Tunísia liberta prisioneiros; governo segue sob pressão

A Tunísia anunciou na quarta-feira a libertação de seus últimos presos políticos, enquanto o novo governo provisório continua sob pressão para afastar de seus quadros figuras do antigo regime.

CHRISTIAN LOWE, REUTERS

19 de janeiro de 2011 | 17h14

Najib Chebbi, que em menos de uma semana passou de marginalizado líder da oposição a ministro do novo gabinete, disse à Reuters que "todos os prisioneiros políticos foram libertados hoje".

Isso inclui membros do proscrito movimento islâmico Ennahdda. Mas não foram divulgadas cifras sobre o número de libertados - na verdade, nunca se soube quantas pessoas foram detidas por motivos políticos durante os 23 anos de governo de Zine al Abidine Ben Ali, que na semana passada fugiu para a Arábia Saudita, pressionado por uma rebelião popular.

Líderes árabes tradicionalmente citam a ameaça do radicalismo islâmico para justificar medidas repressivas aos seus aliados ocidentais, mas a oposição islâmica da Tunísia sempre foi bem menos visível do que em Estados mais pobres e menos laicos da região.

Na quarta-feira, cerca de 500 pessoas - menos do que em dias anteriores -participaram em Túnis de uma manifestação contra a presença de partidários de Ben Ali no governo provisório comandado pelo primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, ele próprio egresso do antigo regime.

Quatro membros da oposição deixaram o novo gabinete menos de um dia depois de serem nomeados, em protesto contra a permanência dos aliados do antigo governo. Eles dizem que a população está frustrada com os rumos da "Revolução de Jasmim".

O professor Faydi Borni, um dos manifestantes presentes na avenida Bourguiba, a principal da capital, disse que os protestos irão continuar "até que nos livremos do partido do governo". "Nós nos livramos do ditador, mas não da ditadura. Queremos nos livrar desse governo que nos cala há 30 anos."

Apesar do protesto, a situação começa a se normalizar após a onda de manifestações que deixou mais de cem mortos nas últimas semanas, segundo a ONU. Ao contrário de noites anteriores, não houve relatos de tiroteios ou saques durante a madrugada de quarta-feira. A TV estatal disse que o toque de recolher será abreviado em três horas.

Tentando acalmar os protestos, na terça-feira Ghannouchi deixou a Reunião Constitucional Democrática, partido que governa a Tunísia desde a independência. O líder oposicionista Chebbi disse à Reuters que funcionários da RCD deixarão de receber salários públicos.

Além disso, a agência estatal de notícias informou que Ben Ali e vários parentes seus e da sua esposa, Leila, serão investigados por corrupção. A Suíça já congelou bens ligados ao ex-presidente.

A TV estatal disse que o governo libertou 1.800 prisioneiros que cumpriam penas inferiores a seis meses por crimes leves. Não ficou claro se esse número inclui presos políticos.

A incerteza política também começa a afetar a economia tunisiana, uma das mais estáveis da região. A agência de avaliações Moody's Investors Service rebaixou na quarta-feira a nota de crédito do país, e o Standard and Poor's ameaçou fazer o mesmo se a instabilidade continuar. O custo do seguro contra o não-pagamento de títulos da dívida pública tunisiana registrou forte alta.

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