de envolvimento, de Ratzinger, primeiro como arcebispo de Munique e depois como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, atinge a pessoa do papa e desafia sua autoridade numa questão prática, com repercussão em todos os níveis da população. Os escândalos de pedofilia não atingem só a Igreja, são um problema de interesse da sociedade.

Se um sofrimento experimentado por um papa no século passado se pudesse comparar ao de Bento XVI, seria a depressão de Paulo VI, diante da reação de católicos à carta encíclica Humanae Vitae, que manteve a doutrina da Igreja contrária ao controle artificial de natalidade. Havia uma expectativa de que o papa Montini reformasse a doutrina social da Igreja e permitisse o uso da pílula e de outros métodos em algumas circunstâncias, mas ele não fez isso. Rejeitou a opinião de teólogos de uma comissão encarregada de examinar o assunto que recomendavam a mudança. A Humanae Vitae provocou uma onda de protestos e muitos casais católicos ignoraram a decisão do papa. Paulo VI estava convencido de que agiu como era preciso, mas caiu numa melancolia profunda. Não escreveu mais nenhuma encíclica, nos dez anos seguintes, até o fim de seu pontificado.

Perdendo o sono. "Bento XVI deve estar perdendo sono por causa dessa crise, mas acho que ele se sente seguro em relação às medidas tomadas para conter os abusos e punir os culpados", disse o padre Vando Valentini, coordenador da Pastoral Universitária e do Núcleo Fé e Cultura, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ao contrário de críticos que apontam hesitação, fraqueza e omissão nas atitudes do papa, ele analisa a firmeza demonstrada por Ratzinger na condução de episódios polêmicos.

No combate à pedofilia, observou padre Vando, "Bento XVI enfrenta o problema abrindo o jogo e afirma que a Igreja não pode proteger os pedófilos". Essa é a posição que, conforme lembra o coordenador de Fé e Cultura da PUC, ficou clara na carta do papa aos bispos da Irlanda. "Bento XVI não pôs panos quentes, chamou o mal pelo nome e, reconhecendo que se trata de um problema gravíssimo, admite que a Igreja deve pagar pela responsabilidade que tem." O texto condena a pedofilia, mas fala também de reconciliação e perdão, repetindo o que Cristo ensinou.

Padre Vando considera igualmente positivo o encaminhamento dado por Bento XVI a outros desafios, como o diálogo com os muçulmanos, as relações com os judeus e a reaproximação com as igrejas cristãs, como a Luterana, a Anglicana e a Ortodoxa, tanto a grega como a russa. "O papa surpreendeu aqueles que viam nele um homem de direita, ao publicar a encíclica Caritas in Veritate, na qual trata de economia, política e ecologia, ao analisar a crise mundial."

Para o padre Márcio Fabri dos Anjos, professor de Teologia Moral do Instituto, uma dificuldade enfrentada pela Igreja é que ela tradicionalmente resolve seus problemas em âmbito interno e, no caso da pedofilia, vê-se na obrigação de dar explicações à sociedade. "Como fazer isso, combater o crime por seus próprios instrumentos e ao mesmo tempo denunciar o criminoso ao poder civil?", questiona. Esse dilema pesa nas costas de Bento XVI, na medida em que vê sua autoridade ser contestada e a credibilidade da Igreja, abalada.

REALIZAÇÕES DE BENTO XVI

Viagens

O atual papa fez 14 viagens apostólicas para fora da Itália e 17 dentro do país que abriga o Vaticano. Em maio de 2007, Bento XVIveio ao Brasil, onde passou por São Paulo e por Aparecida.

Encíclicas

Publicou três encíclicas: Deus Caritas Est (Deus é amor), de dezembro de 2005, Spe Salvi (Salvos pela esperança), de novembro de 2007, e Caritas in Veritate (A caridade na verdade), de junho de 2009.

Canonizações

Bento XVI aprovou a canonização de 28 novos santos, entre eles um brasileiro (Frei Galvão). Também proclamou 265 novos beatos, dos quais 5 são do Brasil.

Cardeais nomeados

Foram 40 cardeais nomeados pelo papa, sendo que 8 deles não são eleitores e 1 morreu antes de receber o barrete. O Colégio de Cardeais possui hoje 182 membros, dos quais 108 podem participar das eleições para um novo papa.

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